O “Ouro Verde” do Espírito Santo

Em 2013, o ES produziu 4,5 toneladas de cacau e no ano passado o número fechou em 6 toneladas

Desempenho da agricultura alavanca crescimento do PIB capixaba em 2018

Após um longo período de crise hídrica, o Espírito Santo volta a comemorar os reflexos de uma safra recorde de café. O desempenho histórico, relativo a 2018, chegou a 13 milhões de sacas, cerca de 500 mil a mais do que a maior marca anterior. O resultado também é positivo na produção de cacau, que fechou o ano oferecendo ao mercado 6 mil toneladas desse item agrícola – a atividade luta pela recuperação total das lavouras desde 2001, período em que houve o surto da praga vassoura-de-bruxa, e ainda se reergue da seca dos últimos três anos. Há muito o que se celebrar. A boa performance desses e outros cultivos tradicionais foram responsáveis por alavancar o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado para mais que o dobro da taxa nacional.

O PIB capixaba no quarto trimestre de 2018 foi de R$ 30,3 bilhões, segundo o último boletim do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), divulgado em março último, em termos nominais. Já em valores acumulados, o PIB nominal do Espírito Santo totalizou R$ 120,8 bilhões no ano passado. A economia local manteve a tendência de alta, com índice de +2,4%, enquanto no país o registro foi de +1,1%. A taxa de crescimento de +40,7% na agricultura foi o que propiciou o viés de ascensão nesse cenário, sinalizada no meio do ano passado. “O destaque para o papel do agronegócio no crescimento do PIB ganha ainda mais relevância pela característica majoritariamente industrializada da economia capixaba”, aponta o presidente do IJSN, Luiz Paulo Vellozo Lucas.

O dirigente ressalta que os dados mostram a força do trabalho rural no território capixaba. “Dos nossos 78 municípios, apenas em 14 a agricultura não é o principal setor da economia, muito embora o peso dela no PIB seja abaixo de 10%. No entanto, avaliando apenas um índice, pode-se cair no erro de considerá-la menor”, afirmou.

Nessa análise, complementa ele, todo o cuidado é tomado para mensurar os indicadores do segmento. “Para cálculos de ICMS, por exemplo, são necessárias algumas dezenas de hectares de café, para gerar o mesmo valor adicional fiscal de uma padaria. Isso faz da agricultura uma atividade econômica com algumas peculiaridades. No PIB de 2018, realmente o que se sobressai é o crescimento do valor da produção de 40%, por isso reunimos as lideranças do setor a fim de destacarmos essa importância”, explicou.

O relatório do IJSN reafirmou o protagonismo da cafeicultura como geradora de renda no campo. Na variedade conilon, houve expansão de 58,3%; no arábica, 26,1%. A pimenta-do-reino apresentou alta de 77,1%, seguida do cacau, com 57,7%.

O secretário de Agricultura, Paulo
Folleto, destacou que o PIB capixaba tem no segmento um forte fator de estabilidade da sua receita.

Titular da pasta da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca no Estado, Paulo Foletto credita os “bons frutos” ao esforço comum de produtores, secretaria e instituições responsáveis. “O PIB capixaba tem na agricultura um forte fator de estabilidade da sua receita. A atribuição desses 40% representa a modernização, a tecnologia e a força de trabalho do cidadão capixaba. Representa também o resultado de uma melhor assistência técnica e de uma Secretaria de Agricultura bem estruturada com o apoio de instituições, como o Incaper, Idaf e Ceasa, entre outras”, salientou o secretário.

Elaboração: Coordenação de Estudos Econômicos – CEE/IJSN

Foletto cita, entre outras melhorias, o manejo de diferentes metodologias para o aumento da produtividade. “O incremento de novas tecnologias com a diversificação da agricultura familiar e do agronegócio teve um papel imprescindível. O Estado é forte na agricultura familiar, o que traz um equilíbrio fantástico, porque proporciona uma diluição dos recursos.”

A FORÇA DO CAFÉ

Dados da Federação da Agricultura do Espírito Santo (Faes) apontam que a safra recorde de café em 2018 alcançou 9 milhões de sacas de conilon e 4 milhões do arábica, cifras  que claramente impulsionaram a composição do PIB. O superintendente do Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café (CetCaf), Frederico de Almeida Daher, reforça que  incremento tão significativo se deve à recuperação das lavouras após a seca severa e prolongada. “A produção retornou aos seus patamares mais elevados. O café, produzindo em níveis superiores, em acordo com outras culturas, registrou esse salto no setor agrícola, enquanto os outros segmentos ficaram mais ou menos estacionados.”

Além do clima, Daher lembrou que o crescente investimento em tecnologia já começa a consolidar avanços. “O Espírito Santo é referência em tecnologia para café, tanto no conilon – variedade em que é o maior produtor Brasil, respondendo por mais de 63% do desempenho nacional – quanto no arábica.”

Desenvolvimento de novos tipos de grãos e manejo mais adequado das lavouras tornam ainda mais propícia a semeadura dessa riqueza. O empenho dos produtores, que se lançam com afinco às ideias inovadoras, também encontra solo fértil. “Eles estão fazendo uma poda adequada, uma fertilização de forma mais correta e menos danosa, um controle de irrigação mais eficiente, principalmente na área do conilon, onde mais de 90% das lavouras são irrigadas. Todos esses fatores se refletem em uma produtividade crescente”, comemora.

“Esse incremento foi devido à recuperação das lavouras depois de um período de seca muito longo” – Frederico de Almeida, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café

Outro elemento que tem dado relevo à cafeicultura capixaba no cenário nacional é o esmero na colheita e na pós-colheita. “Os produtores estão retirando dos pés os frutos mais maduros possíveis, secando a baixas temperaturas ou em terrenos cobertos. Com isso temos produzido cafés de excepcional qualidade”, afirma Frederico Daher.

Para o próximo ano, o superintendente acredita que o mercado será ainda mais receptivo. “A tendência é que fique mais cativo ao café de qualidade. O café especial tem um público fidelizado. Até mesmo a dona de casa comum vai ao supermercado e escolhe um produto com sabor mais apurado. O Brasil hoje é o maior produtor, exportador e consumidor. O mercado interno também está bem aquecido”, completa.

O RENASCIMENTO DO CACAU

O produto do cacauicultor Emir Macedo Filho ficou em 18º no Salão de Chocolate de Paris em 2017, que selecionou as 50 melhores amêndoas do mundo.

Da terceira geração de uma família de cacauicultores, Emir Gomes Filho chegou a ver sua produção cair a quase zero em 2001. O proprietário rural, de Linhares, enfrentou o período de seca de três anos, mas conseguiu se reinventar. Atualmente, comercializa não só a amêndoa do cacau, mas também mudas, e há dois anos passou a produzir seu próprio chocolate, recolocando-se no mercado e obtendo preços melhores. “Foi um período de muita crise, mas procurei diversificar dentro da mesma atividade. Não desanimei. Investi em materiais genéticos mais produtivos e resistentes à praga, passei a produzir e comercializar mudas e, por último, a fazer beneficiamento da amêndoa. Com isso renovamos 70 mil plantas. Se não fossem os três anos consecutivos de seca que tivemos recentemente, já estaríamos colhendo 60 toneladas por ano.”

Emir também tem conseguindo fabricar um chocolate com alta concentração da manteiga de cacau, cuja característica é um sabor mais refinado. “Nosso objetivo é expandir esse processo e no futuro conquistarmos maior espaço no mercado final”, concluiu. Cerca de 30% da produção hoje é de cacau fino, vendido a preços melhores que o da amêndoa.

De acordo com Lucas Calazans, extensionista e coordenador do polo de cacau do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em 2013 o Estado produziu 4,5 mil toneladas, e no ano passado, 6 mil, o que claramente se reflete no crescimento de 57,7% no PIB. Essa participação é amplamente comemorada, uma vez que o setor teve áreas de cultivo totalmente devastadas em 2001.

Novos pés, cujas mudas foram plantadas entre 2012 e 2014, já começam a ter o fruto pronto para a colheita em várias lavouras do Estado. “Esse aumento de produção de cacau também é reflexo do investimento de agricultores que apostaram de diversas formas lá atrás, seja em mudas mais produtivas e tolerantes a doenças, seja em análise do solo, seja podando e adubando de modo correto”, reforçou.

Outro progresso mencionado pelo técnico foi a inovação no sistema de plantio. “O cacau era prioritariamente cultivado sob a região da Mata Atlântica, no padrão chamado cabruca. No entanto, há alguns anos houve uma inovação no plantio, migrando-o para os modelos a pleno sol e consorciado com outras culturas. Isso também favoreceu a obtenção de uma resposta melhor na produção. O agricultor consegue aplicar a tecnologia de maneira mais fácil nesses sistemas, que são constantemente irrigados ou inspecionados”, explicou.

No Espírito Santo, o município de Linhares concentra 90% do cacau do Estado, seguido por Colatina, São Mateus e João Neiva. No entanto, cerca de 40 cidades capixabas registram atividade cacaueira.

**Fonte: Instituto Jones dos Santos Neves

DESAFIOS DO SETOR

Comemorando a participação da agricultura na construção do PIB capixaba, mas sem tanta euforia, o presidente da Faes, Júlio Rocha, tem ido constantemente a Brasília com uma pauta de reivindicações para o setor. Com relação à produção cafeeira do Espírito Santo, por exemplo, ele avalia que os preços atualmente praticados não são suficientes para cobrir os custos de quem comanda as lavouras. “Muitos cafeicultores estão amargando prejuízos, sem conseguir cobrir o preço da produção. O valor da saca do café conilon chegou a cair 15,5%. Outra dificuldade é que os insumos, principalmente adubo, os quais importamos mais de 80%, são cotados em dólar”, alega.

O presidente da Federação da Agricultura do Espírito Santo, Júlio Rocha, explicou que tem ido constantemente a Brasília com uma pauta de reivindicações para o setor cafeiro

Para além dos problemas conjunturais, o dirigente levanta também o flagelo da seca que castigou o agricultor capixaba. “O setor enfrentou as condições climáticas, tivemos anos com baixo índice de chuvas, que trouxe graves problemas para os produtores rurais. Eles ficaram impossibilitados de honrarem seus compromissos. O que desejamos são alternativas para recuperar o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento”, defende.

No ramo do cacau, a crise também não foi tão diferente. O produtor Emir Filho conta que muitos agricultores, assim como ele, abandonaram as lavouras por falta de recurso para enfrentar a praga e a estiagem. “É preciso uma política nacional que beneficie a produção agrícola do país. Em Linhares, muitos agricultores faliram ou tiveram plantações inteiras destruídas.”

No caso do cacau, o beneficiamento da amêndoa tem sido a saída encontrada para escoar a produção, elevar o valor agregado e encarar a crise. “A agricultura de base familiar pode aproveitar os subprodutos do cacau, como polpa, mel, vinagre, geleia, chocolate, cocadas, entre outros, gerando um engajamento da família e elevando o preço final”, afirma Lucas Calazans, do Incaper.

Paulo Foletto disse apostar em um intenso fortalecimento da agricultura familiar e do agronegócio, com incremento de tecnologia, na produtividade e na assistência rural.  “Para isso, é preciso valorizar os órgãos estaduais que trabalham com a agricultura, sendo totalmente necessário ter uma melhor estruturação para que essas entidades funcionem adequadamente, aprimorando a assistência técnica, fazendo com o que técnicos cheguem ao produtor e conheçam suas realidades e necessidades.”


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