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Indústria prepara a mudança, mas o petróleo ainda dita as regras

A matriz energética do Espírito Santo revela os desafios da indústria: equilibrar viabilidade econômica, reduzir a dependência fóssil e ampliar a transição em curso

Por Maxiene Muniz

Durante décadas, a energia elétrica foi tratada como um simples insumo — essencial para a produção industrial, mas raramente protagonista nas discussões sobre competitividade.

No Espírito Santo, essa realidade ganhou contornos mais nítidos à medida que o custo da eletricidade passou a ocupar uma fatia cada vez mais expressiva dos custos fixos das empresas, pressionando margens e dificultando a disputa com indústrias de outras regiões e países.

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A energia elétrica representa, em média, 22% do consumo energético da indústria brasileira, segundo o Balanço Energético Nacional 2025, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Em setores como mineração, papel e celulose e metalurgia, esse percentual pode ser ainda maior, tornando a gestão energética uma questão de sobrevivência.

Análise do Instituto Ilumina com base em séries históricas da ANEEL mostra que a tarifa média de energia elétrica no Brasil aumentou cerca de 1.150% entre 1995 e 2021 — um salto que reflete a complexidade regulatória e os encargos acumulados ao longo das últimas décadas. Já um estudo da Abrace Energia mostra que, entre 2000 e 2022, o custo unitário da energia elétrica para a indústria brasileira cresceu 1.154%, superando em muito a inflação do período e evidenciando o peso da energia nos custos de produção.

“A tarifa final paga pelas empresas e por toda a sociedade no Brasil é uma das mais caras no mundo, apesar de termos custos de produção de energia muito competitivos. Os tributos e outros fatores, como subsídios elevados, encarecem demais o preço final da energia elétrica no Brasil e reduzem a competitividade da economia”, afirmou Roberto Wagner, gerente de Energia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao apresentar, em julho do ano passado, os resultados da pesquisa “Indústria e Matriz Energética”, realizada pela entidade com mais de mil empresários do setor.

Para a indústria capixaba, historicamente dependente de uma única distribuidora — a antiga Escelsa, hoje EDP — e de uma infraestrutura limitada de transmissão, esse aumento teve efeitos ainda mais severos. Até meados dos anos 2000, o Espírito Santo vivia uma espécie de isolamento energético.

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A conexão precária ao Sistema Interligado Nacional (SIN) deixava o estado vulnerável a apagões, variações de tensão e à ausência de poder de barganha sobre as tarifas.

Essa situação impunha limites à expansão industrial e à previsibilidade dos custos, mas começou a mudar a partir de investimentos da distribuidora em infraestrutura de transmissão e da instalação de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), além da chegada de projetos eólicos e solares em escala crescente.

Inicialmente, foi o peso da conta de luz — mais do que a preocupação ambiental — o que empurrou as empresas capixabas para o mercado livre de energia e para fontes alternativas. No Espírito Santo, esse movimento foi acelerado pela combinação de tarifas elevadas, fornecimento instável e necessidade de reduzir custos fixos para manter a competitividade.

Hoje, segundo a pesquisa da CNI já citada, 93% do consumo industrial de energia elétrica no Brasil ocorrem em ambiente de livre negociação. No Espírito Santo, embora não haja um percentual oficial divulgado, a adesão da indústria ao mercado livre é igualmente considerada elevada, especialmente entre os grandes consumidores, segundo o estudo Energia 2035 – Rotas Estratégicas para o Futuro da Indústria do Espírito Santo, da Federação das Indústrias do ES (Findes).

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Sustentabilidade ganha protagonismo

À medida que as empresas capixabas avançaram na busca por autonomia energética, a preocupação ambiental deixou de ser periférica. A transição para fontes renováveis passou a integrar decisões estratégicas, impulsionada por exigências de mercado, metas de descarbonização e oportunidades de inovação. Em um estado cuja matriz energética ainda é fortemente dependente de petróleo e gás natural, iniciativas voltadas à eficiência e à diversificação passaram a ocupar espaço central nas agendas industriais.

A mudança de postura tem se refletido em projetos concretos. Indústrias de diferentes portes vêm investindo em sistemas próprios de geração solar, firmando contratos com comercializadoras de energia renovável e adotando tecnologias de eficiência energética. Há casos de empresas que conseguiram reduzir em até 40% o custo da eletricidade ao migrar para o mercado livre, instalar painéis fotovoltaicos — ou adotar ambas as estratégias.

Além da economia, pesa também a pressão por descarbonização. Grandes grupos industriais que exportam para Europa e Estados Unidos já enfrentam exigências ambientais mais rígidas, como o rastreamento da pegada de carbono em toda a cadeia produtiva.

Nesse contexto, a origem da energia elétrica passou a ser um diferencial competitivo — e, em alguns casos, uma condição para manter contratos internacionais.

O Espírito Santo ainda tem uma matriz energética majoritariamente fóssil, com forte presença de petróleo e gás natural. Mas iniciativas como o Programa de Transição Energética da Findes, o avanço da geração distribuída e a chegada de projetos de hidrogênio verde comprovam que o estado se move em direção a uma matriz
mais limpa e diversificada.

Ele acrescenta que a energia é um dos pilares da competitividade industrial. “Precisamos garantir segurança, previsibilidade e custo adequado para que nossas empresas possam crescer de forma sustentável”.

A percepção também é compartilhada por outras lideranças empresariais. “A indústria está se reinventando. A energia deixou de ser apenas um custo e passou a ser uma variável estratégica”, afirma Viviane Rosa, CEO da VR Energia. “Quem não se adaptar, vai perder espaço.”

Esse cenário de dependência fóssil, embora persistente, convive com projetos concretos de mudança. O Espírito Santo contabiliza R$ 113,6 bilhões em investimentos até 2030, sendo R$ 51,1 bilhões somente no setor de energia. Embora a maior parte desses recursos ainda seja direcionada à cadeia petróleo, gás, Paulo Baraona pondera: “O nosso futuro também se apoia em outros projetos que avançam. Podemos destacar a implantação de sete parques eólicos offshore no Estado a partir de projetos de empresas como a Shell Brasil, Equinor e Votu Winds. Além disso, a EDP e a ArcelorMittal Tubarão assinaram um memorando de entendimento para avaliar a viabilidade técnica e econômica de uma planta-piloto para a produção e uso de hidrogênio verde no processo de fabricação do aço.”.

A diversificação energética também é vista como estratégia para proteger a indústria capixaba contra barreiras comerciais ligadas às emissões.

A pesquisa “Descarbonização e Eficiência Energética 2025”, realizada pela Findes e pelo Bandes, mostra que 82% das empresas já têm a preocupação ambiental como principal motivação para investir em energia, e 72% planejam ações voltadas à eficiência, fontes renováveis e economia circular.

No entanto, o financiamento ainda é um desafio: 48% das empresas buscam recursos externos, enquanto 32% usam capital próprio. Os valores projetados variam — 26% pretendem investir até R$ 500 mil, e 11% entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões. A expansão do crédito verde e a adoção de métricas ESG são apontadas como essenciais para destravar o potencial da transição energética.

Capacitação e inovação fortalecem a transição

Apesar dos entraves financeiros, a indústria capixaba tem buscado soluções estruturantes — e a qualificação profissional é uma delas. O Senai, por meio dos Centros de Excelência em Energias Renováveis, capacita até 450 alunos por dia em tecnologias solares, eólicas e mobilidade elétrica. Programas como o Descarboniza.i oferecem consultoria individualizada para pequenas e médias indústrias, ajudando a transformar metas ambientais em ganhos operacionais.

A integração entre energia limpa, digitalização e inovação tecnológica fortalece a Indústria 4.0 no Espírito Santo. Microrredes conectadas a sistemas fotovoltaicos e baterias aumentam a autonomia das plantas industriais, enquanto projetos de eficiência hídrica e reaproveitamento de resíduos se tornam diferenciais competitivos. Ao mesmo tempo, novos segmentos de mercado se abrem, como fabricação de equipamentos, serviços de manutenção, consultorias em eficiência energética e projetos de microrredes inteligentes.

Indústria prepara a mudança, mas o petróleo ainda dita as regras
“Esse movimento mostra que o Estado está construindo uma matriz equilibrada: aproveitamos a força do petróleo, mas também preparamos as bases para liderar em renováveis, pontua Paulo Baraona, presidente da Findes – Foto: Renan Donato / Findes

Para Paulo Baraona, a equação é clara: “Energia limpa a custos competitivos libera recursos para digitalização, automação e inovação. Isso significa indústrias mais tecnológicas, resilientes e preparadas para o futuro.”

Nathan Diirr, especialista em Inovação Industrial, reforça: “O Espírito Santo combina tradição energética e inovação tecnológica. A transição energética, junto à digitalização industrial, cria um ciclo virtuoso de competitividade, sustentabilidade e resiliência econômica.”

Num cenário em que sustentabilidade deixou de ser diferencial e passou a ser exigência, o Espírito Santo reúne atributos cada vez mais valorizados pela indústria global. A combinação entre transição energética em curso acelerado, localização estratégica e infraestrutura conectada posiciona o estado como terreno fértil para investimentos produtivos.

Para empresas que buscam reduzir sua pegada de carbono sem abrir mão da eficiência, o Espírito Santo oferece mais que energia — oferece perspectiva.

*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

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