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sexta-feira, 12 agosto, 2022

Geração “Nem-nem” ameaça o futuro da economia

IBGE mostra que, no Brasil, mais de 19% dos jovens não estudam nem trabalham, e especialistas vêem situação como uma bomba-relógio de potencial devastador. No Espírito Santo, índice é de 16,9%

*Por Daniel Hirschmann

Há um ano o Brasil foi agitado por manifestações nas principais capitais, com pedidos por mudanças políticas, econômicas e sociais. Entre distúrbios e movimentos pacíficos, ficou a esperança de que “o gigante” tivesse acordado. Hoje, porém, pouco se vê de resultados práticos daqueles movimentos. Por outro lado, uma transformação silenciosa está tomando a juventude em todo o mundo, principalmente em países como o Brasil, com a economia ainda em desenvolvimento. Nesse caso, porém, os impactos já começam a ser sentidos. E não são nada animadores, segundo profissionais de várias áreas que estudam o assunto.

Essa transformação pode ser observada em números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes à Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) de 2012. Segundo o levantamento, 19,6%, ou 9,6 milhões de jovens brasileiros, na faixa etária de 15 a 29 anos, formam o que já está sendo chamado de “Geração Nem-Nem” – nem estudam, nem trabalham. São quase 10 milhões, dentro de uma população estimada de 48,8 milhões de jovens, ou seja: uma em cada cinco pessoas da respectiva faixa etária. “É um exército de reserva, que pode ser manobrado para o bem ou para o mal”, alerta o jurista e professor Luiz Flávio Gomes, diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. “Podem um dia explodir por meio de uma violência coletiva devastadora.”

No Espírito Santo, segundo os dados do IBGE, a situação é um pouco melhor. O índice de adolescentes e jovens de 15 a 29 anos de idade que não trabalha nem estuda é de 16,9%. Enquanto isso, os que só estudam chegam a 19,4%, enquanto 13,5% trabalham e estudam. Já 50,2% nessa faixa etária só trabalham.  O estado registrou o melhor resultado da região Sudeste e o quarto melhor do País – atrás apenas dos estados da Região Sul.

O problema reflete uma tendência mundial. No relatório Tendências Mundiais de Emprego 2014, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que aumentou o desemprego entre os jovens. A estimativa é de que chegue a 73,4 milhões o número de jovens entre 15 e 24 anos sem trabalho em 2014, cerca de 1 milhão a mais do que em 2012 e 500 mil a mais que em 2013. Os números apontam para uma taxa de desemprego juvenil de 12,6%, o dobro da taxa de desemprego geral, que é de 6,1%. Segundo a OIT, o total de jovens que não trabalham nem estudam aumentou em 30 dos 40 países pesquisados – em 2013, 1 milhão de jovens ficaram desempregados.

Uma das razões para o crescimento global dos “nem-nem”, independentemente do nível de riqueza dos países afetados, seria a dificuldade dos jovens de se adaptarem às mudanças rápidas da sociedade e à forma como ela produz e se reproduz.  “A sociedade atual é mais fragmentada do que no passado. E, com isso, principalmente os jovens se sentem um tanto quanto perdidos, desencaixados da própria sociedade. Eles têm dificuldade em encontrar referenciais para as suas vidas”, comenta o economista Orlando Caliman.

Em um Estado como o Espírito Santo, onde grandes projetos industriais exigem cada vez mais uma mão de obra qualificada, essa situação pode representar um sério problema. O economista observa que esses jovens estão despreparados para um mercado de trabalho cada vez mais exigente, tanto em termos de educação quanto de habilidades e conhecimento das funções. Isso porque as habilidades exigidas para novos empregos são cada vez mais sofisticadas e de curta duração, o que deixa os jovens com mais dificuldade na escolha de suas carreiras. “Aliás, nem se pode mais denominar de carreiras de trabalho, pois as mudanças são muito rápidas. O que foi aprendido hoje pode não ser útil amanhã”, frisa Caliman.

Desalento

Ele lembra que alguns estudiosos classificam esse contingente de pessoas como “em desalento estrutural”. Nessa condição, não são captados pelas pesquisas de emprego, pois não estão em busca de emprego. No caso do Brasil, são predominantemente pobres e mais concentrados no Nordeste do país. Cerca de dois terços são mulheres, muitas das quais ingressam na condição de mães bem cedo. “Esse contingente tem aumentado, também, em função de muitos contarem com sustentação dos avós ou pais, muitos dos quais beneficiários de programas do tipo Bolsa Família, que é uma situação mais comum no Nordeste”, avalia economista.

Para piorar, esses jovens também não se sentem atraídos pela escola, seja pela baixa qualidade do ensino ou pela falta de atrativos do sistema escolar. Caliman diz que as escolas no Brasil ainda remontam ao século 19, com professores do século 20. “Não se qualificando pela educação, esses jovens terão dificuldade de encontrar empregos mais tarde. Temos que lembrar que a tendência é de que os novos postos de trabalho sejam sempre mais exigentes em qualificação”, destaca.

O jurista Luiz Flávio Gomes diz que há tanto fatores individuais quanto sociais – ou socioeconômicos – que contribuem para o crescimento da “Geração Nem Nem”. Entre eles, a falta de comprometimento de muitos jovens, que estão adiando as responsabilidades para mais tarde. “Muitos não conseguem acompanhar o ritmo escolar, tampouco possuem capacidade de concentração. Outros não querem  trabalhar porque os salários não são convidativos”, constata.

Como esses jovens não contam com um horizonte profissional firme e estão, naturalmente, despreparados para o mercado de trabalho, sua inserção na economia se torna difícil. Em outras palavras, se não são trabalhadores, também não são consumidores, à exceção daqueles que têm uma família abonada. Assim, os impactos também poderão ser sentidos no movimento do comércio. “Para o país, sobretudo quando se necessita muito de mão de obra qualificada, os milhões de ‘nem-nem’ constituem um prejuízo enorme, tanto para a economia, quanto para o progresso do país e para a inovação”, lamenta Gomes.

Perfil

O professor observa diferenças entre os perfis desses jovens, o que também pode influenciar no rumo que seguirão. Há, por exemplo, o “nem-nem” que não trabalha nem estuda em razão de uma psicopatologia, como a baixa autoestima, entre outras. Também existe o “nem-nem” que está nessa situação por total desqualificação profissional, fator que se acumula com o abandono escolar. Esse, segundo Luiz Flávio Gomes, é o mais preocupante, porque pode se engajar em alguma atividade ilícita com facilidade. “A classe social é muito relevante. Quem pertence a uma classe mais alta sempre tem um ‘colchão’ de apoio e mais dificilmente cairá na criminalidade. Quem não tem nenhum ‘colchão’ tem o futuro mais comprometido”, avalia.

O psiquiatra Vicente Ramatis Lima acredita que atividades ilícitas como o consumo de drogas, principalmente a maconha, já estão entre as causas desse fenômeno. O médico observa que o consumo de maconha é muito grande em determinadas regiões. “E quem costuma usar maconha muito novo fica extremamente letárgico. Ela causa improdutividade”, explica.  Outro fator, segundo ele, é o crescente consumo de bebidas, que afeta não só os jovens em geral, mas de forma específica algumas mulheres em gestação. Nesse caso, o consumo de bebidas alcoólicas resulta em problemas, como má formação e transtorno de déficit de hiperatividade e atenção (TDH). “E quem tem esse déficit também tem muita tendência a usar drogas”, diz. Além disso, há uma gama de doenças desencadeadas ou provocadas pelo consumo de álcool. “Esse próprio consumo diário causa depressão. Essa relação interfere também na formação desses jovens”, explica o psiquiatra.

Ramatis nota que o fato de haver cada vez mais “famílias disfuncionais” também pesa na formação da “Geração Nem-Nem”. “Hoje, o número de famílias em que o chefe é a mulher é crescente. Além disso, são frequentes os casos de mães solteiras, ou com filhos de pais diferentes. Esse é mais um fator que, muitas vezes, pode influenciar negativamente essa geração”, avalia.

Essa situação também preocupa o presidente do Instituto Avante Brasil. Segundo Luiz Flávio Gomes, uma parcela desses jovens que não estudam nem trabalham é “desfamiliarizada” – não tem uma constituição familiar sólida, nem amparo social. “Esse grupo desfamiliarizado é uma verdadeira bomba-relógio, em termos sociais, de potencial criminalidade e de violência”, adverte, em artigo no site do instituto.

Criminalidade

Os fatores negativos começam a se somar – não estuda, não trabalha, não procura emprego, não tem família, não tem projeto de vida – e, quando a isso se juntam más companhias, uso de drogas, convites do crime organizado, intensa propaganda para o consumismo, famílias desestruturadas, entre outros fatores, dificilmente esse jovem escapa da criminalidade. “Milhões de jovens, teoricamente, estão na fila da criminalidade”, alerta o jurista.

Se a situação já é preocupante, a tendência é de piorar. O Instituto Avante Brasil prevê crescimento da “Geração Nem-Nem” em todo o mundo, porque “o trabalho está ficando cada vez mais difícil”. Mas a situação é mais grave em países que não contam com sistema de ensino forte, como o Brasil, porque nesses lugares “se abandona a escola com mais facilidade”.

Vicente Ramatis também vê pouca expectativa de melhora no curto prazo. Ao contrário, no Brasil, segundo ele, a tendência é de a “Geração Nem-Nem” aumentar, considerando o alto consumo de bebidas e outras drogas, somado ao baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). “Na questão do alcoolismo, por exemplo, qual a política pública de esclarecimento que se tem? Pelo contrário, até se estimula!”, lamenta o psiquiatra, lembrando que o álcool é a porta de entrada para outras drogas e para a violência.

Educação

Todos concordam que o melhor caminho para reverter esse quadro é a educação. “Mas uma educação motivadora e que consiga atrair os jovens”, pondera Orlando Caliman. O maior risco é de que não haja pessoas qualificadas para permitir um aumento da produtividade média da economia brasileira, que já é baixa, se comparada a dos trabalhadores de outros países, inclusive do mesmo nível de desenvolvimento. Por isso, Caliman insiste no alerta: “Isso tem relação com a qualificação. Ou seja, a não qualificação tende a elevar o contingente de pessoas marginalizadas do processo produtivo e, consequentemente, também do mercado. A grande tarefa está na educação. Para isso a educação tem que ser mudada. Tem que atrair e motivar os jovens, tem que estar inserida nos contextos deles, e não superposta”.

Luiz Flávio Gomes também vê necessidade de dar atenção para essa classe. A principal tarefa do Estado e da sociedade consiste em proporcionar a esses jovens um sistema de ensino de qualidade, que os motive a enfrentar o futuro. “A vida não é só o presente”, afirma. “Um país com falta de mão de obra qualificada, como o Brasil, perde uma grande oportunidade de não preparar seus jovens educacionalmente para o futuro, tanto individual quanto coletivo.”

A matéria acima é uma republicação da Revista ES Brasil. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.  

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