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A reinvenção dos cafés

Por Orlando Caliman

Ouvi do meu amigo Roberto DaMatta, sem dúvida, a maior referência da antropologia brasileira, e de renome internacional na área, que o Espírito Santo efetivamente nasce, enquanto portador de identidade e imagem própria, já na da modernidade. No tempo histórico, podemos afirmar que a partir de meados do século dezenove. Que é quando a cultura do café tem início e na sequência de anos se transforma no plasma aglutinador dos atributos que lhe dão identidade.

Quando me refiro a atributos identitários estou me referindo a expressões socioculturais, políticas e econômicas e da forma de ocupação das terras e formação das cidades, dentre outras também não menos importantes. Na economia, por exemplo, a cultura do café perfilou hegemônica por cerca de 100, criando mecanismos que lhes foram bem próprios na sua trajetória de crescimento e sobrevivência.

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Tanto isso é verdade que em 1960 o setor agrícola capixaba foi responsável por cerca de 52% do total da riqueza produzida no estado, e onde o café mostrava-se presente em algo em torno de 80%. Simplificando, a cultura do café respondia por aproximadamente 40% do PIB estadual. E imaginar que nesse ano a produção de café no Espírito Santo já se encontrava em baixa.

Se de um lado o café nos levou ao que, em grade parte, somos hoje, de outro nos aprisionou por cerca de 100 anos. Utilizo a expressão aprisionamento, pois a redoma que o mesmo forjou no tempo acabou funcionando como blindagem à ocorrência de rupturas, mesmo que desejadas e projetadas por lideranças políticas em várias ocasiões. Muniz Freire, no final do século dezenove, por exemplo, no seu plano visionário já alertava para a necessidade de se diversificar a economia. O mesmo podemos afirmar de Jerônimo Monteiro nas suas investidas na industrialização, e outros mais.

Com a erradicação em massa dos cafezais na década de sessenta achava-se que a sua cultura além de deixar de ser hegemônica, o que era até desejável, muito provavelmente se definharia com o tempo. Não foi bem isso que aconteceu. O café reinventou-se, e longe de pressões foi ganhando espaços na produção, produtividade, aplicação de conhecimentos tecnológicos, em inovações e novos e mais sofisticados mercados.

Hoje, podemos falar de cafés, algo que não tínhamos como distinguir, por exemplo, na década de setenta. As culturas do Arábica e do Conilon em trajetos peculiares e com nuances diferenciados, perfilam com louvor os mais sofisticados mercados do mundo. Em ambas as culturas o Espírito Santo tornou-se referência mundial. Compõem o nosso portfólio de excelências.

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Orlando Caliman é economista e sócio-diretor do Instituto Futura.

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