Ano de mudança no perfil do investidor

Inflação baixa e queda da Selic estão transformando hábitos

Na área das finanças, o ano foi de aprendizado. Levou as pessoas a sair de sua zona de conforto. Diante das sucessivas quedas na taxa de juros (Selic), os investidores se viram em uma situação inédita no país, com necessidade de fuga dos grandes bancos e de produtos tradicionais da renda fixa para investimentos com um pouco mais de risco.

Os fundos de investimentos em ações de empresas de menor porte na bolsa de valores (small caps) estão no topo do ranking dos melhores investimentos em 2019, com rentabilidade de quase 50%, no acumulado do ano. Também se destacaram os investimentos em ações, títulos e outros ativos em mercados estrangeiros, com 45% de rentabilidade. Já a poupança teve rentabilidade tão ruim que chegou a ficar abaixo da inflação quando a Selic caiu em dezembro. De janeiro a dezembro deste ano, rendeu apenas 3,95%.

A inflação sob controle, que possibilitou a queda da taxa Selic, a retomada, mesmo que tímida, do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a aprovação da reforma da Previdência (que reduz despesas no longo prazo) são os momentos que merecem registro em 2019.

4,5% É a mínima histórica da taxa de juros da economia, a Selic

“No âmbito local, o mapeamento dos investimentos a ser realizados nos próximos anos, o modelo de negócios de longo prazo, via fundos, e o estímulo à formação de parcerias (PPPs) e concessões por parte do Estado, bem como o ajuste fiscal, criam um ambiente propício ao crescimento duradouro e de qualidade em médio e longo prazos”, explica o diretor-presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), Maurício Cézar Duque.

Segundo ele, merece destaque também o aumento da participação das exportações capixabas no total do país: 4,2% em 2019, maior percentual desde 2015. “Nacionalmente, desde outubro vislumbramos leves melhoras no PIB para o ano corrente, passando de 0,87% (no final de setembro) para 0,91%.”

No mercado de crédito, a dificuldade de reversão da crise econômica pode ser observada pela evolução do saldo de operações de crédito para pessoa jurídica e pessoa física no Estado. Em 2014, ambos os saldos estavam praticamente nos mesmos patamares. Já em 2019, o saldo de crédito de PF é 50% superior ao de PJ. “Ressalte-se que, mesmo em termos nominais, o saldo de operações de crédito para pessoa jurídica está abaixo dos valores registrados em 2014. A conclusão é que, mesmo com uma Selic em seu patamar recorde, a retomada dos investimentos não irá passar apenas pelo crédito barato”, analisou Duque.

Fintechs foram as vedetes do mercado financeiro em 2019

Na análise de Luiz Alberto Caser, sócio da Valor Investimentos, o baixo crescimento do PIB tem tanto motivos internos, como a reforma da Previdência, quanto externos, como a desaceleração do comércio mundial, mas a retomada veio ao final do ano e garantiu uma economia maior que a esperada. A Medida Provisória (MP) da Liberdade Econômica deu uma amplitude da questão trabalhista, e os indicadores de atividade econômica de Estados Unidos e Europa reforçaram um entendimento de que o risco de recessão foi reduzido. Vale destacar o reajuste fiscal e a rigidez orçamentária.

“O governo federal deu continuidade ao ajuste fiscal com sinais consistentes de recuperação. A economia começou negativa na ordem de 1,6% do PIB e deve fechar com negativa de 1,2% do PIB, então tivemos uma recuperação de 0,4%. Apesar de ainda termos uma taxa negativa, a economia decorrente da reforma da Previdência ajudará a estabilizar a dívida pública, eliminando quase que por completo o risco de insolvência fiscal. O Brasil não está mais quebrado, e creio que esse é o grande ponto da virada da economia para o próximo ano”, falou.

Nos últimos meses, três fatores contribuíram para a desvalorização do real frente ao dólar, ressalta Caser. “O primeiro deles é o diferencial de crescimento econômico. Apesar da recuperação, o PIB brasileiro ainda está muito distante do americano. O segundo quadro é a diminuição do diferencial de juros entre os dois países: enquanto o Banco Central americano mantém taxas em virtude da recuperação econômica e atividade industrial, o nosso entrega mais um corte de 0,25%. Por fim, há ainda os riscos assimétricos.

Percebemos a redução do risco de recessão nas principais economias, ao mesmo tempo em que identificamos que os riscos das economias latino-americanas continuam elevados, como o caso do Chile. Isso também reduz a vontade de correr riscos: se está bom lá, para que o investidor viria apostar aqui? Isso tudo resulta em desvalorização cambial”, disse.
A entrada de muitas fintechs e de bancos digitais no mercado foi citada pelo diretor-presidente do Banestes, José Amarildo Casagrande. “Foi, sem dúvida, fator determinante às estratégias organizacionais das instituições financeiras em 2019 e também às projeções de 2020. Para o Banestes, isso nos impulsionou a sermos cada vez mais eficientes, com atendimento e produtos de qualidade”, frisou ele.

País menos conservador A Selic, que em um passado recente já rendeu ao ano mais de 14%, em 2019 alcançou a baixa histórica de 4,5%. Isso forçou o brasileiro a buscar melhores investimentos. Com isso, a Bolsa de Valores oficial do país, a B3, tem computado números inéditos: até outubro, alcançou 1,5 milhão de cadastros de pessoas físicas. O número cresceu em quase 700 mil desde o início do ano, em uma média de 70 mil pessoas a cada mês.

De acordo com Caser, a saída de investimentos mais conservadores e a opção por um pouco mais de risco devem ser cada vez mais comuns nos próximos anos. A busca por novas maneiras de rentabilizar a carteira cria um momento único disruptivo para esse setor no país. “Nas festas de final de ano, as pessoas vão se perguntar mais: ‘E aí, onde investir em 2020?’. Ou, pelo menos, todo mundo vai se questionar se esse cenário de juros baixos veio para ficar ou não. A gente teve uma fase que demorou a sair da inércia de juro real abaixo de 1% ao ano. Hoje temos a Selic a 4,5%; tirando imposto e inflação projetada pelo Banco Central, chegamos praticamente a juro real zero. Esse cenário é muito propício para crescimento de lucro das empresas, e a Bolsa de Valores é feita por empresas. Logo, nada mais coerente que a Bolsa se tornar um investimento mais atrativo em 2020. Não é à toa que, desde o início de 2019, o Ibovespa acumula alta de +25%. E tem mais coisa por vir. A Selic é a taxa livre de risco da economia brasileira e, se ela está caindo, a gente entende que a percepção de risco no Brasil diminuiu, o que melhora as oportunidades de investimentos em ações”, explicou.

Mercado Financeiro refletiu o bom humor causado pelas medidas econômicas do governo

Já o crédito produtivo ficou mais competitivo em 2019, consequência positiva direta da taxa Selic. “No Bandes, por exemplo, várias linhas de crédito são impactadas de imediato, pois são indexadas pela Selic. Esses cortes limitam a atuação do capital meramente especulativo e beneficiam diversos setores da economia capixaba. A redução na taxa básica de juros faz com que os nossos programas de financiamento fiquem melhores e com o ambiente de negócio mais propício a investimentos de empreendimentos de todos os portes, com o objetivo de promover o crescimento da economia do Estado. Em resumo, a queda da Selic estimula a economia, porque juros menores barateiam o crédito e incentivam a produção e, consequentemente o consumo, resultando em mais emprego e renda em circulação”, falou o diretor-presidente da instituição.

A mudança na economia é ampla e traz consigo um ambiente desafiador para todas as instituições bancárias. É o que aponta José Casagrande. “Os bancos precisarão ser ainda mais eficientes na elevação do volume de crédito e no controle de despesas e da inadimplência. Novas tecnologias foram lançadas e mais investimentos foram realizados pelo Banestes em 2019, aproximando ainda mais o banco dos capixabas ao atual cenário digital de todo o sistema financeiro mundial, sem perder a sua principal característica: a proximidade com o cliente”, frisou o diretor-presidente do Banestes.

Tecnologia, informação, novos players e competição. O brasileiro, e mais especificamente o capixaba, está munido de grandes ferramentas para investir melhor o seu dinheiro neste novo cenário econômico. Basta arregaçar as mangas e estudar. O maior risco neste momento é não correr risco algum e ter o patrimônio corroído.

Investimentos de destaque
1. Tesouro IPCA (inflação)
2. Ouro
3. Ações (Ibovespa)
4. Fundos multimercados
5. Tesouro prefixado
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