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quarta-feira, 17 abril, 2024

Caça às bruxas

Exterminá-las pode dizimar um país inteiro

Por Fernando Carreiro

Os julgamentos das bruxas de Salém remontam a uma série de audiências e processos de pessoas acusadas na cidade costeira de Salém, da Massachusetts colonial, no século 17. A Nova Inglaterra havia sido colonizada por dissidentes religiosos que buscavam construir uma sociedade baseada na Bíblia de acordo com sua própria disciplina escolhida. O episódio é um dos casos mais notórios de histeria em massa na América Colonial. Qualquer semelhança com os tempos políticos que vivemos é mera apropriação temporal.

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No ambiente político, a “caça às bruxas” é um eufemismo para a perseguição política sistemática de um governo ou de um partido a seus adversários, uma conexão com o tempo em que pessoas eram acossadas com pretexto de terem feito pacto com
forças demoníacas.

O Brasil saiu no encalço de seus demônios. Ora travestidos de vermelho, ora de verde e amarelo. As cores são meramente ilustrações destes tempos apocalípticos. De nada importa que fé professam as bruxas contemporâneas; basta que elas tenham alguma crença, para que sejam condenadas à fogueira e ao linchamento público de suas reputações. Se vagueiam por vielas e bairros retirados ou se assombram os centros do poder, não interessa muito; elas devem ser exterminadas e oferecidas à execração de seus algozes, cobertos pelo manto de uma santidade duvidosa tanto quanto autoritária. 

No terreno das redes sociais, as bruxas não se criam. São perseguidas por anjos de candura que voam com asas de superioridade. Nenhum destes tem fantasmas; só as necromantes padecem desse mal. Ah… a santidade que visita cada um de nós, espantando os espectros e abantesmas. Somos mesmo um povo de fé. Uma insuspeição que não se sustenta diante de aparições: queremos logo expurgá-las de perto de nós, numa doce ilusão do mundo fanático de que há bruxas mais más, de quando escolhemos as menos nocivas para nos aliar.

Demonizaram a política. Faz tempo. Seu primeiro evento ocorreu em 2013. Nossa Salém tem data e GPS: ocupa todo o território de praças, agora esvaziadas, do Brasil. Migraram para a internet.

Aqui, temos homens e mulheres muito valentes; cavaleiros e amazonas sedentos em busca de novos troféus humanos que se assemelhem ao diabo. O demônio, esse ser que quer nos sufocar, invadiu a propaganda eleitoral. Já era! Estamos vivendo o inferno. E não há uma só voz celestial que possa nos acudir. Mas também não a desejamos, é verdade. Sair à caça é mais divertido.
A campanha eleitoral terminou, e a política continua a existir. Sob qual aspecto, não se sabe. Talvez nosso fértil imaginário fabrique outras bruxas, duendes, fadas malvadas ou Shreks.

O repertório é extenso, na mesma medida em que é limitado demais. A literatura importante se coloca em escanteio enquanto discutimos temas superficiais demais para mudar a pobre Salém, conturbada politicamente como a de séculos atrás.

As bruxas de Salém de Massachusetts eram confessas e, portanto, reais. As de hoje, também, em um universo forjado para que elas se criassem. E estão aí à solta, vagueando pela cidade projetada, pelas praças, pelos escaninhos do poder e dentro de cada um de nós. Exterminá-las pode dizimar um país inteiro.

Fernando Carreiro é jornalista e consultor de comunicação especializado em imagem, reputação e gerenciamento de crises.

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