Trump acaba de nos presentear com novo choque: tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de agosto

Por Eduardo Araújo
Nos anos 70, o choque do petróleo pegou o mundo de surpresa. Preços quadruplicaram sem aviso, países entraram em recessão, parecia o fim do crescimento. O Brasil escolheu caminho diferente: transformou crise em revolução energética com o Proálcool. Viramos referência mundial em biocombustíveis, criamos empregos, ganhamos autonomia. Trump acaba de nos presentear com novo choque: tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de agosto. A História se repete como oportunidade disfarçada de tragédia.
O Espírito Santo sente o golpe mais que outros estados. Vendemos um terço de nossas exportações para os Estados Unidos — dependência que nenhuma economia saudável deveria ter. Não é só o volume que preocupa. Nossa pauta exportadora para os americanos concentra-se perigosamente em meia dúzia de produtos: minério de ferro, café, celulose, aço e rochas ornamentais. Qualquer estudante de administração sabe: concentração excessiva é receita para desastre. Trump acaba de entregar a conta.
Mas a armadilha é mais sofisticada. Além de comprar nossos produtos, os americanos nos vendem as máquinas que modernizam nossos portos, os equipamentos que beneficiam nossas rochas, a tecnologia que torna nossa celulose competitiva. Se o Brasil retaliar — tentação política compreensível —, ficaremos prensados dos dois lados. Exportamos menos, importamos mais caro. É xeque-mate comercial desenhado com precisão. O prazo apertado, agosto já batendo à porta, reduz nosso espaço de manobra.
A crise expõe verdade inconveniente que preferíamos ignorar. Enquanto China compra metade do minério australiano e grande parte do café vietnamita, mal toca nas exportações capixabas. Não é mistério: nunca investimos seriamente em entender mercados asiáticos, construir relacionamentos, adaptar produtos. A rota americana sempre foi mais fácil — mesmo idioma dos negócios, mesmas práticas comerciais, mesmo fuso horário. Preguiça estratégica disfarçada de eficiência. Agora pagamos o preço da zona de conforto em dólares que não temos.
A transformação necessária exige mais suor que genialidade. Precisamos acelerar certificações para mercados asiáticos, processo que normalmente leva anos mas pode ser abreviado com vontade política. Escritórios comerciais permanentes em Xangai, Mumbai e Dubai, com profissionais locais que entendam sutilezas culturais. Adaptação inteligente de produtos: café premium para paladares europeus sofisticados, rochas ornamentais sob medida para construções árabes, celulose com especificações técnicas asiáticas.
Não fazer nada significa aceitar recessão localizada, demissões em massa, portos subutilizados. Agir significa investir no futuro — com retorno incerto mas necessário. Como nos anos 70, a crise chegou sem pedir licença. Transformá-la em oportunidade ou desperdiçá-la em lamentações? Entre Proálcool e paralisia, a História já mostrou qual caminho leva ao desenvolvimento.
Eduardo Araújo é economista, mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford; consultor do Tesouro Estadual na Sefaz-ES.

