As cinco camadas da Cidade Inteligente

O grande problema é que estão vendendo soluções tecnológicas como se cada uma, em si, fosse cidade inteligente.

A Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, fundada no ano de 2013, mas composta de gestores, especialistas e pesquisadores que trabalham no tema desde 2010, acumulou nestes últimos nove anos uma experiência extraordinária em políticas públicas para cidades inteligentes e hoje sabemos exatamente onde estão seus gargalos e suas soluções.

Desenvolvemos, para ajudar os Municípios, uma plataforma de gestão para a implantação de cidades inteligentes, coordenada por Antonio Fernando Doria Porto, e estamos, assim, prontos para ajudar as cidades nesse caminhar, bem como para ajudar o governo brasileiro a elaborar um Plano Nacional de Cidades Inteligentes.

Outrossim, como resultado dos estudos que particularmente venho fazendo, também desde 2010, apresento, abaixo, uma contribuição para o debate e que são o que denominei “As Cinco Camadas da Cidade Inteligente”, não sem antes fazer uma breve análise do cenário atual.

Uma cidade inteligente é muito mais do que uma cidade tecnológica, ou digital. A cidade inteligente trabalha todos os seus aspectos urbanos, ambientais, econômicos, de gestão, e principalmente sociais.

Não faz nenhum sentido construir uma cidade inteligente que apenas pense seus aspectos tecnológicos e que apenas remunere as empresas de soluções tecnológicas, se essas soluções não estiverem a serviço da sociedade, para seu correto desenvolvimento nos desafios que nos impõem esta nova era do século XXI.

Também não faz sentido não se levar em conta todos os demais aspectos da cidade, pois não haveria, dessa forma, inteligência na sua organização e essa se resumiria a um mero conjunto de tecnologias que apenas poderiam facilitar alguns aspectos da vida dos cidadãos.

É sabido que vivemos a Era do Conhecimento, e desde o final do século passado já se fala que o conhecimento é o grande capital do século XXI. O conhecimento se forma com dados e informações, e os dados e informações se encontram nas cidades, nas pessoas, e na sua interação.

Não é à toa que grandes organizações de TIC (Tecnologias de Informação e de Comunicações) vem há muito tempo disponibilizando tecnologias nas cidades, tecnologias essas que captam dados e informações das pessoas e que por sua vez são transformados em conhecimento, gerando grandes negócios para essas organizações que são, no final das contas, as únicas que detém a matéria prima desse conhecimento sobre o “modus vivendi” de cada um, de todos nós.

A sociedade brasileira está à deriva neste cenário, pois se vê diariamente diante de uma enxurrada de produtos que lhe são apresentados, focados em suas necessidades imediatas, parecendo muitas vezes uma mera coincidência, quando na verdade a inteligência artificial está usando as próprias informações das pessoas, para ter maior e melhor conhecimento sobre elas do que elas próprias tem de si.

O grande problema é que estão vendendo estas soluções tecnológicas como se cada uma, em si, fosse cidade inteligente. O desconhecimento faz com que as pessoas acreditem nisso, e para os desavisados, acaba parecendo ser muito bom implantar um sistema tecnológico qualquer e alardear que sua cidade já é inteligente.

Precisamos considerar que nossos governos tem menos informações sobre nossa sociedade do que as tem as grandes organizações. Em última instância, isso pode colocar em risco até nossa soberania nacional, pois esse conhecimento pode ser utilizado, inclusive, para interferir em decisões estratégicas da nação, causando problemas que podem se tornar irreversíveis.

Ter um Plano Nacional de Cidades Inteligentes, com programas que nos conduzam na construção de cidades, estados e País da forma correta, é vital para que o Brasil não cometa os mesmos erros do passado, quando – por absoluta falta de planejamento e estratégia – construiu políticas equivocadas que não se sustentavam ou não se integravam com as demais, atrasando por décadas nosso desenvolvimento.

Ficamos todos felizes com o anúncio de uma parceria entre os Ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Regional com a GIZ, da alemanha, uma empresa de cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável, embora sintamos falta da participação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Comunicações e Inovação, do Ministério da Economia, e da Frente Parlamentar Mista de Cidades Inteligentes e Humanas, que não devem ser apenas atores a serem consultados, mas sim protagonistas, juntamente com os outros dois ministérios.

O tema envolve o desenvolvimento urbano, o desenvolvimento sustentável, mas também o desenvolvimento científico e tecnológico, o desenvolvimento econômico, e obviamente necessitará de legislação específica para tratar os diversos assuntos que envolvem um tema horizontal como é o das Cidades Inteligentes.

As cinco camadas da cidades inteligente

Ao longo desses anos de estudos e pesquisas – e após chegar à conclusão de que para tratar de cidades inteligentes precisamos olhar todos os seus aspectos, de maneira integrada, e desenvolver planos mestres que contemplem as suas cinco camadas – decidi apresenta-las agora, com a esperança de que consigamos integrar os diversos setores e atores, para termos um excelente plano nacional. São elas:

A primeira camada, e a mais importante, são as pessoas. Para se fazer uma cidade inteligente, é preciso primeiramente entender como vive a população naquela localidade, como ela se organiza, quais são suas vocações, quais problemas enfrenta, e quais suas expectativas com o futuro. Para isso, existe uma metodologia chamada Laboratórios Vivos, por meio da qual se faz uma integração entre poder público, setor produtivo, entidades de classe, entidades sociais, e população em geral, criando as conexões necessárias para que haja um Plano Mestre de Cidade Inteligente que integre as demandas, criando sinergia e eficácia nos resultados. A Economia Criativa, um dos principais motores econômicos neste século XXI, precisa ser estimulada e apoiada, para gerar novos negócios e para melhorar o índice de felicidade da população.

A segunda camada é o subsolo da cidade. É fundamental que a cidade monte seu Plano Diretor de Subsolo, entendendo como ele funciona e por onde passam suas redes de água, esgoto, telefonia, energia, fibra ótica, etc. A construção de galerias técnicas, com tubulação sensorizada, é importante para que haja uma conexão com soluções tecnológicas que podem baratear os custos de manutenção do sistema do subsolo, além de oferecer avanços em serviços, tais como coleta de lixo inteligente, bueiros inteligentes, fornecimento de água quente e de ar condicionado pelo subsolo, podendo até mesmo serem criados centros distritais de distribuição de água quente e de ar condicionado, gerando enormes economias, bem como sustentabilidade ambiental.

A terceira camada é o solo. Nesta camada, devemos pensar todos os aspectos urbanos, como a reurbanização das cidades com conceitos como de “Live, Learn and Play” e o conceito 5/10/15. A cidade deve se organizar para ter em cada localidade moradia, trabalho, educação e diversão, de uma maneira que se evitem grandes deslocamentos, combinado com um plano urbanístico que consiga contemplar o conceito de que tudo o que as pessoas fazem diariamente esteja a no máximo 5 minutos a pé; tudo que fazem semanalmente esteja a no máximo 10 minutos a pé; e tudo o que fazem a cada 15 dias ou 1 mês esteja a no máximo 15 minutos a pé.

O estrangulamento de carros é necessário, para que as pessoas se estimulem a utilizar transportes coletivos. Implantar estacionamentos rotativos, para que se tornem públicas as vagas que normalmente estão privatizadas por aqueles que as ocupam por longos períodos do dia. Arrumar as calçadas, com acessibilidade, para que as pessoas possam andar a pé e com segurança. Privilegiar ciclovias compartilhadas entre modais como bicicletas, patinetes, skates, patins, etc. Alterar Plano Diretor da Cidade, obrigando que as novas construções sejam feitas com sistemas inteligentes, com captação de água da chuva, com reuso de água, com sistemas solares para aquecimento de água e para geração de energia fotovoltaica, dentre outras coisas. Enfim, pensar a cidade como um sistema integrado e sustentável.

A quarta camada é a infraestrutura tecnológica. Uma infraestrutura tecnológica adequada para uma cidade inteligente é composta de um parque de iluminação inteligente, uma rede de fibra ótica, e uma central de operações da cidade. O parque de iluminação inteligente permite fazer a tele-gestão da iluminação pública, com enorme economia de energia elétrica e permite, também, que haja a captação de uma infinidade de informações que, com transparência e segurança, possam servir a toda a sociedade. Pelo parque de iluminação também se pode levar WiFi, com internet, para toda a população e fazer a gestão de muitas soluções tecnológicas de cidade inteligente. A rede de fibra ótica é importante para que haja a transmissão e o compartilhamento de dados, levando esses dados até a central de operações, onde esses dados são cruzados e trabalhados para que haja inteligência na gestão pública, que deve ser eficiente e eficaz.

A quinta camada é a plataforma de IoT (Internet das Coisas), por meio da qual a inteligência artificial trabalha os dados, emitindo relatórios gerenciais para a gestão da cidade, bem como atua para a gestão de todo o complexo tecnológico da cidade, como o sistema semafórico inteligente, a segurança pública, a educação, a saúde, e etc.

Integração

Uma Cidade Inteligente trabalha as cinco camadas, não necessariamente uma após a outra, mas sim paralelamente e de forma integrada. Somente com um Plano Mestre de Cidade Inteligente a gestão pública pode acertar neste caminhar, evitando que as tecnologias invadam as cidades de maneira desorganizada e sem interoperabilidade.

Sem trabalhar as cinco camadas, a cidade poderá ser digital, ou sustentável, mas nunca inteligente. A Cidade Inteligente é, na verdade, a mãe das cidades digitais e sustentáveis.

Na tentativa de acertar os problemas que o desenvolvimento tecnológico vem causando, o Governo Federal foi criando programas como o Plano Nacional de IoT, programa de banda larga, internet para todos, pró cidades, e tantos outros, todos excelentes programas, mas para os quais falta uma interconexão e um planejamento integrado, a fim de que se tenha uma estratégia de país para um tema que é fundamental para o nosso desenvolvimento neste século XXI.

A iniciativa que ora se apresenta pode ser um marco na vida das cidades inteligentes no Brasil se operada com sabedoria e com vontade de fazer a coisa certa, sem pressa, defendendo-se os interesses da nação e não apenas de corporações.

Nós elaboramos uma estratégia, coordenada por nosso vice presidente Carlos Venicius Frees, chamada NASCI (Núcleo de Apoio para a Sustentabilidade da Cidade Inteligente), ambientes a serem implantados nas cidades e que sirvam como escritório central de planejamento da cidade inteligente, com gente especializada no tema e com laboratórios para testes e capacitação de novas tecnologias que possam ser vendidas na cidade e para o poder público.

Expertise da Rede

A Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas tem em seus quadros os principais especialistas brasileiros no tema e, agora, dará início a um novo ciclo, pós estudos e pesquisas, e que será o ciclo da implantação das cidades inteligentes e humanas.

Esperamos poder contribuir com o País e com nossos governantes nessa jornada que não é de curto prazo e que – se houver a compreensão por parte de nossos políticos de que o caminho precisa ser iniciado, mesmo que o resultado final seja realizado por outro, lá na frente – levará o Brasil a participar de um mercado anual de US$ 1,3 trilhão, criando um novo ambiente de negócios, conectados com o século XXI, e tornando pujante a nossa economia.


André Gomyde é presidente da Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas, mestre em “Business Administration” pela FCU, nos E.U.A., membro do CCT da Presidência da República, conferencista internacional e colunista das revistas eletrônicas ES Brasil e Blog da Ema.

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