Em um cenário “tumultuado” pelas disputas nas urnas, municípios capixabas garantem boa qualidade de governança pública
Por Luciene Araújo
O cenário político do Espírito Santo em 2024, assim como no restante do país, foi marcado pela intensa mobilização para as eleições municipais. À medida que se aproximava o dia 6 de outubro, os debates se intensificaram, especialmente em torno de saúde, educação,
segurança pública e infraestrutura.
O resultado nas urnas manteve a tradição das eleições municipais, fortalecendo o centro político. Partidos de centro e direita lideraram amplamente em número de prefeituras conquistadas. O PSD foi a sigla com maior número de prefeituras, com 891 eleitas, seguido pelo MDB (864) e PP (752). Já o PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, comandará apenas 252 prefeituras.
A taxa de reeleição em todo país foi bem alta: 81% dos prefeitos foram aprovados pela população de suas cidades e terão mais quatro anos para aumentar seu legado político.
O cientista de dados e analista político Sérgio Denicoli destaca que o radicalismo das extremas perdeu espaço nessas eleições, marcadas por um claro fortalecimento dos partidos de centro.
O cientista político André Pereira reafirma o entendimento de Denicoli. “As eleições municipais mostraram que o eleitor médio caminha para o centro, fugindo dos extremos da política. Ele aponta que o PL de Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto ficou longe da meta de mil prefeituras conquistadas, enquanto o PT teve um desempenho aquém do esperado para um partido que comanda o governo federal. É evidente que a política municipal tem características próprias, distintas do que se vê no plano nacional, mas o êxito do PSD de Gilberto Kassab, do MDB e do União Brasil apontam uma nova correlação de forças já em 2025. Algo se move na conjuntura política?”, questiona Pereira.
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Mas, ele entende que engana-se quem imagina que a polarização política perde força. “Isso ficou claro na tentativa de ataque ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) por um apoiador de Bolsonaro, em meados de novembro”. Para ele, trata-se de algo que precisa ser evitado a todo custo, com medidas legais e concretas do mundo político. “Do contrário, a democracia brasileira seguirá sob ameaça permanente”, aponta.
Fato é que, neste pleito, a maioria dos eleitores depositou o voto em gestores que mostraram resultados nas ruas, que produziram avanços claramente identificáveis nas cidades, complementa Denicoli. E os resultados nas maiores cidades do Espírito Santo comprovam isso. Em Cariacica, Euclério Sampaio (MDB) alcançou 88,41%, em Vila Velha, Arnaldinho Borgo (Podemos) conquistou 79% dos votos e na capital, Lorenzo Pazolini (Republicanos) garantiu sua continuidade com 56,22%. E na Serra, único município a ter segundo turno, a força política de Sérgio Vidigal levou Weverson Meireles (PDT) à Prefeitura, com 60,2%.
No Espírito Santo, o PSB, liderado por Renato Casagrande, se consolidou como o partido mais forte, conquistando 21 prefeituras.
Ainda no contexto das articulações políticas, há três pontos que merecem destaque na avaliação do especialista em marketing político, Rafael Leão: a visita de Bolsonaro ao Estado, o retorno de Paulo Hartung à cena política; a disputa pelo comando do União Brasil no Estado e as cassações por fraude na cota de gênero.

Visita de Bolsonaro ao ES
Em setembro, o ex-presidente Jair Bolsonaro visitou o Espírito Santo para apoiar candidatos do Partido Liberal (PL) nas eleições municipais. A agenda incluiu uma carreata que percorreu Vitória, Serra e Vila Velha, culminando em um comício na Prainha, em Vila Velha, com a presença de lideranças locais como o senador Magno Malta e o deputado federal Gilvan da Federal. “A visita reforçou o apoio de Bolsonaro a candidatos do PL no estado e mobilizou sua base eleitoral”, aponta Leão.
Hartung de volta?
O ex-governador Paulo Hartung também retornou ao cenário político capixaba, participando ativamente de discussões, eventos públicos e integrando o comitê de auditoria e riscos da Vale. Segundo o especialista, “especula-se sobre sua possível candidatura em 2026, o que pode redesenhar alianças políticas no estado”.

Disputa no comando de partido
O comando estadual do partido União Brasil foi alvo de disputa entre o atual presidente da sigla, o secretário estadual de Meio Ambiente, Felipe Rigoni, e o presidente da Assembleia Legislativa. “Ao deixar o Podemos, o deputado estadual Marcelo Santos articulou sua filiação ao União Brasil com o objetivo de assumir a liderança estadual do partido. Em julho, após reuniões em Brasília com a cúpula nacional da legenda, a direção nacional decidiu manter Felipe Rigoni na presidência estadual, reconhecendo, contudo, a liderança de Marcelo Santos e celebrando sua chegada ao partido”, enumera.
Cassações
Por fim, Rafael Leão destaca que o ano foi marcado por cassações de mandatos devido a fraudes na cota de gênero. Em Vila Velha, os vereadores Devacir Rabello (PL) e Joel Rangel (PTB) perderam seus mandatos. Em Cariacica, cinco vereadores tiveram seus mandatos cassados pelo Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES). Recentemente, na Assembleia Legislativa, o deputado Allan Ferreira (Podemos) perdeu seu mandato, sendo substituído por Fabio Duarte, que assumirá em breve.

Gestão de Qualidade
A boa notícia é que, mesmo em meio a toda essa disputa, os gestores municipais e suas equipes foram capazes de manter bons níveis de gestão pública e transparência.
Avaliação realizada pela Transparência Capixaba, com metodologia da Transparência Internacional – Brasil, aponta que, em 77 municípios avaliados, 48 possuem nível ótimo ou bom de transparência e governança pública e 29 são consideradas regular ou ruim.
No topo do Ranking Capixaba ficaram as cidades de Vila Velha, Afonso Cláudio, Cachoeiro de Itapemirim, Serra e Alegre. Vitória se destaca na avaliação, tendo ficado com a primeira posição do ranking de capitais do ITGP 2024.
Brasília
Quanto ao cenário federal, André Pereira defende que há certa decepção com o governo Lula, em especial da parte de setores que apoiaram sua eleição em 2022. “A economia ainda claudica, certas políticas públicas não ganham tração e o principal ator do primeiro escalão, o ministro da Fazenda Fernando Haddad, é alvo de intenso fogo amigo, levantando dúvidas sobre sua capacidade de se manter à frente da pasta”.

O cientista político diz ainda que uma reforma ministerial pode se fazer necessária, mas “será esse movimento suficiente para mudar o quadro atual?”.
Para ele, a sucessão no comando das duas Casas Legislativas federais caminha para uma rápida definição. Na Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos/PB), conseguiu o apoio da ampla maioria dos partidos e deverá ser sagrado o sucessor de Arthur Lira (PP/AL), de quem é aliado. “No Senado Federal, salvo um grave acidente de percurso, Davi Alcolumbre (União Brasil/AP) deverá retornar à presidência em substituição a Rodrigo Pacheco (PSD/MG). Jogo praticamente jogado.”, garante.
Em Brasília, Casagrande anuncia ações com Governo Federal
E o Espírito Santo nesse contexto? Há duas grandes vantagens em comparação com outras unidades da Federação: uma economia hoje sólida e um governador, Renato Casagrande (PSB), moderado. “Ele está com um pé na canoa do governo federal, mas também é capaz de dialogar com outras forças políticas. Se isso será suficiente para trazer êxitos ao estado ainda não se pode afirmar, mas trata-se de um bom caminho”, avalia Pereira.

Cenário Mundial
A expressiva vitória de Donald Trump sobre a democrata Kamala Harris marcou um momento de profundas mudanças na cena norte-americana, aponta o cientista político André Pereira. Segundo ele, o republicano já promete revisitar o que estava sendo implementado pelo governo de Joe Biden, especialmente em áreas como crise climática, imigração e comércio.
“Atenção especial para as relações com a China, que podem piorar ainda mais. O fato é que o novo presidente já mostra as garras, ao indicar para sua gestão figuras polêmicas como Elon Musk e Marco Rubio. O mundo pode ter uma nova configuração a partir de 2025”, afirma Pereira.
Conflitos
E ainda na esteira da vitória de Trump, tanto a invasão da Rússia sobre a Ucrânia quanto o embate de Israel contra os grupos armados do Oriente Médio podem ter desdobramentos distintos a partir de agora.
“No caso da guerra no centro da Europa, o russo Vladimir Putin pode ter um novo e fundamental aliado, com potencial para acabar com as pretensões do ucraniano Zelensky.
Já o governo de Benjamin Netanyahu pode radicalizar suas operações contra o Hamas, o Hezbolah e também o Irã, tornando o quadro na região absolutamente incerto. Medo no ar”, aponta.
Para ele, a reunião do G20 no Brasil não trouxe grandes avanços. “Pior, foram fatos externos ao evento, como o ataque da primeira-dama brasileira Janja a Elon Musk que concentraram as atenções. Talvez seja o momento de se repensar o formato do grupo, que pouco tem apresentado de efetivo para as grandes questões globais”, avalia.
E em relação à crise climática, fica evidente a gravidade da situação, que precisa imediatamente ser abordada de maneira distinta. “A COP 29, em Baku, Azerbaijão, pouco rendeu, e não se deve esperar um cenário distinto em 2025, em Belém. Pior para o Brasil e o governo Lula (PT), que correm o sério risco de naufragar justamente numa área que foi crucial na campanha eleitoral de 2022”, afirma Pereira.
*Esta matéria foi publicada originalmente na revista ES Brasil 225, publicada em dezembro. Leia a edição completa da Retrospectiva 2024 aqui.

