O sistema digital não trouxe transparência, trouxe apenas uma nova forma de opacidade, mais elegante, com senha e biometria

Por André Gomyde
Em Primeirão, país de dimensões continentais e vocação para o surrealismo, os cidadãos viviam na era da transparência. O governo, sempre preocupado com a modernidade e o zelo com a coisa pública, havia criado um sistema financeiro digital chamado Carteirão — uma carteira eletrônica que prometia praticidade, agilidade e, principalmente, segurança. Uma evolução tecnológica e uma maneira de permitir alguma concorrência com os grandes bancos.
Na propaganda oficial, o Carteirão era a oitava maravilha do mundo moderno. A primeira localidade em utilização dessa tecnologia, obviamente, era a capital financeira, Primeirópolis, onde se concentrava um grupo seleto de empresários — conhecidos carinhosamente pela população como os meliantes do bem. Diziam que eram pessoas visionárias, comprometidas com o futuro, mas que tinham o hábito estranho de nunca olhar muito para o presente.
O povo, otimista como sempre, acreditou. Só que, em Primeirão, acreditar já era meio caminho andado para ser enganado.
O Carteirão, ao invés de ser uma ferramenta de cidadania, virou um parque de diversões para a criatividade criminosa. Era possível fazer transferências que iam e vinham como pombos-correio bêbados: ninguém sabia de onde saíam, nem para onde chegavam. Quando alguém perguntava “mas esse dinheiro todo é de onde?”, a resposta oficial era sempre a mesma: “trata-se de uma inovação tecnológica, vocês não entenderiam”.
Os meliantes da capital financeira, espertos, perceberam logo o potencial. Enquanto o povo usava o Carteirão para pagar a feira de sábado, eles usavam para movimentar cifras que dariam inveja a qualquer banco central. Não era lavagem de dinheiro, explicavam, era apenas uma higienização digital. Soava até mais limpo, mais moderno, quase sustentável.
A coisa ficou tão sofisticada que criaram um Grupo de Trabalho Permanente sobre a Ética do Carteirão, que se reunia semanalmente para discutir como explicar ao povo que o dinheiro sumia por “falhas de sistema”. Reunião essa que, claro, era paga com o mesmo dinheiro que desaparecia.
O povo, cada vez mais desconfiado, começou a fazer contas. Só que em Primeirão, contas não fecham — são sempre arredondadas para cima, mas nunca em benefício de quem paga. Até que um dia um repórter atrevido revelou que parte dos empresários usava o Carteirão para financiar mansões, viagens exóticas e até uma frota de carros de luxo que nunca tocavam o solo da capital — eram todos embarcados diretamente em contêineres digitais.
E aí veio o choque: os próprios criadores do Carteirão eram os maiores usuários clandestinos da ferramenta. Era como se o bombeiro fosse também o incendiário, mas com a desculpa de que o fogo era necessário para modernizar o bairro.
Moral da história: na capital financeira de Primeirão, a inovação não serve para melhorar a vida do povo, mas para sofisticar a malandragem. O sistema digital não trouxe transparência — trouxe apenas uma nova forma de opacidade, mais elegante, com senha e biometria.
O povo, coitado, segue acreditando que um dia a tecnologia será usada para o bem. Mas em Primeirão, como em qualquer país onde os meliantes acabam encontrando formas de burlar as maravilhas tecnológicas, a única coisa que nunca é digitalizada é a vergonha na cara.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

