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O dia em que a montanha-russa virou bumerangue

 

Ilustração do artigo O dia em que a montanha-russa virou bumerangue

A montanha-russa era conhecida por seu efeito colateral: ela não só balança quem entra, como derruba quem está do lado de fora. E o pior: sempre volta

Por André Gomyde

Na Disneylândia, onde tudo é colorido mas nem tudo é inocente, o Pato Donald acordou com um brilho nos olhos e uma ideia na cabeça: subir na montanha-russa mais perigosa do parque — aquela que gira três vezes, sacode a alma e joga para fora quem não segura o bico. Estava decidido. Nada de calmaria. Era dia de mostrar força. Afinal, como dizia o Pateta, seu conselheiro de ocasião: “Quem não gira, não governa”.

O Pateta, animado, trouxe o mapa da montanha-russa, rabiscado em lápis de cera e entusiasmo. Salsicha, sempre com um sanduíche na mão e um medo camuflado na risada, achou aquilo tudo uma aventura ótima — desde que não precisasse tirar o chinelo. Já o Pernalonga, com seus dentes alinhados e frases ensaiadas, disse que era a favor, mas que depois explicava melhor. Ninguém entendeu. Mas alguns aplaudiram, ainda que já não usasse mais o boné em apoio a Magali.

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Na festa no céu, onde se reúnem os personagens que já passaram por muitas temporadas, o movimento causou arrepio. A montanha-russa era conhecida por seu efeito colateral: ela não só balança quem entra, como derruba barracas de algodão-doce e quebra o carrinho de pipoca de quem está do lado de fora. E o pior: sempre volta.

Enquanto isso, lá embaixo, Homer Simpson andava em círculos, com um mapa na mão e a cabeça confusa. Tentava entender se aquilo era parte do roteiro ou se tinha entrado por engano num parque de diversões de susto permanente. Queria só uma cerveja e uma direção. Mas tudo que encontrava era barulho de lata sendo chutada e placas apontando para lados opostos: “Prosperidade” para a direita, “Soberania” para a esquerda, e “Tarifa Extra” no meio do caminho.

O Pato Donald, de cima da montanha-russa, gritou para todos ouvirem que ia colocar ordem no parque. Disse que quem quisesse vender pipoca teria que pagar mais. Que o quiosque de sorvete da Disneylândia estava desleal. Que ou o algodão-doce se adequava, ou seria taxado até o talo. O barulho foi tanto que os visitantes começaram a sair do parque. Alguns com medo, outros com tristeza. Uns com saudade de quando só havia castelos e desenhos na tela.

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No fim do dia, Pateta, Salsicha e Pernalonga se reuniram para avaliar o estrago. Mas ninguém quis assumir o comando do carrinho. Disseram que era coisa do destino, da gravidade, da física política.

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Homer olhou para tudo aquilo e pensou — se pensou — que talvez o parque precisasse de menos montanha-russa e mais roda-gigante. Algo que mostrasse o todo com calma. De cima. Sem susto.

Mas o carrinho já estava no looping. E o problema com loopings, todos sabem, é que eles sempre voltam para o mesmo ponto. Só que com menos passageiros.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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