Com novos projetos portuários, o estado se prepara para dobrar sua movimentação de cargas e ampliar sua conexão com os principais mercados
Por Daniel Hirschmann
O Espírito Santo avança para se tornar um hub logístico de referência no Brasil com a expansão de seu sistema portuário e ferroviário. Projetos como os portos da Petrocity, em São Mateus, e o Porto Central, em Presidente Kennedy, somam-se a iniciativas estruturantes como o ParklogBR/ES, que integra portos, ZPEs, ferrovias, rodovias e aeroportos regionais. A interligação com o agronegócio do Brasil Central por meio das ferrovias EF-118, EF-352 e do Corredor Centro-Leste reforça o papel estratégico do estado no escoamento de cargas, com destaque para a movimentação recorde do Porto de Vitória.
Apesar dos avanços, desafios persistem, como os atrasos na duplicação da BR-101 e na construção do Ramal Anchieta, criticada pelo governo estadual. Ainda assim, a expectativa é de que, com a conclusão dos projetos e integração plena da malha logística, o Espírito Santo mais que dobre sua capacidade de movimentação de cargas, reduzindo custos operacionais e compensando perdas com a reforma tributária. A meta é fortalecer a competitividade do estado no comércio exterior e estimular o crescimento econômico regional.
Segundo o subsecretário de Estado de Integração e Desenvolvimento Regional, Celso Guerra, o complexo de instalações portuárias que envolve Portocel, Imetame, Barra do Riacho e o futuro estaleiro Seatrium (Jurong), incluindo o desenvolvimento de toda a retroárea, deve se tornar uma das principais portas de entrada e saída do Brasil para o mundo, alcançando a hinterlândia (área de origem e destino de mercadorias movimentadas por um porto) motor do Brasil de hoje, que é o agronegócio do Brasil Central. “Isso, junto com o desenvolvimento da rede ferroviária, com a FCA e EF-118, bem como com o sistema rodoviário, pela duplicação da BR-101 e, futuramente, da BR-262”, frisa Guerra.
Nesse cenário uma iniciativa que tende a impulsionar ainda mais o estado como hub logístico é o Programa Estruturante ParklogBR/ES, anunciado no ano passado pelo governo capixaba para potencializar o desempenho logístico, econômico e social das instalações portuárias e de outros ativos nos municípios de Aracruz, Colatina, João Neiva, Linhares e Serra.
Coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento (Sedes), o programa de fomento ao setor inclui portos privados, Zona de Processamento de Exportação (ZPE), ferrovias, rodovias estaduais e federais, além de aeroportos regionais e de outros ativos de suporte logístico e de desenvolvimento de mão de obra.
Rodovias e ferrovias
As obras de duplicação de rodovias federais, no entanto, ainda são um motivo de atenção, pois é preciso avançar nos processos de melhorias e duplicação da BR-101 e na privatização da BR-262. Outra opção de ligação com o resto do país é a BR-259, que liga o Espírito Santo ao Centro-Oeste de Minas Gerais. Além disso, obras como as da ES-115 (Contorno de Jacaraípe), em Civit 2, no município da Serra, também são apontadas pelo setor de transportes como vitais para o atendimento ao complexo portuário capixaba.
Em outra ponta, há mais otimismo quanto aos investimentos em ferrovias. É o caso do complexo ferroviário da Petrocity Ferrovias, chamado de Corredor Centro-Leste nas regras do Novo Marco Ferroviário Brasileiro. Com 2.160 km de trilhos, agrupados a partir de quatro autorizações ferroviárias, 11 portos secos e um porto marítimo, o projeto integra diversas regiões produtivas do país ao litoral do Espírito Santo.
Em 2024, a mineradora Vale entregou ao Governo do Espírito Santo o projeto básico de engenharia da ferrovia EF-118, que vai ligar o sul capixaba ao Rio de Janeiro, conhecida como Ferrovia Kennedy. Também conhecido como Anel Ferroviário do Sudeste, o projeto ligará portos do Espírito Santo a outras ferrovias do país. A expectativa é de que o leilão da ferrovia ocorra até o fim de 2025, com início da construção previsto para 2026. No entanto, o vice-governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço, fez críticas à Vale, no mês de março, dizendo que todos os prazos dados à mineradora para a construção do Ramal Anchieta estão vencidos e que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o Ministério dos Transportes precisam “enquadrar” a empresa para que ela cumpra sua parte.
Ao sul do estado, o destaque é a Ferrovia EF-352, que ligará o Porto Central a Sete Lagoas (MG) e Anápolis (GO), conectando-se com ramais à Ferrovia Norte-Sul. Com 1.850 km, o projeto atenderá às necessidades de transporte de cargas de diversas regiões, principalmente do agronegócio. Já o Porto da Imetame, em Aracruz, terá o escoamento das cargas principalmente pela Estrada de Ferro Vitória-Minas e a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), que se interligam e estão presentes nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Movimentação dobrada
Com o aprimoramento da ligação intermodal, a expectativa é de que os investimentos em expansão do sistema portuário existente e a adição dos portos em desenvolvimento mais que dobrem a movimentação de cargas pelo Espírito Santo, impulsionando sua inserção na economia nacional e apoiando o desenvolvimento do comércio exterior do Brasil, por sua maior competitividade operacional e custos atrativos.
“O sistema portuário capixaba será fundamental para mitigar os efeitos negativos da reforma tributária sobre o Espírito Santo, trazendo ainda mais crescimento e substituindo os incentivos tributários que temos hoje. É um grande desafio que vamos vencendo passo a passo, com muita cooperação entre o governo, prefeituras, empresas e sociedade civil como um todo”, conclui o subsecretário de Estado de Integração e Desenvolvimento Regional, Celso Guerra.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 226, especial de Portos, que circula em abril de 2025. Leia a edição aqui

