Prazo eleitoral obriga gestores a decidir entre mandato e candidatura, altera comandos nas prefeituras e reorganiza alianças para a disputa de 2026
Por Denise Miranda
À medida que as eleições gerais de 2026 se aproximam, o Espírito Santo entra em um momento decisivo do calendário político: o prazo legal para desincompatibilização e renúncia de cargos públicos por agentes que pretendem disputar novos mandatos. Nos bastidores, a data é conhecida como o “Dia D”, por marcar não apenas o início formal das pré-candidaturas, mas uma profunda reorganização do poder político no Estado.
Segundo o cientista político André Pereira Cesar, o prazo funciona como um divisor de águas no jogo político. “O Dia D é um filtro institucional. Ele separa quem opta por continuar no exercício do poder administrativo de quem decide assumir o risco eleitoral. A partir daí, o tabuleiro começa a se rearrumar”, analisa.
A legislação eleitoral estabelece regras distintas conforme o cargo ocupado. Secretários de Estado que desejam concorrer a deputado estadual ou federal precisam se afastar definitivamente até seis meses antes do pleito, marcado para 4 de outubro de 2026. Já outros agentes públicos podem apenas se licenciar temporariamente. Embora técnica, essa diferença tem impactos diretos na gestão e na correlação de forças políticas.

Para concorrer, os candidatos precisam seguir as regras e os prazos da Lei de Inelegibilidade. Um dos pontos centrais é a desincompatibilização, quando o candidato se afasta de cargos públicos para poder disputar eleições. Secretários de Estado que pretendem concorrer a deputado estadual ou federal devem deixar suas funções até seis meses antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
No Espírito Santo, ao menos 13 secretários da gestão do governador Renato Casagrande (PSB) são cotados para disputar cadeiras na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados. Eles representam metade do primeiro escalão do governo, composto por 25 secretários e pelo procurador-geral do Estado.
Nomes postos na disputa eleitoral
Bruno Lamas (PSB) – Secretário de Ciência e Tecnologia – Pré-candidato a deputado estadual
Cyntia Grillo (Podemos) – Secretária de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social – Pré-candidata a deputada estadual
Emanuela Pedroso (PSB) – Secretária de Governo – Pré-candidata a deputada federal
Enio Bergoli (sem partido) – Secretário de Agricultura – Cotado para deputado federal
Fabrício Noronha (sem partido) – Secretário de Cultura – Cotado para deputado estadual ou federal
Felipe Rigoni (União) – Secretário de Meio Ambiente – Pré-candidato a deputado federal
Guerino Balestrassi (MDB) – Secretário da Recuperação do Rio Doce – Pré-candidato a deputado estadual
Jacqueline Moraes (PSB) – Secretária das Mulheres – Pré-candidata a deputada estadual
José Carlos Nunes (PT) – Secretário de Esportes – Pré-candidato a deputado estadual
Rafael Pacheco (Sem partido) – Secretário de Justiça – Cotado para deputado federal
Tyago Hoffmann (PSB) – Secretário de Saúde – Pré-candidato a deputado federal
Victor Coelho (PSB) – Secretário de Turismo – Pré-candidato a deputado estadual
Vitor de Ângelo (PSB) – Secretário de Educação – Pré-candidato a deputado federal
Para André Pereira Cesar, esse movimento tende a produzir efeitos ambíguos. “Há sempre o risco de perda de ritmo administrativo, mas, politicamente, a saída de secretários pode fortalecer a base aliada, ao abrir espaço para novos nomes e ampliar a capilaridade eleitoral do governo”, avalia.

Na Grande Vitória, o “Dia D” também concentra atenções sobre prefeitos de municípios estratégicos. A eventual renúncia de chefes do Executivo municipal cria uma espécie de fila de espera entre vices, que podem assumir o comando das cidades em um momento decisivo do ciclo político.
Para o cientista político, essa dinâmica não é neutra. “Quando o vice assume próximo ao período eleitoral, ele ganha visibilidade institucional, capacidade de articulação e controle da agenda pública. Isso pode tanto estimular a renovação quanto reforçar a continuidade dos mesmos grupos no poder, dependendo do contexto local”, afirma.
Cenário no Executivo estadual
No cenário estadual, o vice-governador Ricardo Ferraço também é observado. Caso decida disputar o Governo do Estado, precisará renunciar ao cargo, provocando ajustes na estrutura do Executivo e exigindo recomposição política da base aliada.
Enquanto isso, prefeitos em primeiro mandato ou recém-reeleitos tendem a permanecer no cargo até 2028, priorizando obras, programas e estabilidade administrativa. Parlamentares que não disputarão novas eleições em 2026 atuam como articuladores políticos e influenciam a formação das chapas. Um exemplo é o prefeito da Serra, Weverson Meireles (PDT), que concentra esforços na articulação partidária e no apoio a aliados.
Para André Pereira Cesar, o “Dia D” vai muito além do cumprimento de um prazo legal. “Esse é o momento em que lideranças são redefinidas, alianças são testadas e o poder começa a ser redistribuído. O impacto dessas decisões vai muito além das urnas de 2026 e influencia diretamente a governança nos próximos anos”, conclui.

