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segunda-feira, 13 julho, 2020

Psicoterapeuta aponta razões para ter uma vida melhor

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Quantos de nós estamos destruindo as nossas vidas e buscando um fator externo para culpar?

Muitas vezes, a vida apresenta aspectos difíceis de lidar. A psicoterapeuta Cássia Rodrigues, no trabalho que desenvolve diariamente em empresas, no seu consultório e como instrutora, desvenda alguns pontos-chave para que o corpo não padeça diante da realidade potencialmente paralisante.

É muito forte a afirmação “quem ama não adoece”, título do livro do Dr. Marco Aurélio Dias da Silva, usado como bibliografia básica nos cursos que a senhora ministra. Qual é a base dela?

Necessariamente nós precisamos amar a nós mesmos para poder não desenvolver doenças. Quando somos crianças, temos a carência afetiva dos pais. Às vezes, precisamos adoecer para que eles parem para cuidar da gente. Com isso, vamos aprendendo desde muito novos que a doença traz algo simbólico para fazer com que nossos pais “olhem” para nós. Essa situação faz com que psiquicamente aprendamos a não nos amar. Ao não nos amarmos, também vamos aprendendo a não deixar os outros nos amarem. Então, a afirmação é forte porque quantos de nós não nos amamos? Quantos de nós não temos segurança de quem somos? Ficamos esperando que o amor venha do marido, da esposa, dos filhos, mas nos olhamos no espelho e não nos reconhecemos. Por isso, é necessário nos amarmos para poder não adoecer, para poder não colocar no corpo aquelas questões que estão na mente.

Quais são as doenças que podemos relacionar a essa falta de amor-próprio?

Eu diria que todas. Quando não damos conta de enfrentar as questões que a vida apresenta, as doenças vão aparecendo aos poucos. Uma garganta arranhando no dia de uma apresentação de trabalho na faculdade; ou quando nós temos uma reunião de trabalho muito séria e, do nada, ficamos com uma enxaqueca que nenhum médico descobre. Essas são as mais simples, mas são indícios de que não estamos lidando com algo.

Existem também as mais graves, que são as doenças autoimunes. Elas são extremamente emocionais. Temos células negativas do nosso corpo que querem matar as células boas. Nenhuma doença autoimune tem um remédio. São tantas hoje, mais de 66 identificadas. As mais conhecidas são lúpus, psoríase, colite ulcerativa, vitiligo, púrpura, síndrome de Sjögren, fibromialgia e tireoidite de Hashimoto.

Como lidar com a vida para não deixarmos que os danos apareçam?

Há cerca de 20 anos, a medicina já vem trabalhando com o paradigma biofísico, que é entender o ser humano como um todo: que ele precisa de meditação, de psicólogo, de enfermeiro, do serviço social, de educador físico, de amigo, de família, de lazer…
E que também precisa do médico, porque hoje a gente trabalha com a interdisciplinaridade. Mas é uma quebra de paradigma mesmo.

Eu tenho um amigo cardiologista que sempre tenta me encaminhar uns 15 pacientes por mês, mas a maioria não vem. Ele fala que há pessoas que preferem correr o risco de um infarto a encontrar um problema emocional, porque a síndrome do pânico, por exemplo, é uma doença da mente, mas com vários sintomas físicos. A pessoa chega ao médico achando que está enfartando, mas não está. Talvez esse paciente vá preferir buscar outro cardiologista a assumir que está com síndrome do pânico.

Por isso, é necessária uma mudança também de cultura na sociedade?

Sim. Até os anos 50, o tratamento era disciplinado. Existia a figura médico da família, que era tudo: clínico-geral, psicólogo, enfermeiro, quase dentista… A partir dos anos 50, a medicina deixou de ser assim, começou a ser multidisciplinar. Existiam, no máximo, umas quatro especializações ou profissionais que trabalhavam como se fossem um monte de bolinha a funcionar uma do lado da outra. Hoje o conceito já é interdisciplinar, porque nós funcionamos como uma rede, todos interligados para botar esse paciente em cima dessa rede e jogá-lo para a vida.

O termo é rede mesmo, todos interligados entre si: o psicólogo se entrelaça com o médico, que se entrelaça com o educador físico, que se entrelaça com o pedagogo, que se entrelaça com o professor, que se entrelaça com o líder religioso, que vai se entrelaçando com o que for necessário para que a pessoa obtenha qualidade de vida. É muito bacana este momento que a gente está vivendo.

Qual é o papel do autoconhecimento na vida da pessoa?

Eu diria que o autoconhecimento é a base de tudo. O ser humano só tem duas emoções: a positiva e a negativa. Simples. Na positiva, nós temos a alegria, a felicidade e o amor; na negativa, a ansiedade, a tristeza e a raiva. São duas emoções com três subdivisões cada. Todas essas negativas vão gerar doenças.

As pessoas que têm mais emoção positiva são aquelas que já se conhecem, e esta é a base da terapia. Muita gente entra aqui no consultório em busca de um culpado. Meu trabalho é fazer essa pessoa entender o que ela tem feito com a sua vida. Que é ela quem controla a própria vida. Que está dentro dela a responsabilidade. Que ela tem capacidade de se conhecer e lidar com a vida da melhor forma. Este é o papel do autoconhecimento. É saber exatamente quem nós somos. É identificar o que se está sentindo e agir sobre isso. Pessoas assim são mais maduras psiquicamente.

Só que eu percebo, no meu trabalho, que as pessoas não têm essa capacidade. Muitas vezes é doloroso conhecer alguns aspectos de nós mesmos, e ninguém quer sentir essa dor, mesmo que saibamos que isso vai nos ajudar mais à frente. Por isso, as pessoas usam vários mecanismos de defesa para não entrar em contato consigo mesmas.

E as consequências dessa falta de autoconhecimento são as doenças?

Quando eu não entro em contato comigo mesmo, não sei o que está acontecendo. Consequentemente, vou adoecer, porque a doença vai me paralisar. O corpo está dando resposta. Temos que nos ouvir.

Qual a recomendação para que as pessoas comecem a acessar essa trajetória do autoconhecimento?

Meu conselho é que busque alguém que escute a sua alma para o corpo não adoecer. Procure um padre, pastor, tio, primo, um amigo… Não aquele que vai passar a mão na sua cabeça, mas aquele que tem a capacidade de fazer você colocar suas vísceras emocionais para fora, para que você perceba o que está fazendo com a sua vida. Quantos de nós estamos destruindo as nossas vidas e buscando um fator externo para culpar? Maturidade emocional é a chave para se conseguir ter qualidade de vida.

 

A matéria acima é uma republicação da Revista Samp. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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