Com investimentos privados, inovação e grandes obras, os portos ampliam escala e reposicionam o Espírito Santo no cenário nacional
Por Gustavo Costa
A combinação de investimentos e projetos estratégicos, que possibilitam novos negócios, potencializa a importância do Espírito Santo no setor portuário. Localizado próximo aos grandes centros de consumo do país, o estado tem se transformado em um dos hubs logísticos brasileiros, ponto de chegada e partida de mercadorias como aço, combustíveis, fertilizantes, café, rochas e incontáveis produtos.
A movimentação de cargas nos portos capixabas, de janeiro a setembro de 2025, somou mais de 97,7 milhões de t, aumento de 7,7% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram 90,7 milhões de t, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
Seguindo o ritmo, o ano deve fechar com crescimento, mesmo com o vaivém do tarifaço imposto pelo governo dos EUA que impactou o comércio exterior – em agosto, a entrada de diversos produtos brasileiros teve taxação de 50%, mas em novembro a cobrança foi retirada de uma longa lista de produtos.
O panorama do setor portuário capixaba este ano, que contribuiu para o resultado, passa por aportes em inovação e modernização. Também avançaram as obras de expansão e novos terminais.
Na ponta do crescimento está o Terminal de Tubarão, em Vitória, administrado pela mineradora Vale. Considerando os nove primeiros meses de cada ano, a área portuária foi de 58,3 milhões de t, em 2024, para 62,3 milhões de t em 2025. A carga mais transportada nos portos do estado no período foi justamente o minério de ferro, com 68,2 milhões de t, seguido por carvão mineral (6,7 milhões de t) e ferro e aço (5,8 milhões de t). Os dados são da Antaq.

Recorde em fertilizantes
Também no bojo do bom desempenho, a Vports, primeira autoridade portuária privada do país – administradora dos portos de Vitória, Vila Velha e Barra do Riacho – celebrou, já no 10º mês do ano, um recorde de importações no acumulado. De janeiro a outubro, 4,3 milhões de toneladas chegaram ao Brasil pelo complexo portuário de Vitória, superando o número final de 2024, com 4 milhões de toneladas.
A empresa anunciou investimentos da ordem de R$ 580 milhões para modernização e ampliação da capacidade de calado e eficiência operacional. A meta é expandir a movimentação no Porto de Vitória em 80% até 2029.

O diretor-presidente da Vports, Gustavo Serrão, destacou outro recorde no que se refere à movimentação de cargas nos terminais da administradora. O volume de fertilizantes – uma das cargas mais importantes dos portos, segundo o executivo, e de grande importância também para o setor agrícola nacional – cresceu 13% de janeiro a setembro de 2025 em relação ao mesmo período de 2024 e apresentou o recorde histórico do para este período.
“No mês de outubro, recebemos o navio com o maior volume de fertilizantes da história, fruto de melhorias de infraestrutura realizadas, neste ano, tais como: obras de dragagem e aumento do peso bruto de navios que podem acessar o porto. Foi realizada a descarga de 50 mil toneladas de ureia no Cais de Capuaba, em Vila Velha”, explicou.
De acordo com Serrão, os volumes recordes consolidam o Espírito Santo como um importante elo na cadeia de fertilizantes do país, recebendo a carga que tem como destino final o próprio estado e outros importantes polos do agronegócio brasileiro, como Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

Mais destaques no complexo de Vitória
Entre janeiro e outubro deste ano, outras cargas também registraram forte avanço nos portos administrados pela Vports. A importação de coque e carvão bateu recorde para o período, com alta de 115% sobre o ano anterior. O trigo cresceu 82%, enquanto os combustíveis tiveram aumento de 12%.
De acordo com Serrão, em 2025 a Vports seguiu acelerando e investindo para capacitar seus portos e gerar valor, com foco em garantir eficiência, viabilizar novos negócios e mostrar ao Brasil o potencial logístico do estado.
“Chegamos ao fim do ano com 16 novos contratos. Um deles, recém-assinado, foi com a Comexport – reconhecida como a maior empresa do Estado –, em uma parceria que ampliará ainda mais a capacidade do Porto de Vila Velha em receber veículos, máquinas e equipamentos pelo Espírito Santo”, disse.
Inovação no sul do estado
As inovações tecnológicas também ganharam espaço este ano. Um avanço importante foi instalado no Terminal Marítimo de Ponta Ubu, em Anchieta, sul do estado, administrado pela Samarco – no terminal, a principal mercadoria é o minério de ferro. Trata-se da implementação do sistema Berth Alert.
O mecanismo se baseia na análise de dados meteoceanográficos – ramo da ciência que estuda os fluxos na atmosfera e sua interação com o oceano – coletados por estações de monitoramento localizadas em diferentes pontos da costa e informações locais do próprio porto.
As informações alimentam um modelo preditivo capaz de estimar, com até 60 horas de antecedência, as tensões nos cabos e no sistema de amarração como um todo.
Por lá, também houve avanço na utilização de drones e programas específicos para a eficiência nos controles de estoque nos pátios de armazenamento, programas baseados em inteligência artificial para monitorar a eficiência dos controles relativos ao recinto alfandegado, tais como acesso de pessoas e veículos, e movimentações de cargas.
A Samarco também aprimorou seu sistema de vetting, em que avalia o risco ambiental, operacional, humano, regulatório e judicial de cada navio proposto para operação em Ubu.
As novidades tecnológicas contribuem para a retomada gradual da empresa, iniciada no fim de 2020. Com capacidade instalada de até 33 milhões de toneladas e operando com 60% de sua capacidade produtiva, a Samarco estima encerrar o ano de 2025 com a produção de 15 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério, segundo o gerente do Porto de Ubu, Fernando Artilha.
“De janeiro a setembro deste ano, produzimos 11,2 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério, com 95 navios embarcados. No acumulado, desde o início da retomada até setembro, a produção chegou a 46,6 milhões de toneladas de pelotas e finos de minério, com 455 navios embarcados”, disse ele.
Construção de quebra-mar
Em Presidente Kennnedy, também no sul do estado, outro destaque é o Porto Central, um complexo industrial-portuário privado de águas profundas que está em construção. Com investimento total estimado em até R$ 16 bilhões ao longo de cinco fases, o porto terá capacidade para receber navios de grande porte (como Valemax e VLCC), o que atualmente é uma limitação na infraestrutura portuária brasileira. Em 2025, as obras avançaram na fase 1, sobretudo na preparação de uma pedreira para a construção do quebra-mar e na instalação de estruturas. A retirada das pedras iniciou-se em setembro.

A TPK Logística é a responsável pelo projeto, com participação da Companhia do Porto de Roterdã, da Holanda. O porto foi projetado para ser um dos mais profundos e modernos do Brasil, com profundidade de até 25 metros e 54 berços.
Com um modelo multiuso, conta com uma área de dois mil hectares e prevê terminais para movimentação de granéis líquidos, granéis sólidos, contêineres e cargas gerais, além de apoio offshore. A previsão é que as operações comecem no final de 2027, embora a conclusão total do projeto seja em 2040.
Obras avançadas no norte
Enquanto isso, as obras do Imetame Logística Porto, em Aracruz, norte do estado, também aceleraram este ano e estão aquecidas, com a operação prevista para começar na segunda metade de 2026. O empreendimento é um Complexo de Terminais Privados onde a empresa fará a operação do terminal de carga geral – já os demais, de grãos, contêineres e líquidos, seguem em negociação. A meta do terminal é se consolidar como hub estratégico para receber os maiores navios do mundo e conectar o Brasil, o Mercosul e especialmente as rotas da Ásia.
O consultor portuário José Ernesto Conti pontuou que o avanço das obras é um dos destaques do ano no setor. “O Porto da Imetame transformará a região Norte do Estado em um importante polo na área portuária tanto para exportação, importação e com certeza para a área de cabotagem em nosso Estado e para nosso país”, afirmou.
A dragagem para atingir a profundidade de projeto já foi iniciada, e a construção do cais avança com estacas cravadas. A Imetame já iniciou negociação com empresas para a operação de terminais de contêineres, grãos e líquidos, enquanto a empresa cuidará da carga geral. Há interesse de setores como siderurgia, mineração e petróleo.
A primeira fase do projeto inclui a conclusão do cais, a finalização do quebra-mar leste e a preparação do pátio de armazenagem. O terminal começou a ser construído em 2021 a um custo de R$ 2,7 bilhões. A expectativa é que, já no primeiro ano de atividade, o porto movimente 80 mil contêineres e 500 mil toneladas de carga geral.
O início da operação contará com estrutura de cais com dois berços e capacidade de movimentar até 300 mil contêineres. O terminal terá profundidade de 17 metros e poderá receber navios de longo curso, com calado de até 16,5 metros, permitindo a operação de embarcações de grande porte que hoje ainda não operam no país.
Desafios
Os portos capixabas projetam um crescimento contínuo, mas mesmo um setor tão promissor enfrenta seus entraves. Serrão, da Vports, lembra que o grande desafio de 2025 foram as restrições impostas pelo tarifaço dos Estados Unidos, que impactou principalmente a exportação nos setores como rochas naturais e café.
“Mas seguimos firmes, apostando naquilo que podemos fazer para nos diferenciar: oferecer qualidade, produtividade e infraestrutura para bem atender os clientes que já temos e atrair novos investimentos”, destacou.
Entretanto, há desafios estruturais que continuam, especialmente a necessidade de fortalecer a integração entre infraestrutura, inovação e sustentabilidade, conectando portos, rodovias e centros produtivos de forma eficiente e responsável.
“A competitividade do Espírito Santo depende da nossa capacidade de integrar e otimizar os elos da cadeia logística, garantindo crescimento econômico com responsabilidade ambiental e social”, disse Artilha.
Ainda há gargalos nas leis portuárias com entraves e limitações que acabam aumentando os custos operacionais, segundo Conti, consultor portuário. “O Brasil está inserido em um mercado onde nossos produtos precisam competir em condições de igualdade com produtos de outros mercados. Um exemplo dessa competição é a área de granito. O Espírito Santo atualmente é responsável por suprir quase 40% do mercado americano de chapas, porém já fomos responsáveis por quase 70% do mercado americano. Nossos custos portuários tornaram nossos produtos menos competitivos”, frisou.

Arquivo original: J:PiwigoHD MarioPiwigoPIWIGOSUBIU – 230124_ Espírito SantoVitóriaVitoriaDSC_8095.JPG
120 anos do Porto de Vitória
Se o ano de 2025 foi considerado positivo, o de 2026 vai chegando com muitas expectativas. Para a Vports será tempo de celebração, já que marcará os 120 anos do Complexo Portuário de Vitória.
“Os esforços estarão voltados para fortalecer nossos portos. A nossa localização privilegiada e a multimodalidade são diferenciais que estarão em destaque, visando impulsionar novos negócios, dentro de um projeto sólido, de crescimento e desenvolvimento compartilhado”, explicou Serrão.
No ano que vem, obras de ampliação de capacidade para estocagem de granéis líquidos da Vports estarão a todo vapor. “Se considerarmos os projetos contratados até 2027, temos mais de R$ 1 bilhão em investimentos em melhorias de infraestrutura e modernização em nossos portos, capitaneados pela Vports e parceiros estratégicos”, enfatizou o diretor-presidente da Vports.
O futuro para o setor portuário capixaba como um todo é promissor, segundo Conti, e o Espírito Santo está em condição privilegiada. “A maioria de nossos investimentos estão sendo bancados por empresas privadas, como é o caso da Imetame e do Porto Central (em Presidente Kennedy). Porém todos os demais portos possuem em maior e menor grau, investimentos privados, sejam em melhorias e/ou modernização, que poderão transformar o estado em uma potência portuária nos próximos anos”, disse ele.
O consultor destacou ainda que o apoio governamental é um fator decisivo e motivador para que grupos com interesses mundiais na área de navegação e portuário continuem olhando para o Espírito Santo como um local propício para novos investimentos.
Construção de quebra-mar em Porto Central
Em Presidente Kennnedy, sul do estado, o destaque é o Porto Central, um complexo industrial-portuário privado de águas profundas que está em construção. Com investimento total estimado em até R$ 16 bilhões ao longo de cinco fases, o Porto terá capacidade para receber navios de grande porte (como Valemax e VLCC), o que atualmente é uma limitação na infraestrutura portuária brasileira. Em 2025, as obras avançaram na fase 1, sobretudo na preparação de uma pedreira para a construção do quebra-mar e na instalação de estruturas. A retirada das pedras iniciou em setembro.
A TPK Logística é a responsável pelo projeto, com participação da Companhia do Porto de Roterdã, da Holanda. O porto foi projetado para ser um dos mais profundos e modernos do Brasil, com profundidade de até 25 metros e 54 berços.
Com um modelo multiuso, conta com uma área de 2 mil hectares e prevê terminais para movimentação de granéis líquidos, granéis sólidos, contêineres e cargas gerais, além de apoio offshore. A previsão é que as operações comecem no final de 2027, embora a conclusão total do projeto seja 2040.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 231 – Retrospectiva 2025. Leia a edição completa aqui.

