Somos todos líderes

Tornar-se líder não só quem decide solucionar os problemas da nação, mas quem usa do profissionalismo e gestão estratégica para construir um bom time de colaboradores

Ao longo dos últimos, tenho recebido muitos convites para falar sobre o tema liderança. Quando este não é o assunto principal, ele sempre acaba surgindo na conversa após as palestras. Assim, compartilho aqui um pouco das reflexões que faço a partir de minha experiência e de leituras várias.

Para o consultor em Gestão Oscar Motomura, em seu artigo A Liderança Necessária, não nos faltam líderes. O que nos falta são líderes decididos a transformar o nosso cotidiano, atravessado por contradições e desigualdades socioeconômicas e políticas.

Segundo Motomura, “liderança é decisão, um ato de vontade”. E ele vai além: de acordo com sua concepção, somos todos potencialmente líderes e o mais importante é tomar a decisão de usar esse potencial e também decidir a qual propósito vamos nos dedicar.

Assim, o autor convoca todos a se tornarem líderes, decidindo e agindo em favor da solução dos problemas crônicos da nação – e poderíamos acrescentar: de nossas cidades, Estados! Por fim, defende, perguntando: “Embora incomum, essa idéia de liderança coletiva não estaria mais em sintonia com o verdadeiro conceito de democracia?”.

Essa é uma questão totalmente pertinente, porque temos muitos problemas a resolver; estamos em pleno processo de debate acerca dos fundamentos político-representativos em sociedades mundo afora, inclusive na nossa; e ainda porque, se temos o potencial da liderança, inclusive de nossas próprias vidas, por que não agir? O que não nos falta são desafios.

A partir dessa visão mais ampliada de liderança, saliento que o treinamento da vida me ensinou que liderança é, entre outros, a arte de mobilizar e motivar boas companhias para enfrentar tarefas desafiantes. Aprendi desde cedo a não acreditar em voluntarismo. Não se enfrenta sozinho um grande desafio.

A arte de liderar é também a estratégia de cercar-se de colaboradores que saibam mais da sua área de especialização do que o líder, que deve possuir outros atributos, como ter a noção de conjunto, capacidade de motivar e de identificar e potencializar talentos. O profissionalismo é um requisito básico.

Tenho agido assim ao longo de minha vida pessoal e profissional. Tenho me cercado de pessoas que complementam e fortalecem minha atuação. Por melhor que seja a formação profissional e intelectual, por maior que seja a experiência administrativa, é um mau caminho se achar supercapaz.

Nenhum líder deve temer a sombra alheia ou se achar o único habilitado a resolver tudo. A ideia de liderança se fundamenta exatamente na conjugação de forças e competências sob a condução de quem tem visão de conjunto e clareza de objetivos a serem alcançados.

Ou seja, a minha trajetória me ensinou que é preciso, com profissionalismo, visão estratégica e gestão intensiva, construir times de excelência, conjugando talentos e aptidões.

Liderar é conhecer os colaboradores e, a partir da compreensão de que todos nós temos habilidades e limitações, fazer um mapeamento de vocações, com cada um ocupando o lugar em que mais pode contribuir.

Um verdadeiro líder não renega suas potencialidades para decidir e agir orientado por um propósito claro, sabendo, nesse processo, mobilizar boas companhias, e trabalhando para que cada um ocupe o lugar certo para fazer a coisa certa, num jogo de soma e articulação em que ganha todo o conjunto.

“Aprendi desde cedo a não acreditar em voluntarismo. Não se enfrenta sozinho um grande desafio”.

Paulo Hartung é economista e ex-governador do Estado do Espírito Santo

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