Av. Mario Gurgel

Não há fronteiras na marca do destino

O Espírito Santo vem abrigando, ao longo de sua História, pessoas de outras plagas em busca do necessário acolhimento para seus sonhos. Esse fenômeno tem registro no Atlas da Migração do Proex/Ufes, que aponta a presença, no ano de 2010, de 302.583 migrantes, 8,6% da população do Estado. Desse total, 130 mil vieram de outras unidades da federação. Se hoje os estados vizinhos são os que enviam mais pessoas para as terras capixabas, no passado foram os europeus que ajudaram a construir a identidade local.

A professora universitária e doutora em Ciências Sociais Maria Cristina Dadalto realizou uma pesquisa com o objetivo de constatar o peso da migração no Espírito Santo. Ela identificou que, até meados do século 19 e início do século 20, esse movimento era protagonizado pelos italianos. Mas esse povo não foi o único a aqui chegar. “Vieram não só imigrantes árabes e sírios, mas também muitos brasileiros – mineiros, fluminenses e cearenses. E a partir dos anos 60, um novo ciclo incluiu principalmente japoneses e, sobretudo, mineiros e baianos”, afirma ela.

O coordenador do Comitê Temático de Fortalecimento da Identidade Capixaba e Imagem do Estado, Américo Buaiz Filho, acredita ser natural a capacidade de o Espírito Santo agregar pessoas de outros estados: a motivação para a imigração, justifica, reside no fenômeno do desenvolvimento sistemático que tem ocorrido o Estado, acima da média nacional. O fato é que os cenários da política, da administração pública, dos formadores de opinião, têm sido marcantes para que o nosso Estado atingisse o grau de universalidade do desenvolvimento que ora desfruta. E parte dessa conquista se deve à participação de personalidades que plantaram raízes nas generosas terras capixabas e se integraram ao espírito criativo do seu povo.

Uma das principais avenidas de Cariacica recebeu o nome do ex-deputado federal do Espírito Santo.

Mário Gurgel é um exemplo edificante desse fenômeno, membro de uma família que percorreu 3.312 quilômetros para chegar até nós. É a distância de Rondônia, berço do nosso personagem, até o Espírito Santo, terra que adotaria como sua. Filho de Luiz Gurgel, um cearense, e de Flora de Campos Gurgel, pernambucana, ele nasceu em Porto Velho, hoje capital de Rondônia, à época pertencente ao Estado do Amazonas, no dia 12 de junho de 1922. Em 1925, a pequena família veio para o Espírito Santo, radicando-se inicialmente em Santa Teresa, antes de se fixar em Vitória.

Testemunharia no futuro seu filho, Antônio de Pádua Rangel, as dificuldades vividas pela família, residindo inicialmente em um modesto barracão e vendendo doces para ajudar o pai operário e a mãe lavadeira. Foi nas andanças para venda dos doces que o jovem Mário Gurgel conheceu uma senhora francesa que lhe ensinou o idioma em troca de tarefas domésticas. Foi graças a esse entendimento que anos mais tarde se tornou professor de francês, a língua da época.

Em 1950, aos 28 anos, aclimatado na cidade que escolhera para viver, encontrou na atividade política um canal para dar sua contribuição para o melhor destino da comunidade. Em 1951 casou-se com Hely Mendes Ferreira, que conheceu em 1944. (Abro aqui um parêntesis para testemunhar ser Hely Mendes Ferreira uma pessoa extraordinária, que este pesquisador conheceu no Escritório de Representação do Governo do Espírito Santo, em Brasília entre 1973/74. Vali-me, mais de uma vez, de seus sensatos conselhos sempre que solicitados).

Naquele mesmo ano deu partida à sua carreira política como candidato a vereador, eleito e reeleito em 1954, quando foi escolhido por seus pares para a Presidência da Câmara. Em 1955, aos 33 anos de idade, exercendo o Magistério, bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Espírito Santo.

Entre 1955-1959, ocupou o cargo de oficial de gabinete do governo Francisco Lacerda de Aguiar, “Chiquinho”, licenciando-se da edilidade. Seu voo mais alto ocorreu quando, presidente da Câmara, com o afastamento do então prefeito, Adelfo Poli Monjardim, assumiu os destinos da Prefeitura de Vitória, episódio que se repetiria em 1962, quando se reelegeu para a Câmara Municipal. A escolha do seu nome nas urnas da capital evidenciou seu prestígio e popularidade, sempre o mais votado nas duas eleições para vereador por ele disputadas.

A Avenida Mário Gurgel é o trecho da BR-262 entre o bairro de Jardim América e o trevo da Ceasa, em Cariacica.

No ano de 1964, insurgiu-se contra a revolução, tendo sida única voz na Assembleia Legislativa a se rebelar. No ano de 1966, elegeu-se deputado federal e foi cassado pelo Ato Institucional nº 5. Com os direitos políticos suspensos, passou a vender livros e retornou à advocacia, sem abandonar seus ideais políticos. Em 1979, fundou no Espírito Santo o PDT – Partido Democrático Trabalhista. Como vereador, em 1958, foi fundador da Casa do Menino, destinada a acolher garotos de rua, na Ilha do Príncipe.

Na década de 1980 presidiu o Iesbem (Instituto Espírito Santense do Bem-Estar do Menor.

Sua vida foi interrompida no dia 4 de janeiro de 1996, aos 78 anos, em consequência de um derrame cerebral a que fora acometido em 1991.

A memória de Mário Gurgel foi perpetuada com uma homenagem. Foram batizadas com seu nome uma importante via pública de Cariacica e uma escola estadual de ensino médio em Jabaeté, Vila Velha. E ainda: registramos que a indicação para nominar extenso trecho da BR-101 de Avenida Mário Gurgel foi iniciativa de outro grande homem público, o inesquecível ex-governador e ex-senador Gérson Camata, brutalmente assassinado em Vitória no fim do ano passado.


Fotos: Renato Cabrini

 


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