Produção diária insuficiente compromete a competitividade da pecuária leiteira, que depende de escala e quantidade para diluir custos
Por Amanda Amaral
Um dos maiores desafios da agropecuária no Espírito Santo para 2026 é tornar a pecuária leiteira mais competitiva e sustentável para ampliar sua produção Para isso, os investimentos estão voltados para a tecnologia, melhoria genética e sucessão rural, visando a manter a importância da atividade como geradora de renda mensal para as famílias do campo. Em 2014, a produção capixaba era de 1,36 milhão de litros de leite por dia, e após 11 anos, passou para 1 milhão, perda de cerca de 400 mil litros por dia.
A margem do leite é trabalhada em centavos, e o aumento da produção por vaca é fundamental para diluir custos e gerar maior renda por hectare, segundo a Nater Coop – que responde por 10% da produção de leite no estado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cooperativa vem fortalecendo o setor de laticínios após a incorporação da Veneza, em 2019, e realiza hoje a captação média de cerca de 100 mil litros de leite por dia, junto aos seus cooperados, e em sua própria unidade produtiva, registra produção em torno de 4.000 litros de leite por dia.
Em entrevista exclusiva à ES Brasil, o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, ressalta que a pecuária leiteira enfrenta uma crise nacional devido aos altos custos de produção, produtores descapitalizados e à concorrência com a importação da Argentina e Uruguai, que possuem indicadores acima da média brasileira. Problema foi agravado ainda, após a seca de 2014. “Após a crise, a única atividade agropecuária relevante para o Espírito Santo que permanece com indicadores baixos, é a pecuária leiteira”, disse. Enio Bergoli explica que o fenômeno ocorre no mundo e que, a médio e longo prazo, países que cresceram na pecuária do leite também reduziram a produção em prol da tecnológica, visando a suportar os custos por litro e preços não adequados ao mercado.
“A pecuária leiteira não é uma atividade de exportação, mas ela é muito importante no dinamismo interno, porque ela gera renda mensalmente para os produtores, já a cafeicultura depende da colheita”, disse. Por isso, em 2025, o Governo do Estado distribuiu 10 mil doses de sêmen e promoveu subsídio de 70% em programas de fertilização in-vitro para melhoria genética dos embriões. Além disso, foram entregues 110 ensacadoras de forragem para garantir alimentação do rebanho no período de seca. Também foi enviado à Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), Projeto de Lei que concede crédito presumido de 100% do ICMS nas saídas interestaduais de produtos industrializados derivados de leite, incluindo o leite UHT Longa Vida comercializado em caixa.
“Temos conhecimento e temos que ter tecnologia. Existe uma rede de profissionais do Incaper, das secretarias municipais, das cooperativas, do Senar, estamos todos unidos para que a tecnologia chegue ao produtor rural”, explicou Enio Bergoli. Em sua opinião, frear as importações de leite geraria mais dinamismo e um preço mais competitivo no Brasil: “O que eu tenho falado com o segmento, é que nós temos aliados muito fortes como Minas Gerais, que é o maior portador de leite do Brasil, mas também o Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Santa Catarina, todos são nossos aliados nessa luta em defesa da atividade nacional”.

“O fortalecimento da cadeia do leite passa pela atuação conjunta de cooperativas, empresas privadas e órgãos públicos, e com políticas de valorização do produtor, com incentivos à produção local e reconhecimento de boas práticas, é possível atingir o objetivo de dobrar a produtividade do leite no Espírito Santo, seguindo exemplos bem-sucedidos de outros estados brasileiros”, disse Ederson Abeldt, gerente da Unidade de Negócios Bovinocultura da Nater Coop. A cooperativa enfrenta problemas como a baixa produtividade média por animal, o que compromete a rentabilidade da atividade. Outro desafio é a genética do rebanho, que deve ser melhorada para alcançar escala e eficiência produtiva, questão agravada pelo fato de que “há produtores que optam por animais de menor custo imediato, o que dificulta a padronização e limita ganhos de produtividade no longo prazo”, segundo Ederson Abeldt.
Entre as apostas da Nater Coop está a Bonificação por Qualidade, em que o produtor pode ser melhor remunerado ao investir em boas práticas produtivas. O Programa Leite Certo, por exemplo, oferece acompanhamento técnico especializado, com foco na gestão da propriedade rural e para minimizar os impactos da estiagem e assegurar a segurança alimentar do rebanho. Ele possui duas opções: incentivo à produção própria, por meio de bonificações e da disponibilização de insumos a preços competitivos; e a aquisição de silagem pronta com valores abaixo do custo e parcelamento na folha de pagamento do leite. A Nater investe ainda de forma continua no desenvolvimento de rações de alta tecnologia, usando aminoácidos, leveduras e outros aditivos nutricionais (não tradicionais) para maximizar o desempenho produtivo dos animais e a eficiência alimentar.

A concorrência com outras culturas é outro impacto para a atividade leiteira. “Nos preços atuais, o café tem apresentado maior rentabilidade por hectare e demanda menos dedicação diária, enquanto a produção de leite exige manejo contínuo, todos os dias, o que tem levado muitos produtores a migrarem de atividade”, explicou Ederson Abeldt. Visando a perpetuar a pecuária leiteira, a cooperativa criou o Programa Clube da Bezerra para a sucessão rural, a ideia é fortalecer o vínculo das novas gerações com o campo e incentivar a continuidade da atividade leiteira no seio familiar. Há ainda questões, que não são específicas do setor, como a escassez de mão de obra qualificada, intensificada pelo êxodo rural. Diante disso, a cooperativa lançou o Escola Leite Certo, para oferecer cursos voltados à pecuária leiteira (casqueamento, inseminação artificial, primeiros socorros, entre outros) para aprimoramento e capacitação técnica.

