
Fui à academia ontem de manhã. À noite, fui caminhar. A madrugada veio completar o pacote. Uma cãibra no dedão do pé surgiu do nada, uma dor ancestral
Por André Gomyde
Depois das aventuras do carnaval, tomei uma decisão solene, dessas que a gente anuncia primeiro para si mesmo, com voz grave e postura ereta: agora vai. Agora a caminhada no calçadão, no início da noite, é sagrada. A musculação quatro vezes por semana é quase uma religião. Exercício diário passa a ser mantra, desses repetidos com fé, suor e roupa adequada.
Comecei com entusiasmo juvenil e joelho de meia-idade. Fui à academia ontem de manhã e resolvi pegar pesado. Pesado mesmo. Peso que a máquina parecia perguntar se eu tinha certeza. Levantei com pernas e braços como quem tenta provar alguma coisa para alguém que nem estava ali. Saí me sentindo um atleta olímpico aposentado, mas digno.
À noite, mantive o plano espiritual e fui caminhar. Estava indo bem, passos firmes, pensamento elevado, aquela sensação falsa de que agora a vida entrou nos trilhos. Quando me afastei bastante de casa, o céu resolveu participar do meu projeto. Caiu uma chuva torrencial, dessas que parecem vir com raiva pessoal. Voltei ensopado, heróico e gripado.
A madrugada veio completar o pacote. Uma cãibra no dedão do pé surgiu do nada, repuxando com força, uma dor ancestral, primitiva, capaz de fazer qualquer um repensar escolhas. Tentei resolver do jeito clássico: fui com o braço puxar o dedão para o lado contrário. Funcionou? Claro que não. Deu cãibra no músculo redondo maior, aquele que fica abaixo e atrás do sovaco, um músculo que eu nem sabia que existia, mas que agora considero inimigo íntimo.
Resultado: fiquei travado na cama, sem conseguir ir nem para um lado nem para o outro. Parecia uma escultura contemporânea chamada “Homem que Achou que Dava”. Gripado, dolorido e imobilizado, fiquei olhando para o teto às quatro da manhã, conversando com Deus em tom de negociação.
Foi então que veio a revelação. Clara, objetiva, sem rodeios: exercícios não são para você. Pelo menos não desse jeito messiânico, querendo resolver anos de sedentarismo em 24 horas. O corpo, esse ser rancoroso, cobra juros altos quando é surpreendido.
Aprendi que saúde não gosta de fanatismo. Gosta de constância, gentileza e humildade. Talvez caminhar menos, levantar menos peso e ouvir mais o corpo. Ou talvez aceitar que ele também tem senso de humor e adora nos colocar no nosso devido lugar.
Hoje continuo decidido. Só com menos empolgação, menos peso… e muito mais alongamento.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

