
Sob a justificativa oficial de combate ao narcotráfico, a administração Trump declarou a intenção de “governar” a Venezuela até uma “transição segura”
Por Darlan Campos
A operação militar dos Estados Unidos que culminou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, representa um ponto de inflexão na política externa norte-americana e um abalo nas normas de segurança global. A ação, batizada de “Operação Resolução Absoluta”, transcende o debate ideológico e instaura um precedente cujas implicações políticas e estratégicas serão sentidas por anos, redefinindo as relações de poder no hemisfério.
Sob a justificativa oficial de combate ao narcotráfico, a administração Trump não apenas capturou um chefe de Estado, mas declarou a intenção de “governar” a Venezuela até uma “transição segura”. A declaração desafia o direito internacional contemporâneo. A era dos protetorados terminou com a descolonização, e uma ocupação dessa natureza carece de respaldo legal. A ação viola a Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado, exceto em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança, cenários que não se aplicam.
A reação internacional foi imediata. Uma nota conjunta de Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha classificou os eventos como um “precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regional”. A condenação foi ecoada por Rússia e China, e até aliados europeus pediram desescalada. A intervenção estabelece um precedente onde Estados poderosos poderiam justificar a deposição de líderes com base em acusações criminais, minando o princípio da soberania.
Para o Brasil, a intervenção na Venezuela representa um desafio político de primeira ordem no ano eleitoral de 2026. O aumento da instabilidade regional e o grau de imprevisibilidade gerado pela ação militar norte-americana tendem a colocar a Venezuela no centro do debate político brasileiro. Temas de política externa e segurança nacional, tradicionalmente secundários nas eleições presidenciais, podem ganhar protagonismo inédito. A proximidade geográfica, os fluxos migratórios e as implicações para a integração regional transformam a crise venezuelana em pauta doméstica. Candidatos serão cobrados sobre posicionamentos em relação à intervenção, à postura brasileira diante dos Estados Unidos e às estratégias para lidar com a instabilidade na fronteira norte. O cenário de 2026 se torna mais complexo e imprevisível.
Para a América Latina, a operação reacende o fantasma das intervenções unilaterais. A ação militar direta contra um presidente em exercício sinaliza um retorno a uma doutrina de poder que pode desestabilizar o equilíbrio regional. A nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina adiciona complexidade ao cenário.
Em última análise, a intervenção deixa mais perguntas do que respostas. A remoção de um regime é mais simples que o estabelecimento de uma governança estável. Ao optar pela força, os Estados Unidos assumem uma responsabilidade de consequências imprevisíveis, colocando em xeque não apenas o futuro da Venezuela, mas a ordem multilateral. O mundo observa se este é um ato isolado ou o início de uma nova doutrina de política externa norte-americana.
Darlan Campos é consultor em marketing político, escritor e professor. Autor do
livro “planejamento e estratégia de campanha eleitoral” (Taco, 2024)

