Moradora de uma aldeia, Ará Martins conta ao podcast Destinos ES sobre a importância de difundir a cultura indígena, através do turismo, e eliminar preconceitos
Por Ludmila Azevedo
No mês de agosto, em que se celebra o Dia Internacional dos Povos Indígenas, o Destinos ES recebeu como convidada Ará Martins, indígena Guarani da aldeia Boa Esperança, em Aracruz. Em sua fala, Ará destacou como o turismo vem se tornando uma oportunidade de conexão entre visitantes e as tradições das comunidades Guarani e Tupinikim que vivem na região.
As aldeias da região recebem visitantes por meio de agendamento. O objetivo é proporcionar experiências imersivas, que vão além do turismo convencional. “Convidamos os capixabas a vivenciar um banho de praia, pintura corporal, sentar com a gente na fogueira e ouvir nossas histórias”, explicou Ará.
Segundo ela, a maioria dos visitantes vem da Grande Vitória, geralmente famílias em busca de contato com a natureza e de momentos de convivência com a cultura indígena. Em breve, a aldeia Boa Esperança vai oferecer um espaço para camping, onde será possível passar a noite e experimentar o café da manhã típico Guarani.
“Na nossa comunidade é Guarani, mas o povo Tupinikim trabalha junto conosco. Hoje somos 12 aldeias Guarani e Tupinikim na região de Santa Cruz”, contou Ará. Apesar de estarem lado a lado, cada povo mantém suas particularidades: os Tupinikim preservam maior ligação com o congo e a casaca, enquanto os Guarani cultivam os cantos acompanhados de violão e violino, além de um coral formado por mulheres e crianças.
Outro atrativo que encanta quem passa pela região é o artesanato. Nos finais de semana, tendas montadas nas proximidades exibem peças produzidas pelos indígenas. “As crianças aprendem desde cedo a tecer cestas, trabalhar com bambu e sementes. O apito, por exemplo, eu mesma faço usando o bambu; ele reproduz os sons dos pássaros e atrai essas aves para perto da gente”, contou Ará.
A transmissão de saberes é fortalecida na escola da aldeia Três Palmeiras, onde professores ensinam em guarani e em português. Lá, também se fala sobre a música e os grafismos indígenas, além da importância do artesanato na preservação da cultura.
As aldeias também se destacam pela produção de mel nativo, resultado do manejo de abelhas sem ferrão, como a uruçu amarela e a jataí. Além de ser bastante procurado pelos visitantes, o produto é valorizado pelos benefícios terapêuticos. “O mel da jataí é muito usado para a bronquite”, destacou Ará. “A produção conta com apoio de uma cooperativa parceira, que dá suporte para o manejo sustentável das colmeias”.
Mais do que uma experiência turística, a visita às aldeias é uma oportunidade de escuta e aprendizado. “A gente fala sobre nossa cultura e nossa língua para que nos respeitem. Muitas pessoas nunca tiveram a oportunidade de ouvir diretamente o que um indígena tem a dizer”.
Ará leva esse conhecimento às escolas do Espírito Santo por meio de seu projeto Nhãdeva Ekuéry, que em guarani, significa “Quem somos nós”. A iniciativa busca promover o diálogo intercultural e ampliar a valorização dos cerca de 14 mil indígenas que vivem no estado, a maioria em Aracruz.
Como conhecer
As visitas podem ser agendadas diretamente com representantes das aldeias. É possível falar com a Ará pelo Instagram @ara.martins1 ou com Vanda, filha do cacique da aldeia Boa Esperança, pelo telefone (27) 99806-8998.

