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domingo, 21 abril, 2024

Café é vida! Ou não?

Uma das bebidas preferidas do brasileiro, o café conquistou paladares exigentes. Mas afinal, o que se sabe sobre seus benefícios e contraindicações?

Quem é que não gosta de acordar com aquele cheiro gostoso do café vindo da cozinha? Para muitas pessoas, o primeiro café do dia é quase um ritual. Além do simples prazer da degustação, o café também prenuncia mais um dia de atividades produtivas, graças à energia que confere a quem o bebe. Mas esta é apenas uma das faces do café.

Para além dos momentos sérios de trabalho, o café tornou-se um ritual social para uma conversa descompromissada, a oportunidade de se sentar, desfrutar de bons momentos e relaxar. Quem nunca ouviu de familiares ou amigos o tradicional convite tão sedutor: “senta um bocadinho que vou fazer um café fresquinho pra você”?

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Para alguns apaixonados por essa bebida, experimentar cafés de diferentes tipos se tornou uma experiência fascinante. E essa sensação de bem-estar é ainda melhor quando se descobre que, além de delicioso, o café faz bem para a saúde e pode ser um aliado na luta contra doenças, ajuda na digestão e até no rejuvenescimento das células do corpo, retardando o envelhecimento cerebral.

Para os “coffee lovers” de plantão, um dado curioso é saber que a partir desse pequeno fruto, com várias camadas nos seus 15 a 16 milímetros, haveria de crescer o poderoso império brasileiro do café. Um grão tão sedutor que, mesmo com apenas 0,352g de peso, foi capaz de movimentar a economia, aperfeiçoar a medicina e modificar comportamentos desde que floresceu pela primeira vez, no mundo e em terras brasileiras.

Magia na xícara

Existem muitos estudos sobre as propriedades e consumo do café. Atualmente, sabe-se que sua composição é tão diversa e complexa que acaba exercendo influência positiva e negativa na saúde. Saiba como anda a reputação dessa bebida que os brasileiros tanto apreciam.

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“O café demonstra efeitos que retardam o envelhecimento, inclusive, de células nervosas” – Marcelo Cossenza, neurocientista – Foto: Arquivo pessoal

O neurocientista e professor de Farmacologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marcelo Cossenza explica o efeito de melhoria de todas as condições neurodegenerativas. “O hábito de beber café previne, por exemplo, a doença de Parkinson e o Alzheimer, assim como melhora os sintomas destas doenças quando instaladas. O café também demonstra importantes efeitos neuroprotetores que retardam o envelhecimento cerebral. Muitos benefícios já foram demonstrados, inclusive na longevidade de células nervosas”.

Tomar um cafezinho “para acordar” é uma frase tradicional entre os brasileiros. Segundo o especialista em neurocirurgia e dor Walter Fagundes, “uma xícara de café ajuda a se sentir mais alerta e menos cansado. No entanto, também é por isso que o consumo excessivo de cafeína pode levar a sintomas como nervosismo, inquietação e dificuldade para dormir”, avisa.

Muito mais do que cafeína

Essa bebida tão sedutora contém um elemento eletrizante: a cafeína. Mas ela não é o único protagonista que faz da composição do café uma combinação perfeita não só para o paladar. O professor Marcelo Cossenza aponta outros elementos que garantem ao café a complexidade que acontece desde o cultivo até o momento em que ele é filtrado.

“O mais famoso é sem dúvida a cafeína, que é o principal responsável pelos efeitos psicoestimulantes do café. A cafeína também é termorresistente, ou seja, independentemente da torrefação dos grãos, a cafeína permanece inalterada. Mas o café é muito mais do que cafeína: a maior quantidade de compostos presentes são os chamados ácidos clorogênicos (polifenóis), que são especialmente relacionados a uma miríade de efeitos protetores. Desde atividade antioxidante (maior que a da própria cafeína) até o disparo de vias de sinalização que envolvem a sobrevida celular.”

Segundo Cossenza, nos últimos 10 anos muita pesquisa de qualidade demonstrou a importância desses compostos para a saúde humana. Em 2018 um artigo na importante revista JAMA Internal Medine apresentou dados que relacionam que os efeitos de redução da mortalidade precoce, observados em estudos anteriores, ocorrem mesmo na ausência da cafeína, colocando os ácidos clorogênicos como protagonistas destes efeitos. Esses elementos são termolábeis e diminuem significativamente em cafés de torra intensa. “Quanto aos compostos voláteis, aqueles que se desprendem no ato de filtrar o café, são mais de 1000, ou seja, o café é uma bebida mais complexa do que o vinho”, informa o professor.

Ele avisa que as contraindicações seriam para indivíduos suscetíveis à cafeína. “Existem pessoas que são ‘metabolizadores lentos’ de cafeína, e, portanto, uma simples xícara de 50-100mL pode despertar estados de ansiedade. A pior condição seria para os portadores de arritmias que não suportam a cafeína. Também os pacientes com úlceras nervosas podem ter sua condição prejudicada com a presença da cafeína”.

Quantas xícaras posso tomar?

Já se sabe que o consumo pode ser diário, porém existe um limite recomendado e o nutricionista é quem faz o cálculo para a quantidade de cafeína diária que cada paciente poderá consumir. Afinal, as reações individuais podem variar amplamente, e o que é considerado “moderado” para uma pessoa pode não ser para outra.

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Segundo a nutricionista capixaba, Carina Oliveira, a quantidade de cafeína presente em cerca de 5 xícaras pequenas de café é igual a de 10 latas de refrigerante de cola – Foto: Arquivo pessoal

A nutricionista Tatiana Ferreira, do Rio de Janeiro, explica que o consumo seguro diário para adultos sem nenhuma sensibilidade à cafeína é de no máximo 400 mg da substância por dia, o que equivale a cerca de 6 mg de cafeína por quilo de peso corporal. E a nutricionista capixaba Carina Oliveira acrescenta: “Essa é a quantidade presente em cerca de 5 xícaras pequenas de café ou 10 latas de refrigerante de cola ou ainda em 2 latas de bebidas energéticas”.

O especialista do Espírito Santo em Neurocirurgia e Dor, Walter Fagundes, esclarece que “uma xícara de café coado pode conter 0,5mg/1 ml de cafeína, enquanto um expresso pode conter mais de 2 mg/1ml de cafeína. Entre 75 e 250 mg de cafeína (algo entre uma a três xícaras) produzem mudanças positivas no humor e no comportamento humano. A partir de 500 mg de cafeína, percebe-se produção de agitação psicomotora, nervosismo e ansiedade”.

Apesar de o café ser normalmente considerado um estimulante, é bem perceptível que o aroma pode nos despertar a sensação de tranquilidade e relaxamento.

O psiquiatra e escritor, Vicente Ramatis Lima relata os efeitos da crise de abstinência de café. “A chamada crise de abstinência por falta de café pode causar dor de cabeça e a sensação de estar sonolento e devagar. A famosa ‘leseira’, geralmente matutina ou após a refeição, que só passa após ingerir algum café. Porém, não é algo que leve a pessoa a necessidade de atendimento médico. Costuma ser vencida após alguns dias”.

Café requentado faz mal?

Essa é uma dúvida recorrente entre os apreciadores de café. Mas, o que dizem os especialistas? O professor Marcelo Cossenza afirma que embora não existam estudos que modelem esta questão, a perda de atributos do café acontece quando ele é requentado.

“Muitos compostos farmacologicamente ativos que estão presentes no café degradam com a elevação da temperatura. Ele perde completamente seus atributos sensoriais agradáveis, que residem nas moléculas voláteis que se desprendem no momento da primeira passagem da água quente pelo pó dos grãos. Essas moléculas são as principais responsáveis pela alta apreciação sensorial do café. Um aspecto de estudo é porque o aroma do café é universalmente associado a emoções positivas, independentemente de cultura, hábitos, etnia etc. O cheiro do café parece sempre ser entendido como bom.”

De acordo com o neurocirurgião Walter Fagundes, aquecer o café não é prejudicial à saúde, desde que tenha sido mantido a uma temperatura segura. “O café não tem um alto risco de crescimento bacteriano em comparação com muitos outros alimentos e bebidas devido à sua acidez. No entanto, reaquecer o café afeta significativamente seu sabor e aroma, ainda que não fala mal à saúde”.

Para além da perda do sabor e aroma da bebida quando é feita na hora, a nutricionista Tatiana Ferreira chama a atenção para os efeitos negativos do café reaquecido. “O café requentado, além de ficar com o sabor ruim por causa da oxidação, perde parte dos benefícios nutricionais. Tomar um café requentado com frequência pode provocar dor de estômago, azia, náuseas e dores de barriga. Devemos ter cuidado também com o uso do café em cápsulas, que pode gerar aumento de alumínio sanguíneo, o que é perigoso para saúde”, alerta.

E para aliviar os efeitos negativos do café requentado, a orientação e tomar água logo após a ingestão do café requentado, para contornar os efeitos tóxicos.

Atenção! Cuidado com os excessos

Adoçar café pode custar caro

Para o especialista Walter Fagundes, “do ponto de vista da saúde, é melhor beber o café sem adição de açúcar ou adoçantes. O consumo excessivo de açúcar está associado a vários problemas de saúde, como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas, além da cárie dentária. Os adoçantes estão relacionados ao desenvolvimento de câncer. Se você prefere o café adoçado, considere experimentar adoçantes naturais ou até o uso de especiarias como canela para adicionar sabor. O café descafeinado oferece benefícios semelhantes ao café regular devido à sua composição nutricional, contudo, sem os efeitos da cafeína”.

O poder do café sobre o comportamento

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Quando tomado em grande quantidade e diariamente, o café tem um poder influenciador não somente sobre o aspecto orgânico, mas também comportamental – Foto: Freepik

Quando tomado em grande quantidade e diariamente, o café tem um poder influenciador não somente sobre o aspecto orgânico, mas também comportamental. O psiquiatra e escritor Vicente Ramatis Lima aponta alguns efeitos positivos e negativos na mente e no comportamento das pessoas.

“O consumo de café em grandes quantidades pode acabar deixando o usuário dependente e ainda desencadear ansiedade, irritabilidade, inquietação e insônia. Além disso, o estômago também pode sofrer consequências. Por outro lado, pesquisadores apontam diferentes benefícios como reduzir em até 11% o risco de insuficiência cardíaca a longo prazo, desde que não ingeridos associados a açúcar, laticínios, adoçantes e outras substâncias. Portanto, pode ser tomado diariamente, porém o recomendado é tomar puro e não se exceder. Evite tomar à noite para não atrapalhar o sono”.

Quem não deve tomar:

  • Pessoas que apresentam transtornos (como o bipolar) e estejam em fase aguda
  • Quem tem problemas como insônia e distúrbios do humor
  • Pessoas com hipertensão arterial

Os dois lados do café: conheça os prós e contras dessa bebida energética, e como ela interage com a sua saúde

Prós

Pesquisas recentes sugerem que o consumo moderado de café pode ser parte de uma dieta saudável.

1. Melhora a memória, concentração, aprendizado e foco mental
2. Reduz o risco de acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer
3. Melhora o humor, aumenta alguns neurotransmissores e pode atuar até como um antidepressivo leve
4. Tem efeitos neuroprotetores que retardam o envelhecimento cerebral
5. Estimula a longevidade de células nervosas e o metabolismo fica mais rápido
6. Energia, bem-estar e sociabilidade, aumento da exaltação, paz e boa disposição
7. Disposição e motivação para trabalhar, autoconfiança e maior atenção e foco mental

Contras

Existem pessoas que são “metabolizadores lentos” de cafeína e, portanto, uma simples xícara de café pode despertar estados de ansiedade. A pior condição seria para os portadores de arritmias que não suportam a cafeína.

1. Na gravidez pode aumentar o risco de aborto e parto prematuro
2. Potencial para aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial
3. Distúrbios do sono ou insônia
4. Pode piorar quadros ansiosos
5. Pode agravar problemas gastrointestinais, como refluxo e gastrite
6. Pode contribuir para perda óssea em indivíduos com osteoporose
7. Pode causar arritmia, agitação, irritabilidade, tremor, nervosismo e tontura


A matéria acima é um conteúdo da edição impressa de ES Brasil n°213/2023. Clique aqui para ler a revista completa.

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