Especialistas destacam integração entre tecnologia, repressão qualificada e políticas sociais como fatores para a redução da violência em Vitória
Por Thamiris Guidoni
Vitória atingiu a marca de 37 dias consecutivos sem registrar homicídios dolosos. É a segunda vez no ano que a capital ultrapassa 35 dias sem assassinatos, um feito inédito desde o início da série histórica em 1996. Entre meados de março e maio, o município ficou 72 dias sem mortes violentas, refletindo o impacto das políticas públicas voltadas à prevenção e repressão da criminalidade.
Segundo o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), responsável pelo estudo “Impacto do Programa Estado Presente na Taxa de Homicídios do Espírito Santo (2019–2022)“, o programa contribuiu para evitar entre 1.294 e 1.600 homicídios no estado no período, considerando diferentes níveis de confiança estatística.
Especialista em segurança e diretor-geral do IJSN, Pablo Lira, detalha os fatores que possibilitaram essa redução histórica. Ele destaca o programa Estado Presente, coordenado pelo Governo do Estado e que integra a Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Municipal de Vitória e outras forças de segurança em ações de repressão qualificada.
“As ações do programa Estado Presente, combinadas com repressão qualificada na capital, foram determinantes para Vitória ficar 30 dias sem registrar homicídios. Além disso, temos investimentos históricos em tecnologia, como o cerco inteligente e o monitoramento de câmeras de vias estratégicas, torres de segurança e totens, conectados ao CIODES, o Centro Integrado Operacional de Defesa Social do Estado”.
O especialista reforça que políticas públicas de prevenção também desempenham papel essencial. Entre elas, ele cita o Centro de Referência da Juventude (CRJ), que desenvolve projetos de vida, educação e ações culturais para adolescentes e jovens, e as escolas de tempo integral, que contribuem para reduzir fatores de risco associados à criminalidade.
“Até que ponto essas ações podem ser replicadas em outras cidades? Já estão sendo aplicadas em todos os 78 municípios capixabas. Não é só Vitória que registra mais de 30 dias sem homicídios. Dores do Rio Preto e Iconha estão há mais de mil dias sem registrar homicídios, evidenciando que a redução não é exclusiva da capital”.

O diretor-geral do IJSN ressalta a evolução histórica da violência no Espírito Santo.
“Se pensarmos que em 2009 foram registrados 2.034 homicídios, e hoje estamos caminhando para fechar 2025 com menos de 800, já se trata de uma tendência consolidada de redução. Isso é resultado de trabalho integrado, intensificação da repressão qualificada e prevenção, e investimentos em tecnologia”.
Lira alerta, no entanto, sobre a necessidade de continuidade e monitoramento das políticas públicas.
“Manter esses resultados exige que os trabalhos continuem, a integração das polícias seja intensificada, a tecnologia siga sendo utilizada, e que não se acredite em soluções fáceis para problemas complexos, principalmente em anos de eleição”.
Além da redução de homicídios, o diretor do IJSN observa impactos positivos em outros tipos de crimes.
“O Espírito Santo registra diminuição histórica em crimes contra o patrimônio, roubos e violência doméstica, resultado do fortalecimento das forças de segurança, renovação da frota de viaturas, valorização profissional e investimentos tecnológicos”.
Em Vitória, a integração entre tecnologia, patrulhamento e políticas sociais reflete diretamente nos resultados. O uso de mais de 1,1 mil câmeras conectadas à Central de Monitoramento, aliadas ao Cerco Inteligente, permite identificar veículos suspeitos e acionar rapidamente equipes de segurança.
Além disso, o patrulhamento próximo à população, em escolas, praças e eventos comunitários, fortalece o vínculo entre cidadãos e agentes de segurança.
O vice-governador e coordenador do Estado Presente, Ricardo Ferraço, reforça os investimentos contínuos no setor. “Vamos formar mais 1.000 policiais militares para ampliar o efetivo da PMES, garantindo valorização e capacitação das nossas forças de segurança”.
O secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, destaca ainda a redução de feminicídios. “Vitória está há 493 dias sem registrar nenhum feminicídio. O trabalho integrado do programa Estado Presente e o foco na violência contra a mulher têm salvado vidas e gerado recordes positivos para a capital e todo o Estado”.
Estado Presente
O Programa Estado Presente atua em dois eixos complementares: repressão qualificada, com uso de tecnologia e inteligência policial, e prevenção social, com mais de 30 programas voltados à educação, esporte, cultura, qualificação profissional e apoio a dependentes de álcool e drogas. O Programa Mulher Viva + é uma estratégia específica do Estado Presente voltada à proteção das mulheres. Entenda:
- Eixo de Proteção Policial, que utiliza tecnologia, inteligência e integração das forças de segurança para tornar as operações mais eficazes e reduzir mortes em confrontos;
- Eixo de Proteção Social, que reúne mais de 30 programas sociais voltados à qualificação profissional, redução da evasão escolar, incentivo ao esporte e à cultura, e apoio a usuários de álcool e outras drogas.
- Programa Mulher Viva +, uma estratégia dentro do Estado Presente, que reúne, de forma integrada em um único eixo, projetos voltados para as mulheres do Espírito Santo.
Reconhecido internacionalmente, o estudo do IJSN foi apresentado na 11ª International Conference on Business, Management and Economics, em Paris, e aprovado em importantes congressos científicos nacionais, reforçando o Espírito Santo como referência em políticas públicas de segurança baseadas em evidências.
A primeira avaliação de impacto do programa Estado Presente havia sido realizada entre 2011 e 2014. Nesta segunda avaliação, foram utilizados métodos econométricos avançados para estimar o impacto causal da política nos dez municípios prioritários do programa, Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Guarapari, Linhares, São Mateus, Colatina, Cachoeiro e Aracruz, que concentravam 74% dos homicídios do estado em 2018.
Segundo os resultados do estudo, ao nível de confiança de 95% foram evitados 1294 homicídios e ao nível de confiança de 90% foram evitados 1600.
“Os resultados deste estudo reforçam a relevância de políticas públicas orientadas por evidências e sustentadas por uma gestão inteligente e integrada. Os dados apresentados neste estudo demonstram o impacto real de uma iniciativa capaz de salvar vidas e reduzir significativamente a violência letal no Espírito Santo. Essa efetividade é resultado de um planejamento consistente e de ações articuladas que organizam o Programa em dois eixos complementares, a saber, repressão qualificada e prevenção à criminalidade violenta”, destacou o diretor-geral do IJSN e coautor do estudo, Pablo Lira.

