Mostra percorreu Alegre, Cariacica e São Mateus, aproximou estudantes da pesquisa científica e fortaleceu o interesse dos jovens pela produção de conhecimento
Por Thamiris Guidoni
A Mostra Científica do Programa de Iniciação Científica Júnior do Espírito Santo – Pesquisador do Futuro (PIC Jr.) mobilizou, em novembro, 120 projetos desenvolvidos por estudantes da rede pública estadual.
A iniciativa, realizada pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), em parceria com a Secretaria da Educação (Sedu), conecta pesquisadores, professores e alunos no desenvolvimento de estudos em diversas áreas do conhecimento.
A chamada pública aproxima o ambiente escolar da pesquisa científica, permitindo que adolescentes vivenciem, ainda na escola, etapas como investigação, análise de dados, experimentação e apresentação de resultados. Em 2025, as mostras regionais foram realizadas em Alegre, São Mateus e Cariacica, reunindo centenas de visitantes.
“É uma chamada que permite uma experiência científica e tecnológica única aos jovens estudantes do ensino público estadual, com o conhecimento sendo adquirido diretamente no contato com pesquisadores mais experientes. Essa aproximação entre instituições de Ensino Superior com a nossa rede pública de Ensino Básico, numa união vencedora graças à parceria com a Secretaria da Educação, faz com que o interesse pela carreira científica, tecnológica e pela inovação desperte desde cedo nesses jovens, preparando a geração de talentos do futuro. Foram mais de 100 projetos expostos nessa edição, o que mostra que é uma iniciativa de sucesso”, destacou o diretor-geral da Fapes, Rodrigo Varejão.
Alegre abre a programação
A primeira mostra de 2025 ocorreu no campus do Ifes em Alegre e reuniu 40 projetos. Entre eles, uma pesquisa desenvolvida pela EEEFM Professor Pedro Simão em parceria com a Ufes – Campus Alegre, que analisou como a granulometria da casca de café influencia na produção de filamentos de PP para impressoras 3D. O estudo buscou compreender o impacto das diferentes partículas nas propriedades mecânicas e contribuir para o reaproveitamento de um resíduo agroindustrial comum no Espírito Santo.
Para o tutor do projeto, o professor Luciano Duarte Moreira Chagas, envolver os alunos em práticas de pesquisa fortalece a formação científica na escola.
“É essencial mostrar que práticas pedagógicas em parceria com outras instituições, como é o caso do nosso projeto em parceria com a Ufes, pode trazer reconhecimento para a nossa escola, e também estimular os nossos alunos a querer buscar mais conhecimento, se tornando pesquisadores no futuro”, afirmou.
Ele reforçou o impacto da participação: “Por meio desse edital, temos a oportunidade de ter os alunos como bolsistas de iniciação científica Júnior, um professor ser tutor, o meu caso, e outro professor ser coordenador, como é o Michel Picanço Oliveira, da Ufes, neste projeto. Essa parceria veio para fazer a diferença na pesquisa, na educação, mas principalmente dar maior oportunidade para os alunos. É um resultado para a Fapes, para a escola, mas principalmente na vida dos nossos alunos”, completou.
Segunda etapa acontece em Cariacica
O campus do Ifes de Cariacica recebeu 37 projetos e grande fluxo de visitantes. Entre os destaques, uma pesquisa do Ifes de Vila Velha analisou a dinâmica psicossocial das fake news relacionadas a temas políticos e socialmente sensíveis. O trabalho foi coordenado pelo professor Diemerson da Costa Sacchetto.
A aluna do 2º ano, Maria Clara Rodrigues, relatou que o PIC Jr. ampliou seus interesses acadêmicos.
“Achei muito importante e divertido participar, porque é um mundo que a gente descobre e não quer sair mais. Antes eu não sabia muito bem como isso funcionava, via algumas pesquisadoras, mas eu não entendia. E agora que eu convivi aqui com esse edital da Fapes, eu adorei esses horizontes de coisas que podem acontecer e também de oportunidades que podem surgir. Acho que despertou um desejo de virar pesquisadora, algo que eu quero seguir e talvez daqui um tempo ter um doutorado, poder ser orientadora de outras pessoas”, disse.
Outro trabalho apresentado em Cariacica foi o levantamento de preços recebidos por produtores rurais de Santa Maria de Jetibá, desenvolvido por alunos da EEEFM Graça Aranha em parceria com o Incaper. A pesquisadora Edileuza Aparecida Vital Galeano, coordenadora da iniciativa, destacou a importância da troca de saberes.
“Os alunos tiveram uma contribuição muito grande fazendo esse levantamento de preços dos produtos lá em Santa Maria de Jetibá. Nós, do Incaper, sempre contamos com a parceria com a Fapes em diversos editais e, esse em específico, é muito importante porque a gente tem oportunidade de fazer essa troca de conhecimento. Os alunos tiveram contato com pesquisadores, extensionistas e também com os produtores rurais. Então, acredito que teve um crescimento, um conhecimento, que vai servir muito para as atividades deles no futuro e como incentivo para eles se interessarem mais por outros projetos e até quem sabe seguir numa atividade acadêmica”, afirmou.
O aluno Artur Demuner também relatou transformação pessoal. “No início, confesso, nem parecia ser algo tão legal. Mas no decorrer do ano, as reuniões, essa troca de mensagens com os produtores quando a gente ia nas feiras do município e tudo mais… Isso me despertou uma vontade em querer continuar fazendo pesquisas. Talvez não necessariamente nessa área de agricultura, mas sim continuar pesquisando, porque o conhecimento é algo que ninguém tira da gente”, contou.
Ele também comentou sobre a apresentação na mostra: “Eu nunca tinha participado de uma feira tão grande, até pela nossa cidade ser do interior. Estava um pouco nervoso por ser a primeira vez, mas deu tudo certo e acredito que o pessoal achou bem interessante o nosso projeto”, disse.
São Mateus encerra com recorde de projetos
A última etapa foi realizada no campus da Ufes de São Mateus e reuniu 43 trabalhos, maior número registrado em 2025. Um dos destaques foi o estudo desenvolvido por estudantes da EEEM Dom Daniel Comboni, de Nova Venécia, sobre métodos de desinfecção de água proveniente de poços artesianos com contaminação microbiológica. O objetivo foi identificar técnicas domésticas mais eficientes, rápidas e com melhor custo-benefício para garantir potabilidade.
Para Gabriele Santana, aluna do 3º ano, a participação foi transformadora.
“Participar no projeto PIC Jr. foi uma experiência bastante gratificante, porque acredito que eu tenha adquirido mais habilidades, como, por exemplo, a comunicação, mais responsabilidade, mais compromisso. É algo que pode refletir na minha vida profissional. Eu também acredito que tenho evoluído bastante como pessoa no que diz respeito a poder resolver problemas, me fez adquirir mais raciocínio lógico para conseguir pensar em hipóteses, em oportunidades, conseguir criar um certo caminho na minha vida.”
A coordenadora Ester Correia Sarmento Rios destacou a curiosidade dos jovens como motor da pesquisa.
“A coordenação de um PIC Jr., apesar de não ser a minha primeira vez, se mostrou muito mais fácil, por incrível que pareça, do que você ser orientadora de mestrado ou doutorado. Porque os jovens têm esse senso de curiosidade que vem até da infância, que torna como se fosse um motor propulsor da coordenação: quando a coordenação está cansada ou a tutoria está cansada, vem a curiosidade dos jovens e estimula”, afirmou.
Ela completou: “Muitos dos problemas técnicos que tivemos ao longo do projeto foram solucionados pelos próprios estudantes, porque eles também têm uma visão que nos falta, uma visão que a juventude traz. Eu tive vários problemas, por exemplo, com relação a GPS, a tecnologia, que foi muito facilmente resolvida por eles. Então, traz essas duas melhorias: primeiro, a familiaridade que eles têm com a tecnologia, e segundo essa curiosidade natural tão essencial para o cientista”.
Investimento e bolsas
Os alunos selecionados receberam bolsas mensais de R$ 400 durante todo o período de execução da pesquisa. O edital 16/2024 investiu aproximadamente R$ 6 milhões, por meio do Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia (Funcitec) e da Sedu, fortalecendo a formação de novos talentos científicos no Espírito Santo.


