Senso Moral, a bola da vez. Dilemas civilizatórios de nosso tempo à luz da consciência espiritual

O mundo depara-se com os impactos da policrise que espalhou – e ainda espalha – a apreensão pelos quatro cantos do planeta. Faltou água, e a sua escassez ajudou a encarecer a energia. Política com erros de priorização dificultou a exportação e escancarou-se à importação, desindustrializando o país e desempregando pessoas às centenas de milhares. Corrupção trazida à baila em pleno Ano Internacional da Luz, decretado da Unesco.

Mercados saturados e crise de confiança no Brasil, potencializada por falta de integridade na governança. Enquanto o dólar, forte demais, desequilibra a balança comercial americana por dificultar a exportação (até porque há poucos em condições de comprar hoje), a retração chinesa leva ao desespero aqueles que atrelaram suas expectativas ao apetite do dragão.

A Grécia, menos filosófica do que nunca e com sua economia mais próxima de suas históricas ruínas, faz o tabuleiro econômico mundial tremer nas bases, por desconhecer os reais efeitos de seu abandono pela elite do euro. O planeta teme o prometido efeito dominó que acomete sistemas interdependentes. O processo todo acabou empurrando para o buraco o sonho de alguns que ganhavam com a desvantagem de muitos. O problema pareceu fruto de um mercado ancestralmente sem regras claras, com práticas comerciais predatórias e manobras políticas inadequadas, num tempo em que a transcendência parece a única perspectiva de análise factível para uma economia sequer compreendida pelos economistas.

Todo esse pânico presentemente visível parece apenas um dos vários afluentes de uma onda maior, que vem encrespando-se no mar instável de um mundo superpopulado, no apogeu tecnológico, economicamente desequilibrado e com inaceitáveis desigualdades sociais.

Incapaz de perceber o outro e a miséria ao redor, pela predominância do individualismo que reina em nosso tempo, o ser humano contenta-se em manter a si e aos seus longe da carnificina que consome a esperança e a vida dos atingidos pelos ventos do furacão instalado. Por que o planeta sempre parece disposto a se mobilizar para conter ligeiros soluços econômicos dos ricos, mas dá de ombros a questões essencialmente sociais?

Essa parece uma pergunta clichê dos meios de comunicação. Mas ainda sem resposta! Talvez seja oportuno nos perguntar: por que o humanismo e a espiritualidade permanecem fora do foco da gananciosa política, que só faz autoproteger-se? A raiz dessa resposta pode estar nos interesses meramente econômicos que há tempos emolduram as visões de mundo. Aí também poderá residir o cerne da crise maior, que acomoda em seu ventre a atual insônia dos investidores e o alarme que freou a voracidade mercadológica de há pouco. Por que desmobilizar o contingente humano empregado ainda parece medida mais eficaz que acionar a desaceleração momentânea da lucratividade em tempos sombrios? Deve estar o ser humano no primeiro corte de “gorduras” ou custos num tempo em que o mundo já se vê com problemas sociais em excesso, tendo o desemprego como mola mestra a condenar famílias inteiras às cavernas da exclusão?

Como membro da Academia Brasileira de Direitos Humanos, soa-me cruel disponibilizar mão de obra em um mercado substancialmente recessivo, prestes a uma depressão, ainda que a produção de muitas empresas esteja em franca retração. Por que o capital humano continua tão mal cotado nas bolsas nada diplomáticas da solidariedade e da justiça em nosso planeta?

Não será tempo de uma revisão no paradigma civilizatório que adotamos? Ou, quem sabe, de priorizarmos o aprimoramento de nosso senso moral? Consciência, bola com você!

Sidemberg Rodrigues é presidente do Conselho Temático de Responsabilidade da Findes e gerente geral de Comunicação e Relações Institucionais da ArcelorMittal Brasil.

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