Entrevista: Roberto Smith

O economista Roberto Smith colhe os bons resultados de sua gestão de quase sete anos na presidência do Banco do Nordeste (BNB), o 349º entre os 500 mais valiosos do planeta, segundo o respeitado ranking da Brand Finance, consultoria especializada em avaliação e gestão de marcas, em parceria com a revista inglesa The Banker e com a agência de classificação de risco Austin Rating.

A administração de Smith garantiu a solidez e promoveu a expansão geográfica e da carteira de serviços da instituição, permitindo, por exemplo, que ela encerasse 2009 com um crescimento notável de 50%. O banco, que também tem sido importante para o desenvolvimento capixaba, com investimentos em vários setores, acaba de anunciar a abertura de três novas agências no Estado, injetando recursos e novas linhas de crédito na economia estadual.

Roberto Smith esteve no Espírito Santo este mês, cumprindo uma extensa agenda que incluiu, no dia 22, as comemorações do Dia da Agricultura Familiar, em Nova Venécia – onde festejou também o 5º aniversário do Crediamigo anunciando investimentos de R$ 1,3 bilhão no Plano Safra – e a inauguração da agência de Linhares; e uma entrevista coletiva no Palácio Anchieta, no dia 23, em Vitória, ao lado do governador Paulo Hartung. Aliás, foi logo após um encontro reservado que teve com PH ainda no aeroporto de Linhares, na véspera, que o presidente do BNB conversou, com exclusividade, com os jornalistas da ES Brasil. Na pauta, o crescimento da economia, os números do banco e as expectativas quanto ao mercado capixaba. Tudo isso temperado com um pouco de política nacional. Confira a seguir.

O BNB subiu surpreendentes 104 posições no ranking mundial de bancos mais valiosos de 2009 para 2010, segundo o “Global 500 Banking Brands Index”. A que o senhor atribui tamanho sucesso?
O nosso crescimento está enquadrado dentro do que está acontecendo no Brasil. Houve uma mudança na formulação da política econômica, que deu ênfase para a expansão do mercado interno, num processo de inclusão social jamais visto. É verdade que tivemos boa influência das condições do mercado externo. Ocorre que quando este entrou na crise, a partir dos problemas com os EUA, o mercado interno deu uma resposta e tivemos minorados os problemas, que superamos com galhardia. E o BNB foi um dos coadjuvantes para se ter uma operação denominada pelos economistas como anticíclica, ou seja, de expansão de crédito num momento em que houve retração por parte dos bancos privados. O BNB apresentou excelentes resultados em 2009. Foram quase R$ 21 bilhões emprestados, a uma taxa de lucro por funcionário quase no mesmo patamar daquela alcançada pelo Banco do Brasil. Faço esta comparação por funcionário porque o BNB é muito menor e isso mostra a proporcionalidade do nosso trabalho, com intensidade igual à do Banco do Brasil.

O BNB atua em áreas reconhecidamente de desenvolvimento tardio e em muitas regiões de baixo IDH. O senhor acredita que o Brasil finalmente está descobrindo a força do Nordeste?
Eu acho que o Brasil ainda não descobriu o Nordeste inteiramente. Temos dito que a região é uma fronteira de expansão da economia brasileira e que houve uma nítida recuperação da capacidade aquisitiva, que ainda assim é muito baixa em relação ao Brasil. A nossa renda per capita é pouco mais do que a metade da renda média per capita brasileira. Quero dizer que há muito por crescer. Sempre que se faz uma política de melhoria de distribuição de renda, que tem um impacto mais forte no Nordeste, face ao retardamento em que se encontra, a resposta vem com maior intensidade. O banco é um bom barômetro disso, haja vista a demanda por investimentos em supermercados, shoppings centers e grandes estruturas, que mostram a recuperação, o ganho de capacidade e de gasto, da economia das famílias nordestinas – um mercado afluente.

A presença da instituição no Espírito Santo tem se fortalecido, particularmente nos últimos dois ou três anos. A que se deve isso?
O banco vem crescendo bastante no Espírito Santo e já havia uma demanda forte de algumas pessoas que conversavam conosco. Entramos numa fase de expansão do número de agências. Aprovamos em reunião de diretoria, no dia 15 de junho, a criação de mais três agências no ES: em São Mateus, Nova Venécia e Vitória. Passamos então de duas (Linhares e Colatina) para cinco agências. Com isto, deveremos mais do que dobrar nossas aplicações, atendendo a uma reivindicação de algum tempo e que a gente entendia que era justa. O banco está se expandindo e teremos um total de 25 agências nesta primeira leva. Tivemos agora (dia 22 de junho) uma conversa demorada com o governador Paulo Hartung, que nos deu um quadro estruturado de como o comportamento econômico do ES tem se mostrado dentro de uma linha de crescimento excelente. Atuamos na área da Sudene de maneira intensa e há uma perspectiva de praticamente dobrar a nossa participação. A projeção é chegar a R$ 200 milhões em aplicações. Estamos acompanhando este processo e suprindo de crédito, que é uma das dimensões importantes para trazer o desenvolvimento, no sentido de que esta expansão venha ao encontro do processo por que passa o Brasil.

O BNB nasceu como um banco de fomento, voltado principalmente para o desenvolvimento do setor primário. Hoje, observa-se que seu portifólio cresceu e se diversificou. Essa expansão decorre de uma imposição de mercado?
O banco historicamente tem-se voltado para o setor rural. Somos hoje o segundo banco brasileiro, depois do Banco do Brasil, em tamanho de carteira e empréstimos para a área rural – e olha que nós operamos somente no Nordeste, que tem apenas 62% de área envolvida no semi-árido e há baixa pluviosidade. Mas essas estatísticas vêm mostrando modificações importantes. Acreditamos que a infraestrutura é a base que permite que outros setores produtivos possam crescer. O setor industrial tem crescido com vigor, assim como o setor comercial. Hoje estamos com linhas de financiamento estratégicas, definidas pela diretoria, de grande crescimento e massificação do atendimento da micro e pequena empresa e do microcrocrédito, no qual já somos detentores da maior posição no Brasil – seja no rural, com o Agroamigo, ou no urbano, com o Crediamigo – e estamos avançando dentro destas possibilidades.

Com relação à agricultura, o BNB tem estimulado fortemente os negócios, particularmente os pequenos produtores, o que é ótimo para o Espírito Santo. Após tanto tempo de vivência nesse setor, quais são os maiores gargalos que o BNB identifica no caminho dos pequenos produtores capixabas?
Hoje o nosso maior gargalo é a falta de recursos de longo prazo. Não que faltem recursos no banco em si, pelo contrário; a instituição tem até uma boa liquidez, que permite avançar nas operações de curto prazo. Mas há uma certa utilização do nosso principal ‘funding’, que é o nosso Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), que é adequado em termos de taxa de juros e prazo de financiamentos, mas que praticamente está se esgotando. No ano passado aplicamos cerca de R$ 9,2 bilhões, quando recebemos do Tesouro apenas R$ 3,5 bilhões. E este ano vamos repetir a dose, o que tem feito com que eu me dirigisse ao presidente da República e buscado junto ao Ministério da Fazenda mais recursos. Para fechar o ano eu preciso de mais R$ 10 bilhões para operações de longo prazo, para podermos atender à intensa demanda de crédito que temos recebido. Não vai faltar recurso para a micro e pequena empresa, não vão faltar recursos para o Pronaf, para o Agroamigo, para o Crediamigo. Precisamos de mais recursos para financiamento de obras do PAC e de infraestrutura em geral e para alguns grandes projetos de natureza industrial.

A atividade agropecuária é uma das que mais degrada o ambiente. Por outro lado, também muito se fala das crescentes necessidades de abastecimento da população. O BNB aplicará entre este e o próximo ano R$ 1,3 bilhão no Plano Safra. Como agente de fomento, como se posiciona quanto ao tema?
É uma questão importante, à qual nós prestamos muita atenção. A questão que nos preocupa, sensivelmente, é a intensa disseminação de agrotóxicos, que estão sendo mal utilizados e comprometendo o meio ambiente e, sobretudo, a saúde dos agricultores e da população. O BNB vem desenvolvendo uma intensa atividade junto com outras entidades e o Ministério do Meio Ambiente, zelando por uma agricultura que seja responsável e sustentável dentro de uma visão de longo prazo. Somos grandes apoiadores dos recursos energéticos, de energia limpa e renovável, e o primeiro que saiu na defesa da energia eólica. Estamos trabalhando com outras fontes de energia, que apostamos que terão um lugar na nossa matriz energética, como a energia solar, a fotovoltaica e a recente experiência de energia das ondas do mar. Estamos estruturando agora uma defesa do bioma caatinga, criando o Plano Caatinga de controle e sustentabilidade. Essa preocupação encontra-se na linha de frente do banco, que tem até programas específicos como FME Verde – voltado para investimento em reflorestamento e disseminação e recuperação de áreas e biomas.

Também é notório que o BNB tem-se aproximado muito da indústria, pelo menos no Espírito Santo, financiando projetos importantes, e do comércio exterior. Qual a estratégia por trás dessas opções?
Sim, estamos trabalhando agora com o setor moveleiro e com o setor da fruticultura e existem alguns grandes investimentos que estão sendo propostos aqui pelo BNB. Temos no Estado uma relação muito positiva com o Bandes e o Banestes, parceiros importantes, de forma que há um dinamismo natural que estamos trabalhando e apoiando. Há também financiamentos para o comércio exterior, sim. O banco tem crescido bastante dentro deste segmento e isto foi preponderante na fase da crise, durante a qual outros recursos não estavam disponíveis e o Banco do Nordeste veio atender e salvou vários setores que estavam se retraindo, com o da fruticultura de exportação.

E os investimentos culturais?
O banco tem dado muito valor, na minha gestão, a todo o processo cultural. Nossa presença com recursos na área de incentivo e desenvolvimento da cultura tem sido fundamental. Estamos apoiando isto também no ES, pois entendemos que a cultura é a alma do desenvolvimento. Não pensamos em desenvolvimento apenas do ponto de vista do crescimento, mas também nos valores herdados que nos projetam dentro da história de futuro e na nossa forma de entender a sociedade. Estamos com projetos em pequenas cidades e em todo o Nordeste, norte do ES e de Minas Gerais. A pretensão é de abrir 60 desses pontos de culturais de negócios em pequenas cidades.

Estamos em um ano eleitoral. Qual sua visão sobre o futuro político do Brasil?
Sou uma pessoa otimista. Na nossa história, ainda não conseguimos formular uma tradição democrática muito forte, haja visto os seguidos anos de ditadura pelos quais passamos e que travaram muita coisa. O processo democrático vem se firmando de 88 para cá. Acho que o fortalecimento das instituições que dão a garantia de continuidade de uma vontade popular é muito importante. Há meses, numa entrevista ao jornal Valor Econômico, o presidente Lula disse que seja quem for que ganhe a eleição, as instituições estão fortes e não mudarão. Acredito que o BNB vai se consolidar, pois hoje é um banco saneado e fortalecido internamente pelo seu corpo de funcionários. Temos um exercício democrático na qual nada é colocado goela abaixo, mas nos guiamos por um planejamento estratégico discutido por todos.

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