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sexta-feira, 12 abril, 2024

Ficamos mais sedentários na pandemia… e isso não é bom

Quem é que não ganhou alguns quilos durante o isolamento, não é mesmo? A missão agora é retomar os cuidados com alimentação e exercícios

Por Mike Figueiredo

“Aos poucos a vida vai voltando a um certo ‘normal’”. É o que considera Elisangela Fabris Toninelli, que mora em Parque Jacaraípe, na Serra (ES). O distanciamento social devido à pandemia da doença causada pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2), a Covid-19, acabou afetando a rotina dela e da maior parte da população brasileira. Um dos principais efeitos foi o sedentarismo, que nunca aparece sozinho e trouxe consigo o aumento do peso e da descompensação de doenças crônicas, como o diabetes.

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Depois de meses sem fazer atividade física, Elisangela foi tomando coragem e começou a caminhar. Há cerca de um mês já voltou a fazer o treinamento funcional. Tudo isso para retomar os cuidados com a saúde e perder os quilos adquiridos durante a pandemia.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre os dias 24 de abril e 24 de maio de 2020, constatou um impacto muito grande na frequência de exercícios físicos. Dos que responderam ao questionário, 62% não estão fazendo nenhuma atividade.

Além disso, a opção por alimentos saudáveis tem sido menos frequente. Segundo a pesquisa, a parcela da população que consome verduras e legumes em cinco dias ou mais por semana caiu de 37% para 33%.

Para piorar, o percentual de brasileiros que consomem alimentos considerados não saudáveis em dois dias ou mais por semana aumentou, passando de 41,3% a 47,1% no caso de chocolates, biscoitos, doces e pedaços de torta; de 10% para 14,6% quando considerados os pratos congelados, como pizza e lasanha; e de 9,5% a 13,2% nos salgadinhos de pacote.

O resultado não poderia ser outro. “A descompensação dos pacientes foi claríssima”, enfatizou a endocrinologista Queulla Garret Ramos Santos. Segundo ela, é fácil perceber que a perda de massa muscular e a queda do metabolismo são frutos do aumento do sedentarismo.

A médica observou que os pacientes interromperam a frequência de atividade física porque as academias fecharam, além do medo de retornar aos espaços após a reabertura. “Eles ficaram muito ansiosos e começaram a comer mais, principalmente carboidratos e doces,
que dão sensação de bem-estar”.

 

Quilinhos a mais

Foram nove meses e sete quilos. Essa foi a conta do isolamento social na vida de Elisangela Toninelli, 44 anos. Antes da pandemia, ela vinha mantendo uma rotina de exercícios funcionais três vezes por semana, além de fazer caminhadas e acompanhamento com endocrinologista, e comemorava a perda de 10 quilos.

Esses cuidados foram tomados após descobrir que estava pré-diabética e também incluíram uma dieta acompanhada por especialista. “Parei o acompanhamento com o endocrinologista e todas as atividades físicas. Tive crise de ansiedade e comecei a ganhar peso”, relata.

O distanciamento social também afetou a vida do engenheiro de produção Eduardo Nunes, 28 anos, morador da Mata da Praia, Vitória (ES). Ele gosta de praticar exercícios ao ar livre e, geralmente, preferia correr na praia e nadar. Em relação à alimentação, estava sempre buscando algo saudável para comer.

 

Desde março do ano passado, ele ficou muito mais sedentário. “A diferença mais brusca foi logo no início, quando eu fiquei quase um mês inteiro sem sair de casa para absolutamente nada, nem mesmo ia ao mercado. Além disso, a ansiedade acabou dando muita vontade de comer coisas diferentes e calóricas quase todos os dias, o que consequentemente acarretou num aumento de peso bem significativo”, constatou Eduardo.

Mais tempo em casa significa menor gasto de energia a cada dia. É o que destaca a nutricionista Camila Gomes ao explicar o motivo do ganho de peso que muita gente percebeu. “As pessoas começaram também a comer mais, aumentando a ingestão calórica diária e, assim, a conta não fecha”.

A escolha dos alimentos é condicionada pela questão emocional, segundo ela, e o aumento da ansiedade pode acarretar a “busca por alimentos mais palatáveis, que tem elevado teor de açúcar, sal, gordura e calorias”. Um dos exemplos de consumo em excesso é o do chocolate ao leite, que tem elevado teor de açúcar.

 

A nutricionista Ana Luísa Tonelli considera que os alimentos ultraprocessados, industrializados em geral e refinados são os maiores inimigos da balança por conterem muitos aditivos químicos e açúcares embutidos. “O prejuízo causado pelo excesso do consumo desses alimentos vai muito além do ganho de peso. Aumenta o risco de diabetes, obesidade e hipertensão arterial”, alerta.

“São alimentos mais atrativos e de fácil acesso e tanta facilidade acaba por aumentar seu consumo, o que nos preocupa bastante por serem alimentos menos saudáveis e que muitas vezes também expõe a população a riscos como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e a uma redução da imunidade”, complementa Camila.

Ficar parado não dá

Mesmo antes da pandemia, o brasileiro já não estava se movimentando na quantidade adequada. Em novembro passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou, por meio da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) referente ao ano de 2019, que 40,3% da população com 18 anos ou mais de idade foi classificada como insuficientemente ativa. Isso significa que não houve prática nenhuma de atividade física ou o tempo de prática semanal não superou os 150 minutos quando somados lazer, trabalho e deslocamento para o trabalho.

 

A endocrinologista Queulla Garret chama a atenção das pessoas com peso normal, ou daquelas que não engordaram muito durante o distanciamento social, para a urgência de se evitar o sedentarismo. Segundo a médica, a atividade física é essencial para uma série de questões e não somente para controlar a aparência do corpo.

O ganho de massa muscular é muito importante, principalmente para quem está acima dos 40 anos. “Depois que alcançamos a faixa dos 60 anos, aumenta o risco de sarcopenia, a ausência de massa magra, que traz uma fraqueza muscular muito grande e dificulta a realização de atividades habituais dentro de casa”. A musculação também seria importante,
no caso dos idosos, para o ganho de massa óssea, se apresentando como uma maneira de prevenir e controlar a osteoporose.

Para o personal trainer Willian Licério, a inatividade é preocupante de forma geral e em qualquer idade. Um dos fatores que ele destaca é a quantidade de tempo que passamos sentados no trabalho, além de citar também a maneira como nos locomovemos no dia a dia. “Caminhar ou andar de bicicleta estão ficando de lado.

 

Não basta compensar isso somente com uma reeducação alimentar porque os exercícios são fundamentais, incluindo os de força. Várias pesquisas já mostraram que é importante ter um nível de massa muscular considerável, o que inclusive reduz a mortalidade”, explicou ele, evidenciando o papel da massa muscular magra, que é basicamente “a amarra do seu arcabouço”, na manutenção da estrutura do nosso esqueleto. “Podemos dizer que uma pessoa com músculos fortes é uma pessoa mais saudável”.

E não são apenas os mais velhos que deveriam se preocupar. A doutora Queulla relembra que a atividade física, em qualquer idade, traz uma eficiência cardiopulmonar para a prevenção de doenças cardiovasculares. Os exercícios também são fundamentais, independente do peso, para ganho de resistência e de massa óssea.

Correndo atrás do prejuízo

Depois de meses saindo à rua apenas para fazer o necessário, a dona de casa Elisangela Toninelli vem retomando algumas atividades. Ela conta que tentou fazer exercícios em casa e caminhar ao redor do quarteirão, mas nada funcionou por muito tempo. Todo o momento de incertezas pelo qual passamos a fez absorver muitas notícias negativas que causaram insônia, desânimo e aumento da ansiedade, chegando a precisar ser tratada com ansiolítico. Como já mencionado, faz pouco tempo que ela voltou a ter uma vida mais ativa.

 

Já o engenheiro Eduardo Nunes prefere esperar a vacinação. Segundo ele, o plano era voltar a se exercitar no começo de 2021, mas considera uma melhor opção ser imunizado antes. “A diferença mais brusca foi logo no início do isolamento, quando fiquei quase um mês inteiro sem sair de casa para absolutamente nada, nem uma ida ao mercado. Além disso, a ansiedade acabou dando muita vontade de comer coisas diferentes e calóricas quase todos os dias, o que consequentemente acarretou num aumento de peso bem significativo”, revelou. Agora, ele afirma sentir falta de acordar mais cedo e correr na praia pela manhã, o que dá mais disposição para seguir o dia.

Todo mundo que ficou muito tempo preso em casa deveria retomar as atividades físicas, segundo Willian Licério, porque isso auxilia na diminuição do estresse, no aumento da massa muscular magra e na redução do cortisol (hormônio que, quando produzido em excesso, provoca aumento do peso, pressão alta, diabetes e osteoporose). Também é necessário sempre procurar um profissional especialista para orientar a prática de exercícios.

 

“Quando as academias fecharam, no início da pandemia, ofereci para meus clientes o serviço de acompanhamento on-line de treino e deu muito certo. Alguns ainda continuam fazendo dessa forma, mesmo com a reabertura”, comentou o personal trainer.

A volta aos hábitos saudáveis passa também pela reeducação alimentar. A nutricionista Ana Luísa Tonelli afirma que é ideal saber reconhecer os sinais de fome e saciedade do nosso organismo, sempre “optar, preferencialmente, por uma alimentação mais natural possível, com base em comida de verdade” – como carnes, ovos, verduras, legumes, frutas, oleaginosas, cereais, queijos – e evitar os industrializados.

A mudança de hábitos é muito importante e precisa de acompanhamento profissional. É o que alerta a nutricionista Camila Gomes. “Faça melhores escolhas alimentares, retome a prática regular de exercícios e cuide da qualidade do seu sono! Esses são pilares fundamentais para uma vida com mais saúde”, finaliza.

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