Projetos como o Blitz Social, iniciativas da Fundaes e a destinação do IR mostram caminhos para ampliar recursos e garantir sustentabilidade às Ongs capixabas
Por Thamiris Guidoni
O Terceiro Setor capixaba vem se consolidando como uma das forças mais relevantes para a transformação social no Espírito Santo. Com inovação, Ongs, fundações e associações atuam em áreas estratégicas — como educação, cultura, assistência social e geração de renda —, mas ainda enfrentam desafios significativos para captar recursos e manter a sustentabilidade de seus projetos.
Nesse contexto, iniciativas que combinam capacitação, regularização e acesso a novas fontes de financiamento têm ganhado espaço. É o caso do Blitz Social, da Ativo Consultoria, que iniciou sua segunda temporada oferecendo consultoria técnica gratuita para Ongs regularizadas. A ação auxilia gestores na correta elaboração e apresentação de projetos, aumentando as chances de aprovação em editais e negociações com financiadores.
De acordo com levantamento recente, 61% dos projetos que tentaram captar recursos junto a empresas não tiveram sucesso. Para a idealizadora do Blitz Social, a empresária Ana Cláudia Simões, isso acontece porque muitas organizações ainda carecem de ferramentas de gestão.
“Durante a elaboração dos projetos, percebemos falhas recorrentes, como a ausência de dados sobre o problema que pretendem resolver, falta de indicadores para avaliação de resultados e abordagens pouco estratégicas para apresentar o projeto a potenciais financiadores”, explicou.
A visão da Fundaes
Se, por um lado, a falta de estrutura ainda é um entrave, por outro, fóruns permanentes e programas inovadores têm surgido como alternativas para superar esses obstáculos. O presidente executivo da Federação das Fundações e Associações do Espírito Santo (Fundaes), Robson Melo, lembra que a federação atua em parceria com órgãos públicos e entidades para fortalecer a governança e a captação de recursos no estado.
Entre as iniciativas, destaca-se o Projeto VIVA, realizado em parceria com o Tribunal de Contas do Espírito Santo (TCE-ES), Receita Federal, Amunes, Ministério Público, Tribunal de Justiça, Defensoria Pública e entidades empresariais. O objetivo é ampliar a destinação do Imposto de Renda para projetos locais, que hoje representam apenas R$ 4,86 milhões de um potencial de R$ 246 milhões.
“É muito pouco o que conseguimos manter aqui. Precisamos trabalhar na estruturação de conselhos que não estão organizados em muitos municípios e capacitar gestores e servidores para garantir a correta aplicação e fiscalização dos recursos”, afirmou Melo.
Fundo de Investimento Comunitário
Outro destaque da Fundaes é o Fundo de Investimento Comunitário Capixaba (FIC), que financia projetos sociais muitas vezes invisíveis aos editais tradicionais. Os resultados já aparecem em diferentes regiões do estado:
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No Morro do Quadro, em Vitória, o projeto Cuidando Delas promove a valorização de mulheres da comunidade;
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Em Anchieta, a Cozinha Abrace viabilizou a montagem de uma cozinha industrial para geração de renda;
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Em Vila Velha, o Arte da Amamentação transformou a realidade de jovens mães em Terra Vermelha;
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No bairro São Benedito, em Vitória, o Banco Bem criou uma moeda comunitária para estimular a economia local.
Esses exemplos mostram como pequenos aportes podem gerar grandes transformações sociais, impactando diretamente comunidades vulneráveis.
Caminhos para o futuro
Apesar dos avanços, Robson Melo alerta que ainda há barreiras estruturais e burocráticas a vencer.
“Os editais tradicionais são complexos e pouco acessíveis a instituições menores. É preciso investir em capacitação, simplificar processos e criar instrumentos como a chancela prévia, que aumentaria a confiança de empresas e cidadãos na destinação de recursos para projetos sociais”, destacou.
Ele também chama atenção para a necessidade de inovação no setor.
“As instituições já têm tecnologias sociais poderosas, sabem onde estão os mais vulneráveis e conhecem a cultura local. O que precisamos é de apoio para apresentar melhor esses projetos, com comunicação eficiente, indicadores de impacto e diálogo com investidores que queiram apostar em transformação social.”
Investimento social como cidadania corporativa
Para o presidente da Fundaes, o fortalecimento do Terceiro Setor deve ser visto não apenas como ação filantrópica, mas como estratégia de cidadania corporativa.
“Investidores, mais que doadores, fazem aposta na transformação comunitária e têm dividendos sociais extraordinários. É algo que beneficia não só a população atendida, mas também o próprio desenvolvimento humano e a consolidação da responsabilidade social das empresas”, concluiu.
Com iniciativas como o Blitz Social, o Projeto VIVA e o FIC, o Espírito Santo mostra que o caminho para um Terceiro Setor mais sustentável passa pela profissionalização, pela inovação e pelo engajamento coletivo de sociedade, governos e empresas.

