A seta é apenas isso: uma seta. Um dispositivo simples, cuja função básica é evitar colisões e mal-entendidos. Só que, no fundo, ela é muito mais
Por André Gomyde
Ah, a seta do carro. Pequena, discreta, mas dotada de um poder simbólico imenso. Um gesto de civilidade em um mundo caótico, um sinal de que você se importa com quem está ao seu redor. Ou deveria ser. Porque, convenhamos, muitos motoristas tratam a seta como uma espécie de artefato mágico, capaz de justificar qualquer coisa. Ligou a seta? Pronto, o universo deve se curvar à sua vontade.
Temos aquele motorista que aciona a seta no último segundo e já vai entrando na sua faixa como se fosse uma cláusula pétrea da Constituição do Trânsito: “Liguei a seta, portanto existo.” Ou então o clássico caso do “estacionamento instantâneo”. O sujeito para no meio da rua, liga a seta e acredita que acabou de criar uma vaga onde não havia. Carros atrás buzinando, pedestres desviando, mas ele está tranquilo: afinal, a seta está ligada. É quase poético. Ou seria trágico?
E, claro, há o outro extremo: o motorista que parece ignorar que a seta existe. Para ele, mudar de faixa ou dobrar uma esquina é um ato intuitivo, quase artístico. Quem está atrás que adivinhe seus movimentos. Aposto que muitos acreditam estar promovendo um teste de reflexo ou treinamento de vidência.
Curioso como a seta, um dispositivo tão simples, revela tanto sobre nós. Ela não é apenas uma peça do carro, mas um reflexo do nosso senso de responsabilidade, ou da falta dele. Ao não usá-la, ou usá-la de forma equivocada, o motorista não está apenas cometendo uma infração de trânsito. Ele está, de certa forma, revelando como enxerga o mundo: um espaço onde sua necessidade é sempre mais urgente que a dos outros.
Agora, permita-me uma pequena digressão filosófica. Outro dia, em meio a uma discussão acalorada sobre política, um amigo disparou: “Agora que vocês finalmente aprenderam o que é direita e esquerda, liguem a seta!” Ah, como ri dessa frase. Ela sintetiza a confusão não só do trânsito, mas da vida em sociedade. Saber onde fica a direita ou a esquerda, no sentido literal ou ideológico, não basta. É preciso sinalizar, dialogar, avisar. No trânsito e na vida, ninguém deveria mudar de direção sem dar um sinal claro.
O que me faz pensar: será que a seta é subvalorizada porque somos, como sociedade, avessos à ideia de comunicar nossas intenções? Sinalizar algo implica responsabilidade. Implica dizer ao outro: “Ei, estou mudando de rumo, tome cuidado.” Talvez seja mais confortável viver sem essas obrigações.
Mas não precisamos complicar. A seta é apenas isso: uma seta. Um dispositivo simples, cuja função básica é evitar colisões e mal-entendidos. Só que, no fundo, ela é muito mais. É um teste diário de empatia, paciência e respeito. Não custa nada usá-la. Assim como não custa nada agradecer quando outro motorista lhe dá passagem, ou esperar um pouco mais antes de cortar a frente de alguém.
Então, da próxima vez que você estiver no trânsito e se pegar pensando na seta como algo irrelevante, lembre-se de que ela é um gesto mínimo de gentileza em um mundo que anda precisando muito disso. Afinal, seja na política, no trânsito ou na vida, saber onde está a direita e a esquerda é importante, mas saber sinalizar suas intenções é essencial. E, quem diria, talvez até um ato revolucionário.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

