Hoje, é impossível pensar em “cinema brasileiro” (no singular) quando o próprio Brasil, por sua extensão e diversidade, se mostra tão plural
Por Fabio Camarneiro
Durante o século XX, poucas formas estéticas foram tão importantes para o imaginário popular como o cinema. Antes da internet e das redes sociais, era a sétima arte que ditava modas e estilos, retratava o espírito do tempo e suas contradições.
Em um país latino-americano e de tamanho continental como o Brasil, o cinema ajudou a forjar uma identidade nacional baseada em imagens prontas e clichês: uma tensão entre, de um lado, as grandes cidades do Sudeste (e suas contradições) e, de outro, as vastidões naturais e regiões vistas como arcaicas (ainda que repletas de culturas e saberes tradicionais). Em outras palavras, salvo honrosas exceções, a maior parte do chamado cinema brasileiro nunca se preocupou com o tamanho e a diversidade do país, concentrando a maior parte de seus talentos e recursos no chamado eixo Rio-São Paulo.
Felizmente, este modelo entrou em crise. Com o relativo barateamento do acesso a equipamentos de gravação e filmagem, novos e diferentes olhares e escutas começaram a surgir, especialmente durante as últimas duas décadas. Muito do que estava escondido, tornou-se visível. Histórias que nunca ultrapassaram suas localidades puderam alcançar outras plateias. Diferentes rostos e sotaques, diferentes cores de pele e gêneros, diferentes orientações sexuais, tudo isso passou a ser mostrado.
Hoje, cada lugar do Brasil que tiver uma câmera e um microfone, ainda que em um aparelho celular, pode ver o surgimento do cinema. Como ficou claro no cinema realizado por indígenas, quando os próprios povos originários pegaram nos equipamentos para mostrar sua cultura, suas lutas, seus modos de vida. Para ensinar aos não-indígenas coisas que precisávamos aprender sobre as florestas, o espaço natural e o risco da catástrofe climática.
Hoje, é impossível pensar em “cinema brasileiro” (no singular) quando o próprio Brasil, por sua extensão e diversidade, se mostra tão plural. Na verdade, sempre existiram várias realidades em nosso território, local desde sempre marcado pela desigualdade profunda e pelas contradições agudas. Uma situação que tentamos, nem sempre com sucesso, encaixar na ideia abstrata de “país”.
Quando comemoramos o Dia do Cinema Brasileiro, comemoramos esta diversidade e, também, a luta para que estes tantos olhares possam encontrar caminhos rumo às telas (pequenas e grandes, nas salas de cinema, nos streamings e nos celulares), ajudando assim cada uma e cada um de nós a perceber melhor nosso entorno e a celebrar a diversidade de realizadoras e realizadores presentes neste território.
Viva a pluralidade e a diversidade. Viva os cinemas brasileiros!
Fabio Camarneiro é doutor em Meios e Processos Audiovisuais, mestre em Comunicação Impressa e Audiovisual, professor no curso de Cinema e Audiovisual da UFES e coordenador do projeto Imagens do Futuro

