No contexto das mudanças climáticas, o monitoramento hidrológico vem mostrando as consequências dos eventos extremos sobre a qualidade da água dos rios
Por Márcia Silva Pereira D’Isep
Um dos fundamentos estabelecidos na Política de Recursos Hídricos, quer no âmbito nacional ou estadual, é que a gestão dos recursos hídricos deve proporcionar a disponibilidade e a qualidade da água necessárias aos seus diferentes usos, sejam eles para abastecimento público, irrigação, industrial, conservação e proteção de ecossistemas, dentre outros.
Dentro da mesma política, uma das diretrizes estabelecidas é a gestão sistêmica dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade, sendo necessário, para isso, o monitoramento contínuo dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, o que irá permitir a avaliação precisa da qualidade e da quantidade da água disponível, de modo a apoiar a gestão sustentável dos usos atuais, bem como a tomada de decisões e ações que viabilizem os usos futuros.
O monitoramento hidrológico, através do processo contínuo de coleta, análise e interpretação de dados relacionados aos diversos aspectos do ciclo hidrológico, envolve a medição de parâmetros de qualidade da água, da quantidade de chuva (precipitação), fluxo de rios (vazão), evaporação e outros processos hidrológicos e meteorológicos sendo, também, uma ferramenta indispensável para a previsão e defesa de eventos extremos,
como enchentes e secas.
Dentro do contexto das mudanças climáticas, o monitoramento hidrológico vem mostrando as consequências dos eventos extremos sobre a qualidade da água dos rios, exacerbadas pelas atividades humanas prévias junto ao solo, alterando ou intensificando o comportamento comumente esperado dos parâmetros analisados nas diferentes estações do ano.
A exemplo, quando um período supostamente chuvoso tem seu início postergado e apresenta-se extremamente seco, como ocorrido no final de 2023 no Espírito Santo, com vazões bastante reduzidas nos rios e temperaturas ainda mais elevadas do que é esperado, torna-se possível a maior concentração de poluentes, a redução dos níveis de oxigênio e a alteração do pH da água. Tais fatores podem ter efeitos adversos sobre a qualidade das águas utilizadas na irrigação e no abastecimento público e também comprometer a sobrevivência de muitas espécies aquáticas.
Já o aumento da intensidade e frequência das chuvas favorece o maior escoamento superficial das águas junto a superfícies comumente modificadas, maximizando as vazões dos rios, intensificando o carregamento dos sedimentos, poluentes, matéria orgânica e patógenos, de forma a impactar fortemente os diferentes ecossistemas aquáticos, os serviços de abastecimento público e, até mesmo, a segurança das vidas humanas.
É importante ressaltar que quando se fala em qualidade da água dos rios também se deve atentar à qualidade das águas das praias (balneabilidade), pois ambos estão interligados dentro do sistema hidrológico, onde a ocorrência de determinado poluente em um ambiente pode ser indicativa da presença do mesmo no outro.
Nesse sentido, é de extrema importância que sejam adotados eficientes programas de monitoramento da qualidade tanto dos rios, quanto das praias. Não existem dúvidas de que a adoção de um monitoramento hidrológico contínuo e eficaz permite não apenas subsidiar a gestão de recursos hídricos, mas também ajudar a desenvolver estratégias para lidar com novos padrões hidrológicos e a proteger os recursos hídricos em um
clima em transformação.
Márcia Silva Pereira D’Isep é bióloga, Mestra em Biociências e Biotecnologia e coordenadora de Hidrologia, Informação e Pesquisa da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh).

