Em entrevista à ES Brasil, a médica especialista em Medicina do Sono, Jéssica Polese, detalha o funcionamento do lemborexante, que tem mecanismo diferente dos hipnóticos tradicionais
Por Thamiris Guidoni
Aprovado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o lemborexante, vendido sob o nome comercial Dayvigo, pela farmacêutica japonesa Eisai, deve chegar em breve ao Brasil como uma nova alternativa no tratamento da insônia. O medicamento se destaca por um mecanismo de ação diferente dos hipnóticos tradicionais e por estudos que apontam menor risco de dependência.
Em entrevista à ES Brasil, a médica especialista em Medicina do Sono, Jéssica Polese, explica que a principal mudança está na forma de atuação do fármaco no sistema nervoso central.
“Enquanto os outros já usados no Brasil provocam uma ação de sono, o lemborexante bloqueia a engrenagem que mantém a pessoa acordada. Além disso, espera-se que ele gere menos quadros de dependência. Até o momento, o que sabemos do lemborexante é que esse risco é baixo, então é uma classe bem promissora”, afirma.
Segundo a especialista, o medicamento representa uma abordagem diferente no manejo da insônia, ao atuar diretamente no sistema responsável pela manutenção da vigília.
“Ele impede a ação do ‘combustível’ que mantém o cérebro na posição de vigília”, explica.
Como o lemborexante atua e quando pode ser usado
- Atua bloqueando sinais de vigília no cérebro, ao contrário dos indutores tradicionais de sono
- Indicado apenas para uso adulto
- Deve ser tomado apenas quando há garantia de pelo menos 7 horas de sono
- Pode causar sonolência residual se usado fora das recomendações
- Dose inicial geralmente de 5 mg, podendo chegar a 10 mg com orientação médica
Apesar do potencial, o uso deve ser criterioso. A médica reforça que o tratamento da insônia não começa com medicamentos.
“Indicamos inicialmente a higiene do sono, com ajustes como prática de atividade física, redução de telas e cafeína à noite, além de evitar álcool e tabagismo. Também utilizamos a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), considerada padrão-ouro”, diz.
Estudo
Mesmo assim, o uso de medicamentos para dormir é expressivo no país. Dados da Associação Brasileira do Sono (ABS) indicam que duas em cada três pessoas apresentam dificuldades relacionadas ao sono, enquanto cerca de 15% têm diagnóstico de insônia crônica. Um estudo da Revista de Saúde Pública aponta ainda que 8,5% da população brasileira, cerca de 18 milhões de pessoas, faz uso de medicamentos para dormir.
A médica reforça que a prescrição deve ser restrita a casos específicos.
“Indicamos o tratamento medicamentoso para pacientes com menos de seis horas de sono por noite, com prejuízo funcional e que não respondem às terapias convencionais. O ideal é sempre usar a menor dose eficaz, pelo menor tempo possível”, conclui.
De acordo com a Eisai, ainda não há data definida para o lançamento nem preço oficial do medicamento no Brasil. Nos Estados Unidos, o custo médio é de cerca de US$ 300 por caixa com 30 comprimidos.

