A tonga da mironga do Kabuletê

Você que ouve e não fala, você que olha e não vê, eu vou lhe dar uma pala, você vai ter que aprender a Tonga da Mironga do Kabuletê

O poeta, músico, cantor, gênio Vinícius de Moraes, em parceria com Toquinho, nos brindou com uma de suas mais gostosas músicas A Tonga da Mironga do Kabuletê. A expressão supostamente seria um xingamento no idioma nagô, ou uma forma de protesto político. Mas na verdade, Vinicius e Toquinho estavam tomando umas doses do “melhor amigo do homem”, o whisky, quando a sétima esposa de Vinícius (foram nove no total), Gesse Gessy, chegou do mercado modelo, dizendo ter ouvido aquela expressão que logo virou música.

O sambista Monsueto participou da gravação original e no começo da música fez umas citações no idioma nagô, mais parecendo uma pessoa alcoolizada falando qualquer coisa, como se sutilmente desse uma leve sacaneada nos dois amigos do whisky.

Tonga significa lavoura, Mironga significa feitiço, e Kabuletê significa desprezível. A Lavoura do Feitiço do Desprezível. O que significaria isso? Acho que nada. Mas os primeiros versos da música me instigaram uma reflexão. “Eu caio de bossa, eu sou quem eu sou, eu saio da fossa, xingando em nagô. Você que ouve e não fala, você que olha e não vê, eu vou lhe dar uma pala, você vai ter que aprender a Tonga da Mironga do Kabuletê”.

Tonga arcaica

Os partidos políticos no Brasil, com poucas exceções, estão fazendo a Tonga da Mironga do Kabuletê. É bom entender como as coisas funcionam. Esses partidos políticos recebem um dinheiro que sai do Fundo Partidário. Quando chega o período eleitoral, recebem um dinheiro que sai do Fundo Eleitoral. Esse dinheiro deve ser utilizado para manter as estruturas partidárias em todo o País e para financiar as campanhas eleitorais. Quem abastece esses fundos? Eu, você, nós, por meio dos nossos impostos, que não são baixos. A Lei é assim e, portanto, não há ilegalidade nisso.

Podemos discutir se vale a pena ou não colocar o nosso dinheiro para sustentar os partidos políticos? Podemos e devemos. Se tomam nosso dinheiro por imposição (impostos), obviamente temos o direito de discutir como eles devem ser aplicados.

Teoricamente é muito bom que haja esse financiamento público da política, pois isso evita que apenas partidos ligados a quem tem muito dinheiro sobreviva, o que causaria uma enorme desigualdade entre as mais diversas ideologias, prejudicando a democracia.

Modelo perverso

Ocorre que independentemente da ideologia, os partidos criaram um mecanismo perverso que mata suas democracias internas, prejudicando enormemente a democracia nacional como um todo. Os partidos deveriam criar seus diretórios municipais e estaduais, tendo em vista que os nacionais por óbvio já existem, mas não é o que fazem. Os partidos políticos constituem diretórios estaduais, mas nos municípios criam diretórios provisórios, pois assim não há personalidade jurídica constituída, e esse diretórios municipais provisórios ficam, então, reféns das decisões dos diretórios estaduais.

O que acontece é que os diretórios estaduais recebem o dinheiro vindo dos fundos e o mantém consigo. Dessa forma, os caciques partidários é que tomam as decisões sobre quem será candidato, sobre quem terá mais ou menos recursos para a eleição, e assim sucessivamente.

Esta aberração acaba sendo reproduzida nos governos eleitos. Quem faz parte da patota do cacique ganha cargos a torto e a direito. Ao invés de termos governos eficientes e eficazes, temos governos que atuam para os interesses do cacique e o desvirtuamento acontece na máquina pública, assim como acontece nos partidos políticos. Em um país onde há eleições a cada dois anos, a lógica é a de manter a patota no poder e não a de fazer as reformas estruturantes e de longo prazo que são necessárias para o avanço nacional. Claro que há exceções.

A escolha é minha

Nessas condições, eu quero escolher se devo ou não contribuir para os partidos políticos e, se eu quiser, para qual eu quero. Se eu participo e ou me sinto representado pelo que o partido prega e faz, eu contribuo com o que posso e me sinto bem. Ser obrigado a fazer isso, para manter uma patota ineficiente e ineficaz no poder, não me agrada. Isso me parece simples, democrático e óbvio.

A questão é que se agissem de forma coerente, recebendo nosso dinheiro e lutando para a formação política interna e da sociedade, quando fossem eleitos para assumir o governo governariam para todos, buscando o que há de melhor na sociedade para contribuir. E daí o financiamento público valeria muito a pena.

A questão é que não fazem isso e temos uma enorme quantidade de pessoas que estão excluídas desse debate, que não entendem como o mecanismo funciona e que, muitas vezes, não têm como contribuir e ou nem mesmo sabem como fazê-lo ou encontram razão para isso. Esse é o custo histórico do desmantelamento político nacional.

Mas tem saída

Um partido político, nas atuais condições, deveria abrir mão dos fundos partidário e eleitoral. Deveria ter a grandeza de se organizar internamente e ir buscar apoio na sociedade, formando as pessoas e, dialogando, conquistar o apoio para suas ideias. Deveria ter a grandeza de praticar a democracia interna e a ela se submeter, acabando com o caciquismo. Deveria formar seus quadros para que possam atuar com eficiência e eficácia na gestão pública, acabando definitivamente com a corrupção, com o compadrio, e com o desrespeito às Leis.

Os caciques vão sempre se utilizar do discurso de que isso é utopia, de que o sistema é assim, vão encontrar uma centena de outras razões e justificativas para explicar e justificar seus atos, mas isso não passa de conversa para manter seus feudos.

Como dizia o imortal Ariano Suassuna: “A mim não enganam”. A sociedade precisa acordar, ouvir e falar, olhar e ver, e vou lhe dar uma pala: É preciso começar a questionar nos processos eleitorais o que estão fazendo os partidos políticos para realmente se preparar para governar e quem e como estão escolhendo para lhes representar. A “patotagem”, que vá pra Tonga da Mironga do Kabuletê!


André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis; mestre em administração pela Florida Christian University; colunista das revistas eletrônicas ES Brasil e Blog da Ema; e autor de livros.

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