Segundo pesquisas, iniciar no esporte – sem participar das provas – tem um custo inicial de até R$ 600
Por Thamiris Guidoni
Tênis de R$ 2 mil, óculos com lente colorida “baixa-pace”, meia compressora importada, gel energético de sabores exóticos… Quem frequenta provas de corrida de rua nos últimos anos já deve ter percebido: o cenário mudou. O que era para ser um dos esportes mais democráticos e acessíveis está, cada vez mais, ganhando ares elitizados — e ficando bem mais caro.
De acordo com levantamento do Nubank, os custos mensais para quem deseja seguir correndo com regularidade vão depender dos objetivos de cada pessoa. Quem busca apenas melhorar o rendimento no esporte, dentro da própria rotina, pode investir em consultas com nutricionista e na orientação de um educador físico, o que já representa um gasto médio de R$ 185 a R$ 300 por mês.
Os dados são semelhantes aos do levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), apresentado no 3º Summit ABRACEO/CBAt, em que a maioria das pessoas que começam na corrida de rua investem de R$ 560 a R$ 600, entre tênis e cuidados médicos. Para manter o ritmo, corredores podem gastar R$ 185 a R$ 300 por mês com treinos, alimentação e equipamentos.
Já para quem almeja participar de grandes provas em outras cidades — ou mesmo correr maratonas e desafios de longa distância —, os custos aumentam significativamente. É preciso considerar passagens, hospedagem, alimentação, inscrição nas provas e, claro, um preparo físico adequado, o que inclui acompanhamento de profissionais da saúde e da área esportiva. Afinal, enfrentar os 42 quilômetros de uma maratona exige muito do corpo e da mente.
No Espírito Santo, são pelo menos 25 provas nas ruas agendadas até o fim do ano. Com base nos valores de inscrições oferecidos na Tickets Sports (maior plataforma de corridas do país), o ticket médio das inscrições das corridas para adultos no estado, nos valores base para público em geral, é de R$ 157,50 (sem as taxas de serviço). Há provas com inscrições a R$ 50 e outras partindo de R$ 265 – tudo vai depender do tipo de prova e percurso.
Esses valores servem como porta de entrada, embora muitos corredores acabem investindo ainda em acessórios ou treinamentos com o tempo. Neste ponto, a corrida virou mais do que uma prática esportiva. Virou um lifestyle e um “negócio” caro.
“As grandes marcas enxergaram o potencial desse mercado, que mexe com milhões de pessoas no Brasil e no mundo, e passaram a investir pesado. Só que, com isso, o que era para ser acessível ficou caro demais. Hoje, as pessoas acham que precisam ter o tênis caro e de última geração, o óculos ‘baixa-pace’, a roupa certa, vários suplementos… e esquecem do principal: do treino de verdade. E isso tudo vira um desfile de moda. Sem contar os preços das inscrições das corridas que estão cada vez mais altos”, pontua a personal trainer e idealizadora do programa Eu Sou Dessas que Correm, Alê Junqueira.
Corrida de rua movimenta 1 bilhão no Brasil
No 3º Summit ABRACEO/CBAt, realizado em São Paulo, foram apresentados dados que indicam um crescimento anual agressivo no setor.
O mercado de corridas de rua deve crescer 26% em 2025, movimentando pela primeira vez um volume estimado de R$ 1 bilhão em eventos, patrocínios e serviços relacionados. As informações são da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO).
Em 2023 foram registradas 2.186 provas no Brasil, que saltaram para 2.827 em 2024. Já para 2025, estão previstos 2.437 eventos, mesmo com projeções de crescimento no número geral de corridas. Esse aumento também reflete a profissionalização do mercado, com maior foco em segurança, infraestrutura e formalização das provas.
Segundo levantamento, a maioria das pessoas que começam na corrida de rua investem de R$ 560 a R$ 600, entre tênis e cuidados médicos. Para manter o ritmo, corredores podem gastar R$ 185 a R$ 300 por mês com treinos, alimentação e equipamentos.
Por outro lado, o setor cresce em ritmo acelerado: mais eventos, maior participação e movimentando bilhões de reais, o que também encarece a prática — com inscrições, assessorias e kits tornando-se cada vez mais gourmetizados.
Esses números mostram como um esporte que já foi símbolo de acessibilidade acabou se tornando um negócio robusto e, em muitos casos, caro. Enquanto o mercado esportivo se molda cada vez mais ao consumo, há quem prefira reforçar o básico: corrida é liberdade! É colocar o tênis, sair na rua e dar o seu melhor — com ou sem GPS de última geração. O importante é que ninguém fique de fora por não ter o “look certo”.
Segundo Ale, a inversão de valores preocupa. “Essa inversão de valores me preocupa porque as pessoas gastam demais com tudo isso, mas deveriam investir dinheiro é num treino de corrida, numa assessoria, em um programa de treinamento que dê segurança, que oriente a prática da corrida de forma correta e, assim, faça as pessoas evoluírem e reduza o risco de lesões. Mas infelizmente não é o que acontece. Elas gastam com todos os ‘apetrechos’, mas querem treinar sozinhas, e não evoluem como gostariam, se machucam com frequência e fica aquela conversa de que ‘corrida machuca’, ‘corrida lesiona’.”
Corrida para mulheres

Na contramão desse movimento de elitização, surgem também iniciativas que buscam resgatar o caráter acessível da corrida — além da autoestima feminina. É o caso do projeto Eu Sou Dessas que Correm, idealizado por Alê Junqueira, personal trainer, atleta e empreendedora da área do esporte.
“A corrida está ficando excludente. Então lancei o Eu Sou Dessas que Correm por R$ 29,90 por mês! É para ser acessível MESMO! Para caber no bolso de todas as mulheres. Com o programa, você começa a correr do zero, com acompanhamento, planilhas em áudio e apoio emocional”, conta, com entusiasmo.
A proposta da Alê vai além da mensalidade. O programa tem foco em acolhimento, orientação técnica e inclusão, com treinos acessíveis, linguagem simples e apoio constante — uma forma de fazer com que a corrida volte a ser o que sempre foi: um esporte para todos os corpos, bolsos e ritmos. São mais de 1.500 alunas espalhadas pelo Brasil.

