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sexta-feira, 3 dezembro, 2021

Câncer de mama: prevenção é o melhor caminho

Diagnóstico precoce aumenta as chances de tratamento da doença, que tem atingido mulheres cada vez mais jovens

Uma doença silenciosa, que chega na maioria das vezes sem ser notada, tem abalado a vida, a saúde e a autoestima de mais de 50 mil mulheres todos os anos, somente no Brasil. Mesmo com os avanços nas técnicas utilizadas durante o tratamento, a cura para o câncer de mama ainda tem se fundamentado em uma questão simples, mas muito relevante: a prevenção. Descobrir a doença cedo ainda é o mais relevante fator de recuperação para quem possui câncer de mama.

Segundo tipo mais frequente no mundo, o câncer de mama é o mais comum entre as mulheres. Os casos em homens representam apenas cerca de 2% dos registros. Relativamente raro antes dos 35 anos, acima desta faixa etária sua incidência cresce rápida e progressivamente. Estatísticas indicam aumento de sua incidência tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, as taxas de mortalidade por câncer de mama no Brasil ainda continuam elevadas, muito provavelmente porque a doença ainda é diagnosticada em estágios avançados.

Mas de onde vem essa doença e como podemos identificar os seus sinais? O oncologista Fernando Zamprogno explica que os cânceres, de maneira geral, partem de mutações das células de nosso organismo, e na maioria das vezes ainda não é possível descobrir por que essas mutações acontecem.

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“Hoje existem muitos estudos que ainda buscam comprovar os motivos pelos quais uma população cada vez mais jovem está adoecendo de câncer” – Fernando Zamprogno, oncologista

“Todos nós sofremos mutações todos os dias da nossa vida, mas temos um mecanismo interno do organismo para reconhecer e eliminar a mutação, corrigindo-a. A maioria das mutações vai dar origem a células inviáveis, que morrerão. Em um grupo muito pequeno de indivíduos, isso não acontece. Baseado nesse mecanismo, aproximadamente 0,5% da população do mundo vai ter câncer. Hoje existem muitos estudos que ainda buscam comprovar os motivos pelos quais uma população cada vez mais jovem está adoecendo de câncer”, destaca.

No caso do câncer de mama, especificamente, a maioria dos registros da doença tem origem multifatorial, como afirma o médico. “Apenas em torno de, no máximo, 20% dos casos são genéticos, ou seja, de alguém que traz casos de histórias familiares da doença. Existem alguns fatores de risco, mas para desenvolver câncer de mama a pessoa não tem, necessariamente, que registrar esses fatores. Contudo, quando olhamos a população como um todo, percebemos que o fato de uma mulher não engravidar, amamentar pouco e ter poucos filhos pode servir de fator de risco para o desenvolvimento do câncer da mama”, diz.

“A mama só amadurece depois da gravidez, então se a mulher não engravida, sua mama nunca vai amadurecer. E isso pode ser um fator de risco.

Além disso, mulheres que são submetidas aos próprios ciclos hormonais durante muito tempo também costumam ser mais susceptíveis à doença, como por exemplo, quem tem a primeira menstruação muito jovem e menopausa muito tarde, então ficam um período da vida muito longo menstruando. Há outras questões sendo estudadas, mas por enquanto nenhuma ainda foi confirmada”, complementa Zamprogno. Por isso, enquanto a ciência não confirma o que causa o câncer de mama, a prevenção continua sendo muito importante.

Diagnóstico

Quando exames como mamografia e preventivo de colo de útero fazem parte da rotina de uma mulher, fica muito mais fácil, com a ajuda do “olhar” profissional, identificar a ocorrência de qualquer irregularidade, pois o câncer de mama é uma doença assintomática.
O acompanhamento da saúde das mamas deve começar cedo.

“Desde o momento em que começa a menstruação e que um ginecologista passa a acompanhá-la, a mulher já deve se preocupar com a saúde das mamas. Principalmente se ela tem histórico da doença na família. De acordo com cada caso, o médico vai poder pesar o risco dessa paciente. Para a mamografia, o ideal é fazer após os 40 anos de idade, pois é nesse período que a quantidade de gordura na mama começa a cair, o que faz com que o exame possa ser mais nítido”, afirma o oncologista.

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“Nunca coloquei a doença em primeiro lugar na minha vida, pois a doença não gosta de alegria. A pessoa que descobre que tem câncer não pode se deixar abater” – Anna Cláudia Nascimento, cozinheira

O acompanhamento rotineiro das mamas com um mastologista não fazia parte da rotina da cozinheira Anna Cláudia Nascimento, que descobriu o câncer de mama aos 42 anos de idade. Ao perceber uma modificação no bico do seu seio direito, ela procurou sua ginecologista para saber do que se tratava. Até então, a cozinheira nunca havia feito a mamografia.

“Eu não tinha histórico da doença na família e no acompanhamento rotineiro minha ginecologista nunca havia detectado nada de anormal. Até que, em 2010, quando percebi essa alteração no bico do peito, ela pediu que eu fizesse a mamografia. O exame identificou um caroço, localizado bem internamente no seio, que não podia ser percebido com o apalpar das mamas”, lembra Anna.

Tratamento

O tratamento para o câncer de mama varia de acordo com o risco envolvido para a paciente, segundo o oncologista Fernando Zamprogno. “Hoje, há quimioterapias mais brandas e mais fortes. O câncer de mama é subdividido em pelo menos cinco categorias genéticas bem definidas, e de acordo com essa categoria a paciente terá um determinado tratamento. É possível curar o câncer e isso depende fundamentalmente de se chegar cedo à doença, sobretudo tumores abaixo de 2 cm, sem gânglios ou linfonodos acometidos pela doença (ou seja, axila negativa), o que aumenta em muito a chance de cura”, destaca.

Além da quimioterapia, o médico conta que tratamento também compreende hormonoterapia, radioterapia, cirurgia e terapia alvo, de acordo com a necessidade de cada paciente.

Durante o tratamento da doença, Anna Cláudia Nascimento submeteu-se a sessões de quimioterapia e radioterapia, e também fez uma cirurgia para retirar o tumor. Na época, ela enfrentou todo o processo de maneira positiva, o que acredita ter sido fundamental para sua recuperação, assim como o apoio da família.

“Dois oncologistas me acompanharam durante o tratamento. Desde o momento em que descobri o câncer de mama, eles me explicaram todas as fases e dificuldades por que eu iria passar. Eles me diziam que eu tinha grandes chances de recuperação, e se eu fizesse tudo certinho, como eles me orientavam, tudo daria certo. Escutei muito os meus médicos e tive muita fé”, recorda-se
a cozinheira.

A psicóloga Lidiane Santana conta que não só o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, como também uma mudança de atitude da paciente são fundamentais no processo de recuperação.

“Durante o acompanhamento psicológico, é necessário possibilitar à paciente a certeza de que ela tem recursos pessoais para lidar com a doença, começando a reverter sua postura passiva em relação aos fatos da vida atual. Aprendendo a lidar com o estresse físico e psicológico que o contexto de luta contra o câncer de mama pode proporcionar e tomando consciência de sua maneira de operar, a mulher pode, então, buscar métodos mais eficazes para enfrentar as situações da vida, ao invés de desistir. É essencial que a pessoa experimente uma mudança na percepção de si mesma, de forma a se sentir mais segura e estimulada para lidar com os problemas do cotidiano, expectativas e desejo de vida”, orienta.

Anna lembra que, durante o tratamento, procurou dar mais importância aos momentos felizes, buscando sempre não se abater. “Nunca coloquei a doença em primeiro lugar na minha vida, pois a doença não gosta de alegria. A pessoa que descobre que tem câncer não pode se deixar abater. Eu ouvia muitos hinos evangélicos e assistia a vários filmes de comédia, principalmente nos períodos em que eu tinha que ficar sozinha em casa, durante a tarde”, aconselha, com a própria experiência.

A cozinheira também teve atitudes positivas em relação a duas questões ligadas à doença que normalmente preocupam muito as mulheres: a queda nos cabelos e a extração da mama. “Eu tinha um cabelo longo e cacheado, e quando ele começou a cair por causa do câncer, a cabelereira fez uma peruca com os fios. Usei-a somente uma vez, porque vi que não precisava daquilo para me sentir melhor. Da mesma forma, com a reconstrução da minha mama. Implantei a prótese somente três anos depois do tratamento, principalmente por um pedido do meu filho mais novo, que ainda é criança e gosta muito de ir à praia. Eu não podia acompanhá-lo antes da reconstrução e isso o deixava muito chateado”, explica.

De acordo com a psicóloga Lidiane Santana, lidar com as mudanças no corpo como retirada das mamas e queda de cabelo durante o tratamento da doença podem demonstrar a fragilidade e mexer com a autoestima feminina, já que normalmente as mulheres são muito vaidosas. Por isso, é essencial o apoio.

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“Aprendendo a lidar com o estresse físico e psicológico que o contexto de luta contra o câncer de mama pode proporcionar e tomando consciência de sua maneira de operar, a mulher pode, então, buscar métodos mais eficazes para enfrentar as situações da vida, ao invés de desistir” – Lidiane Santana, psicóloga

“No câncer de mama encontram-se presentes angústias ligadas à feminilidade, maternidade e sexualidade, já que o seio é um órgão repleto de simbolismo para a mulher. Para a recuperação da autoestima é necessário que, além do acompanhamento com equipe multiprofissional, a mulher receba a ajuda de seus familiares e principalmente o apoio de seu companheiro, que através do diálogo pode ajudá-la a se sentir mais segura. Com o apoio de todos a mulher pode reassumir suas funções sociais, profissionais e sexuais, mostrando a ela que mesmo com a cirurgia ela não perdeu o seu lar, filhos, marido e trabalho”, reitera a psicóloga.

Além de algumas restrições, como a perda de parte da sensibilidade do braço direito, passar pela doença fez Anna Cláudia, que é mãe de três filhos, enxergar a vida de um modo diferente. Ela hoje valoriza a vida e aconselha que as pessoas pensem como ela. Para isso, prestar mais atenção à saúde é essencial, conta.

“Se tivesse feito um acompanhamento da saúde das minhas mamas antes, teria descoberto a doença mais cedo, e o tratamento seria muito mais simples”, lembra. “Depois que descobri o câncer, minhas amigas passaram a se prevenir mais, pois também não tinham noção de quão fácil a doença pode se desenvolver, sem que a gente espere. Acredito que, se as pessoas conhecessem mais e estivessem melhores informadas, descobririam o câncer de mama mais cedo, aumentando as chances de cura. Por isso, campanhas como o Outubro Rosa são importantes”, acredita Anna Cláudia.

Aproveite o momento de conscientização criado pela campanha Outubro Rosa para começar a cuidar mais da saúde das suas mamas. Se você tem 40 anos, inclua a mamografia em sua rotina. Você verá que a prevenção pode fazer a diferença na sua vida, pois não só ajuda a diagnosticar doenças graves muito mais cedo, como também pode trazer muito mais saúde para o seu dia a dia.

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista SAMP, em 2013 e atualizada em 2021. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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