Arquitetura e arquiteta, no contexto dessa mudança estrutural, não são somente substantivos femininos
Por Luciene Pessotti
No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, abordaremos as relevantes contribuições que, nós arquitetas, fizemos no nosso campo profissional. Embora ainda enfrentemos barreiras importantes no mercado de trabalho, em contrapartida, destacamo-nos pela criatividade, inovação e um desejo enorme de revolucionar. Tais condutas vêm diminuindo a invisibilidade feminina no mercado de trabalho. Arquitetura e arquiteta, no contexto dessa mudança estrutural, não são somente substantivos femininos. Arquiteta é, principalmente, substantivo predicado: arquiteta é aquela que transforma realidades. Sim, no plural.
Atuando em diferentes segmentos as arquitetas vêm se destacando ao longo da história e, para além disto, deixando expressivas contribuições para a sociedade e nosso campo de conhecimento. A maioria, feministas, não se rendem ao vitimismo. Interpretam o meio e a realidade onde atuam e superam os desafios. Citemos algumas das inúmeras profissionais que fizeram história e nos inspiram até hoje.
A referência inicial é Marion Mahony Griffin, primeira mulher no mundo a receber o título de arquiteta pelo Massachusetts Institute of Technology – MI, em 1894. Griffin deixou como legado sua atuação e persistência que a permitiram romper barreiras de gênero. Logo, a primeira arquiteta do mundo abriu caminho para que outras mulheres atuassem na área. Profissional de vanguarda, contribuiu significativamente para o movimento Prairie School. Em seus projetos enfatizou a importância da natureza, do artesanato e da simplicidade, e seu profundo respeito pelo meio ambiente natural.
Outra referência é Lina Bo Bardi, arquiteta ítalo-brasileira que revolucionou a arquitetura e a arte no Brasil. Considerada uma das mais importantes arquitetas do país, notadamente do movimento moderno, e uma das maiores feministas brasileiras. Seus valores e obras são um legado internacional. Destacou-se ao unir o moderno ao popular, e criou espaços que respondiam às realidades sociais e culturais do Brasil.
No Espírito Santo citamos Maria do Carmo Schwab, a primeira arquiteta do estado. Nascida em março de 1930, na cidade de Vitória, formou-se em 1953 na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Atuando naquela cidade participou do desenvolvimento da arquitetura moderna brasileira. Foi estagiária de Affonso Eduardo Reidy, um dos precursores modernismo no Brasil. Nos anos 50 foi a única mulher que integrou o grupo de arquitetos modernistas do Espírito Santo.
Elaborou um dos projetos mais emblemáticos deste estilo, a Sede do Clube Libanês, em Vila Velha. Schwab desenvolveu cerca de 248 projetos no Espírito Santo entre 1950 e 1980. Além dessas referências citamos algumas outras excepcionais, incluindo Zaha Hadid, Kazuyo Sejima, Carme Pigem, Yvonne Farrell e Shelley McNamara, e Anne Lacaton. Todas elas ganharam o Prêmio Pritzker de Arquitetura.
No Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento Espírito Santo (IAB/ES), somos maioria em número de conselheiros, e a presidência e vice-presidência é exercida por duas arquitetas. O número expressivo de mulheres no campo da Arquitetura e Urbanismo vêm aumentando nossa representatividade. Nossa contribuição, desde Marion Mahony Griffin, ensejou necessárias mudanças na arquitetura que só foram possíveis através da expressão da criatividade, intuição, genialidade e desejo de revolucionar da alma feminina.
Luciene Pessotti é arquiteta e urbanista, professora da ufes e vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil/ES

