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terça-feira, 26 janeiro, 2021

Paulo Mendes Peçanha: A covid-19 continua, o caminho é a prevenção

Há mais de 40 anos lutando contra doenças infectocontagiosas, o médico Paulo Peçanha afirma que a covid-19 permanece com força total

Por Letícia Vieira, Leulittanna Eller e Priscilla Cerqueira

O que a pandemia do coronavírus fez com o Brasil? Como os estados brasileiros agiram diante de uma doença nova, sem diagnóstico exato e com sequelas que ainda são desconhecidas? A covid-19 chegou ao país em fevereiro e em meados de março os capixabas ficaram atônitos ao ver os primeiros casos do ‘vírus’ registrados no Espírito Santo.

De março até novembro, 3.910 vidas foram perdidas e mais de 160 mil pessoas no Estado contaminados pela doença, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. Um desafio inédito para a medicina!

Em mais de 40 anos como infectologista, atuante no combate a diversas doenças infectocontagiosas no Estado, Paulo Mendes Peçanha declarou: “Nunca tinha visto nada parecido”. O médico, que também é mestre em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Espirito Santo, viu colegas de profissão morrerem com a doença.
Na corrida por salvar vidas, profissionais de saúde, governo e órgãos sanitários não mediram esforços: “O governo foi e está sendo eficaz em prover leitos, equipamentos e medicamentos”, afirma. Mas a pandemia persiste e esse vírus permanece com força.
Em entrevista exclusiva à ESBrasil, Paulo Peçanha fala sobre a doença, o contágio, tratamento, as sequelas e frisa que diante de um problema dessa magnitude o caminho para nos protegermos é a prevenção através uso de máscaras e de cuidados básicos de higiene, que muitos tiveram que reaprender. Essa é a ordem, antes que seja tarde demais. Confira!

O sistema de saúde conseguiu amadurecer com essa pandemia?

O sistema público de saúde e o Governo do Estado entenderam que teriam uma demanda muito maior do que a que estava instalada naquele momento e conseguiram aumentar o número de leitos de UTI e acompanhar o aumento de demanda que tivemos nos meses subsequentes. Ao contrario do que aconteceu no Rio e em estados do norte e nordeste do Brasil, no Espírito Santo não tivemos pacientes que precisassem de UTI e equipamentos e não tivessem sido atendidos. Mérito do Governo estadual, que conseguiu prever e acompanhar a demanda surgida no momento de mais estresse.

O vírus trouxe muitas consequências decorrentes da infecção como problemas cardíacos, trombose, doenças pulmonares. Quais sequelas?

90% das pessoas que tiveram a covid-19 no Estado foram de forma leve, sem muitos prejuízos a saúde ou sequelas. Mas os que foram expostos ao vírus de forma mais grave, terão dificuldades para voltarem as atividades que faziam antes e vão precisar de tratamento como fisioterapia e acompanhamento de saúde. Esses pacientes podem apresentar perda de massa muscular e vão precisar de orientação de nutrólogo, além da fisioterapia para recuperarem o condicionamento físico.

Os mais idosos ficam com um déficit neurológico, que só vai ser recuperado ao longo do tempo. Pode durar semanas ou meses para recuperar totalmente a capacidade de desempenho que tinham antes. O primeiro problema é o condicionamento pulmonar, alguns casos podem exigir acompanhamento especializado. Depois o neurológico, que pode ter comprometimento da capacidade intelectual e memória. O coronavírus é uma doença que pode deixar sequelas em vários órgãos e sistemas que levam mais tempo na recuperação.

Podemos ter um nova onda de Covid no ES?

Ainda não resolvemos a primeira onda, estamos em fase descendente da curva da doença e continuamos com o numero significativo de casos. Com a flexibilização do comércio e com a abertura de bares, restaurantes, festas e reuniões de grupos, existe muita chance de não se manter essa queda. No Brasil e no Espírito Santo em particular, não conseguimos uma redução completa e os casos estão tendo repique como consequência da liberação, da flexibilização do comercio, das pessoas, restaurantes e academias, tanto que o estado colocou novos leitos disponíveis.

A retomada das atividades com as pessoas interagindo mais, vem acompanhada do risco de aumento do número de novas infecções e como consequência, um aumento de demanda para internação de pacientes mais graves. Isso ainda não é a segunda onda, que acontece só quando o país zera sua taxa de contaminação e depois de alguns meses o número de casos e óbitos voltam.

Em qualquer pandemia a colaboração social é muito importante quando se trata do controle. O senhor acredita que agimos da melhor forma ou poderíamos ter feito diferente?

Acho que nós nunca tivemos um isolamento rigoroso no Espírito Santo. Tivemos períodos em que as atividades reduziram em março e abril, mas as atividades foram sendo retomadas, mesmo em um momento em que o numero de casos e óbitos continuavam em ascensão. Chegamos em julho e agosto e os números se estabilizaram, começaram a reduzir e as atividades já tinham sido retomadas em grande parte, então, nós nunca tivemos uma redução radical nas atividades.

Se tivéssemos tido um isolamento mais rígido, possivelmente o número de mortos e de casos teria sido menor. O que o setor público e a sociedade fizeram reduzindo a exposição das pessoas durante o momento mais crítico e nesses meses subsequentes ajudou, mas continuamos vivendo sobe essas restrições, então o número de casos que tivemos foi proporcional ao esforço que foi feito de ambos os lados.

O fácil acesso à informação deveria ser entendido como algo bom, mas acha que, nesse caso, as informações que a população recebia colaboraram ou atrapalharam o controle da doença?

Quanto mais informação a sociedade tiver, melhor poderá reagir em momentos como esse, então, se alguma coisa ajudou no tratamento da pandemia de covid-19, foi a forma como os médicos e a imprensa se dispuseram a informar. Com certeza isso contribuiu para que tivéssemos o numero menor de casos.

Olhando para a medicina, a informação que as equipes de saúde e os médicos disponibilizaram contribuíram para a sociedade colaborar de forma mais eficiente. O grande problema foram as redes sociais com informações verdadeiras e falsas, que levaram a comportamentos inadequados ou até mesmo uso de medicamentos desnecessários. Mas a informação baseada em conhecimentos científicos, que foram repassadas para a população nesse período só trouxe benefícios.

Nosso sistema de saúde sempre teve problemas, seja com superlotação, falta de insumos básicos e outros. O SUS se mostrou eficaz no tratamento e também no combate a pandemia da covid-19?

O SUS se superou por acompanhar a demanda de internação, no tratamento de pessoas internadas, nos leitos de UTI. Tivemos momentos em que houve pressão por medicamentos e equipamentos, mas de uma forma geral a condução no tratamento dos pacientes com coronavírus no Espírito Santo foi satisfatória e o Estado tem mérito nisso. Em relação ao número de pessoas infectadas e a circulação do vírus, acho que ficamos devendo na adesão da população as medidas de prevenção, pois não conseguimos a adesão ideal e ainda estamos pagando o preço.

No período mais crítico, entre os meses de março a maio, não conseguimos fazer com que todas as pessoas aderissem ao uso da máscara, do álcool em gel, mantivessem o distanciamento e evitassem aglomeração, e agora estamos correndo o risco de haver um relaxamento ainda maior. A medida em que houve flexibilização, as pessoas voltaram a circular, sem seguir com rigor as medidas de prevenção.

Não podemos abrir mão desses cuidados. O governo foi e está sendo eficaz em prover leitos, equipamentos e medicamentos necessários no atendimento a essa demanda, porém, não estamos sendo eficientes quanto as medidas de prevenção. Há uma preocupação e um trabalho que é feito pelo governo e até da imprensa, enfatizando as recomendações, mas a adesão da população não é proporcional à informação que é oferecida e agora estamos relaxando num momento que não podemos.

O senhor acredita que o SUS também estaria preparado para lidar com outras pandemias?

Nós já vivemos isso. A dengue, a chikungunya e o zika vírus, continuam presentes e trazendo problemas, e podem levar a óbito. Essas doenças são desafios no sistema público de saúde. Nós nunca conseguimos controlar o Aedes aegypti e agora vamos entrar em um período sazonal dessas três doenças, que vão se somar aos casos de coronavírus e continuar sendo um desfaio para o SUS.

O Espírito Santo se saiu bem em relação a pandemia de covid-19, então, ainda que seja desafiador, a expectativa é que consigamos enfrentar, mas é difícil anteciparmos qualquer estimativa. O grande desafio é vencermos essa primeira onda no Estado e não termos uma segunda onda como está acontecendo na Europa. Vamos torcer para que chegue a vacina e junto com ela, as medidas de prevenção, para termos um sucesso maior no controle do coronavírus. É hora de nos cuidarmos para vencermos o que estamos vivenciando hoje.

O sistema público de saúde se mostrou diferente do particular?

Os dois seguimentos conduziram bem. A forma como foi conduzido o atendimento nas demandas em todos os momentos da evolução da pandemia, tanto no setor público quanto no privado foi muito boa. Não faltou vaga nos momentos de mais estresse, nem no público, nem no privado. Temos que aplaudir tanto um quanto o outro na condução. Em cidades como Rio de Janeiro, Manaus, Belém e alguns lugares do Nordeste, os hospitais sofreram muito, tiveram mais dificuldades do que tivemos aqui. O Espirito Santo foi e está sendo bem administrado, tanto no público, quanto no privado, no enfrentamento da pandemia de covid-19.

Quanto a vacina, quando acha que teremos o Brasil vacinado? O senhor acredita na eficácia dela?

Tenho grandes expectativas na vacina. É a única forma de controle da doença. Não vamos conseguir vencer sem vacina, aliás, boas vacinas. Espero que as tenhamos até na metade do ano que vem, para o final deste ano, está fora da realidade. Porém essas vacinas não vão chegar rápido para todo mundo. Temos que entender que os cuidados precisam ser mantidos por todas as pessoas, por isso insisto nas medidas de prevenção.

A vacina vai chegar primeiro para os profissionais da saúde, depois para os idosos e com comorbidades e só depois vai para o restante da população. Outro detalhe, teremos vacinas com proteção parcial, então teremos de manter os cuidados para conseguirmos controlar a pandemia e evitar uma segunda onda.

Como médico, como o senhor ‘viveu’ esta doença sem precedentes, onde não havia protocolos, diagnósticos?

Foi muito desafiador! Mesmo com muitos anos na área, nunca tinha visto nada parecido. Foi uma das doenças mais desafiadoras para os médicos e equipes de saúde Tive que reduzir minhas consultas para evitar a infecção. Perdi colegas para o coronavírus, por isso eu respeito muito a doença e mantenho os cuidados até hoje.

Terminar 2020 com saúde será uma grande vitória para nós e sobretudo para os profissionais de saúde, que tiveram e continuam tendo exposição frequente. Foi um ano em que a sensação de ter atravessado o período pior é um alívio, mas isso não significa que podemos relaxar. Os cuidados que sabemos que protegem e que fomos descobrindo ao longo do ano, não podemos abrir mão.

Houve um excesso do poder público em relação ao isolamento social, fechamento do comercio, entre outras medidas?

De jeito nenhum, pelo contrario, acho que houve relativo rigor e por isso conseguimos reduzir o numero de casos. Em se tratando de Brasil, houve muitos casos em um período muito longo, se tivesse havido maior rigor poderíamos ter reduzido o número de óbitos, e ter um período mais curto de pandemia. Com o que conseguimos, tivemos um número de óbitos proporcional. Nem concordo que haja mais relaxamento porque temos mais leitos disponíveis. Olhando pra trás vejo que poderia ter tido mais rigor para tentar encurtar o período da pandemia.

A economia e a sociedade já podem se sentir seguros e retornar às atividades, considerando a queda da taxa de mortes e de contágio?

Dá para se sentir seguro seguindo as medidas de prevenção, pois você sai de casa com mascara, mantendo durante as atividades e cuidando do distanciamento. Não tem como ter segurança se não mantermos todos os cuidados que aprendemos durante a pandemia. Não dá para juntarmos as pessoas em aglomeração como antes. Temos segurança para a retomada das atividades, desde que as precauções sejam mantidas.

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