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quarta-feira, 24 abril, 2024

As sequelas do Covid-19

Mais da metade dos pacientes atingidos pela doença sofrem com sequelas e perda de qualidade de vida

Por Luciene Araujo

Há quase 3 anos, o mundo sofre com as tensões do coronavírus. Embora passada a fase mais grave da pandemia, hoje ainda vivemos sob bastante instabilidade, tanto em consequência de um pico epidêmico que começa a surgir, quanto com as muitas sequelas deixadas pela doença.

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“A ameaça de um novo pico endêmico não pode ser descartada aqui no Brasil, onde já são observados casos em maior número em alguns estados como, por exemplo, no Amazonas”, aponta coordenadora de dois estudos da Fiocruz, os monitoramentos em Covid longa e Immunita de resposta vacinal, Dra. Rafaella Fortini.

Fadiga, cansaço, fraqueza e mal-estar estão entre as sequelas mais comuns deixadas pela doença. Soma-se a esta lista, falta de ar, fibrose nos pulmões e/ou rins, perda de paladar e olfato e, mais recentemente, um registro significativo de doenças neurológicas.  

Cientistas do mundo todo desenvolvem estudos. Em março deste ano, o periódico The Lancet Respiratory Medicine publicou estudo realizado na China, com 1192 pessoas infectadas durante a primeira fase da pandemia, em 2020.  Metade dos pacientes ainda apresentavam pelo menos um sintoma.

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Os pacientes que tiveram Covid apresentaram uma incidência 33% maior, no caso dos adultos, e 30%, para as crianças – Foto: Adobe Stock

Ao longo do tempo houve melhoria na saúde física e mental, mas os recuperados da Covid-19 ainda tendem a ter saúde e qualidade de vida piores do que a população em geral. Mesmo após dois anos do adoecimento inicial, apresentavam sequelas como fadiga, falta de ar e dificuldades de sono, entre outras.  

À época, o professor Bin Cao, autor principal do estudo, destacou haver “uma necessidade clara de fornecer suporte contínuo a uma proporção significativa de pessoas que tiveram Covid-19 e entender como vacinas, tratamentos emergentes e variantes afetam os resultados de saúde em longo prazo”.  

Informações confirmadas

Em julho, estudo inédito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) corroborou os resultados observados na China e em outros países. A pesquisa, realizada em Minas Gerais, acompanhou por 14 meses, 646 pacientes entre 18 e 91 anos que tiveram a doença. Apenas 5 haviam sido vacinados. Desse número, 324 (50%) apresentaram sintomas após o fim da fase aguda da infecção.

No levantamento, foram contabilizados 23 sintomas. Fadiga foi a principal queixa. Sequela mais grave, a trombose foi desenvolvida por 20 pacientes. Entre aqueles que tiveram sequelas a longo prazo, havia casos de Covid-19 leves, moderados, graves e até assintomáticos.

O risco de desenvolver sequelas é 30 vezes maior em quem não tem o protocolo de cobertura vacinal completo” – Dra. Rafaella Fortini, pesquisadora da Fiocruz.

Em novembro, pesquisa realizada na Alemanha demonstrou que as sequelas pós-Covid ocorrem igualmente em adultos, crianças e adolescentes até três meses após a infecção e podem persistir por pelo menos oito meses. Liderado pelo pesquisador Martin Roessler, da Universidade Técnica de Dresden, o estudo teve como base os seis principais sistemas de planos de saúde alemães, que atendem 38 milhões de pessoas (52% da população). Foram selecionados 157 mil casos de Covid (11.500 em crianças e adolescentes e 145.184 em adultos) e compararam com cerca de 1,2 milhão de pessoas que nunca tiveram a doença.

Os pacientes que tiveram Covid apresentaram uma incidência 33% maior, no caso dos adultos, e 30%, para as crianças, de sintomas pós-Covid em relação àqueles não contaminados pelo vírus, sendo registrados 96 sintomas.

Sequelas neurológicas

O monitoramento da Fiocruz hoje envolve quase 3.000 pessoas e metade delas, que não estão com o protocolo vacinal completo, desenvolveu pelo menos uma sequela, sendo um elevado número com sequela neurológica. Uma ocorrência pouco relevante no início dos estudos.  

“Aquilo que a gente chama de brain fog (névoa mental), que é uma dificuldade de concentração, perda de memória e alguns diagnósticos associados a doenças neurológicas como depressão, ansiedade e insônia tem ocorrido de forma significativa”, destaca a Dra. Rafaella Fortini.

“Alterações da deglutição não tratadas adequadamente; podem acarretar desnutrição, desidratação, broncopneumonia e até levar à morte”, Luciana Castilho de Figueiredo, supervisora da fisioterapia da UTI do HC da Unicamp.

Ela aponta que existem duas situações observadas nos estudos. “A primeira é que pessoas que não tinham doença pré-existente passam a apresentar um novo quadro; e temos muitos outros casos, na verdade é a maioria deles, em que a pessoa passa a ter um segundo quadro evolutivo dentro de uma patologia neurológica já existente. Por exemplo, paciente que já tinha depressão e desenvolveu demência. Mas, ambas as situações ocorrem. É importante pontuar que essas sequelas não são restritas a quem já tinha uma comorbidade ou condição pré-existente, mas existe sim uma relação de agravamento com quem já tem alguma comorbidade, em especial doença cardíaca, renal, pulmonar, hipertensão arterial, diabetes, câncer e a condição de ser fumante”, detalha Fortini.   

Outro fator muito importante ressaltado pela pesquisadora é que a covid longa (que é justamente o desenvolvimento dessas sequelas) pode ocorrer em qualquer faixa etária e oriunda de pacientes que tiveram a doença Inicial nos graus leve, moderado, grave e até mesmo em casos assintomáticos.  “Nesse monitoramento específico, 51% das pessoas hoje diagnosticadas com covid longa vieram de infecções leves”.

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Metade das pessoas que apresentam sequelas não estão com o protocolo vacinal completo – Foto: Jefferson Peixoto/Secom

Vacina faz toda a diferença

Médicos alertam que apesar de não impedir a contração do Covid-19, a vacina evita gravidade e morte. Os imunizantes disponíveis são seguros e eficazes para conter a disseminação do novo coronavírus.

Epidemiologista e professora titular da Ufes, Ethel Maciel, afirma que existem mais de 100 sequelas que podem estar relacionadas à Covid longa, incluindo cardiológicas, neurológicas respiratórias, motoras, vasculares, renais e neurológicas. “Os estudos simulam inclusive que, em pessoas com fatores predisponentes para doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, essas patologias cheguem de forma mais precoce”, aponta a médica.  
 
Independentemente do tipo, “a vacinação tem se mostrado eficiente no combate tanto da ocorrência quanto da gravidade dessas sequelas. As pesquisas mostram que a dose de reforço protege melhor das sequelas da Covid longa. Daí a importância de manter a vacinação em dia”, garante a médica.

De forma alguma, as pessoas devem abrir mão de protocolos de segurança como evitar locais fechados, grandes concentrações de pessoas no mesmo ambiente, higienização constante das mãos e o uso da máscara não devem ser deixados de lado. Mas, principalmente a vacinação tem se mostrado com a melhor eficiência nessa batalha contra as sequelas.

O alerta é enfatizado pela pesquisadora da Fiocruz com dados muito relevantes. “Uma boa notícia que temos nesse monitoramento é com relação a interferência da vacinação. Os registros mostram que 51% das pessoas que pegaram covid sem ter tomado nenhuma dose da vacina, desenvolveram a covid longa; enquanto entre as pessoas que estão vacinadas com o protocolo completo, incluindo as doses de reforço, apenas 4% desenvolveram a covid longa. É uma queda expressiva de 47 pontos percentuais no risco de adquirir sequelas da doença se o paciente estiver vacinado. Isso corresponde a um risco 30 vezes menor”, aponta

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Dra. Rafaella Fortini é pesquisadora da Fiocruz. – Foto: Assessoria

Tempo de duração

Além das sequelas neurológicas, o monitoramento também registra falta de ar, fadiga, dores de cabeça, trombose, dores musculares e nas articulações e diabetes. “Outra grande incidência é de hipertensão arterial, um dos mais altos diagnósticos, e ainda a redução da mobilidade, pessoas com dificuldades motoras, muitas vezes com dificuldades motoras rotineiras, como subir uma escada ou levantar de um sofá”.

Quanto ao tempo de permanência dessas sequelas no organismo, Dra. Rafaella explica que algumas delas apresentam tendência de se resolver espontaneamente, como manchas vermelhas no corpo e vermelhidão nos olhos. No entanto, a grande maioria das sequelas, não estão se resolvendo de forma espontânea, implicando em necessidade de intervenção para que possamos melhor gerenciar a qualidade de vida dos pacientes.

Trabalhando em equipe

Na maioria dos casos tem sido necessária uma intervenção multiprofissional.  “A reabilitação com a participação de uma equipe multiprofissional, que envolve o trabalho de fisioterapeutas, profissionais de educação física, fonoaudiólogos e nutricionistas, além de variadas especialidades médicas, dependendo do tipo de sequelas desenvolvidas”, enfatiza a pesquisadora.

Tratamento multidisciplinar é reconhecidamente, o mais eficaz. Sintomas como a perda de paladar e olfato já eram sinais de algo muito sério em relação ao hábito alimentar e agravam-se mais por causa da disfagia (dificuldade de engolir) decorrentes da intubação prolongada e traqueostomia. “Alterações da deglutição não tratadas adequadamente; podem acarretar em desnutrição, desidratação, broncopneumonia e até levar à morte. Falar e comer fazem parte de hábitos de felicidade, faz parte do que é digno para as pessoas”,  salienta Luciana Castilho de Figueiredo, supervisora da fisioterapia da UTI do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp.

A personal trainer Simone Spínola afirma que é preciso muita atenção ao treinamento diferenciado. “A musculação com cargas baixas ou moderadas, alongamento e atividades cardiorrespiratórias, como a bicicleta ergométrica sem muita resistência nos pedais, e exercícios de mobilidade são benéficos nesse processo de recuperação”, aponta a profissional.

Todos esses estudos trazem dois fatores defendidos de forma unânime pelos especialistas. Primeiro que muitas perguntas continuam sem respostas, portanto muitos outros estudos ainda são necessários.  E segundo que, para que a carga da pandemia não se torne ainda maior para o sistema de saúde, é recomendada a criação de protocolos clínicos e unidades exclusivas na atenção básica para tratamento de pacientes com a síndrome pós-COVID.

Principais sequelas pós-covid

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    “Temos muitos casos em que a pessoa passa a ter um segundo quadro evolutivo dentro de uma patologia neurológica já existente” – Foto: Reprodução

    Fadiga, cansaço, fraqueza, mal-estar

  • Falta de ar
  • Fibrose nos pulmões e/ou rins
  • Perda de paladar e olfato
  • Dores de cabeça
  • Dores e/ou fraqueza musculares
  • Dificuldades de linguagem, raciocínio/concentração e memória
  • Insônia
  • Depressão e ansiedade
  • Agravamento de doenças preexistentes

Fonte: Hospital Israelita Albert Einstein

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