Dê especial atenção àqueles comprometidos com políticas concretas para a primeira infância. Seu voto é a voz dessas crianças
Por Eduardo Araújo
Hoje, ao exercermos nosso direito democrático nas urnas, é crucial refletirmos sobre uma das questões mais prementes do Brasil: a desigualdade social. O Banco Mundial coloca o país como o sexto mais desigual do mundo, uma posição que nos obriga a questionar a eficácia de nossas políticas públicas e a real possibilidade de mobilidade social para milhões de brasileiros.
Neste contexto, a filosofia de John Rawls oferece uma perspectiva valiosa. Sua “Teoria da Justiça” propõe o experimento mental do “véu da ignorância”, onde indivíduos, desconhecendo sua posição social futura, escolhem os princípios que regerão a sociedade. Rawls argumenta que, nessas condições, as pessoas optariam por uma sociedade que garantisse igualdade de oportunidades, com desigualdades aceitáveis apenas se beneficiassem os menos favorecidos. Esta visão nos convida a repensar como podemos criar uma base comum de oportunidades desde a primeira infância.
Complementando essa perspectiva filosófica, as pesquisas da economista Esther Duflo, laureada com o Nobel, fornecem evidências concretas. Através de experimentos de controle randomizado, Duflo demonstra que muitas famílias estão presas em uma “armadilha da pobreza”, superável apenas com intervenções estatais diretas.
Seus estudos revelam que investimentos na primeira infância e programas de transferência de renda não só aliviam a pobreza imediata, mas também geram retornos significativos a longo prazo. Crianças beneficiadas por programas de nutrição e estimulação precoce, por exemplo, tendem a ter melhor desempenho escolar e maiores rendimentos na vida adulta.
A urgência dessa questão é ilustrada por dados alarmantes. O Índice de Necessidade de Creche aponta que cerca de 4,5 milhões de crianças de 0 a 3 anos no Brasil necessitam de vagas em creches e não as têm. Esta carência é agravada pela falta de opções em tempo integral.
O Censo Escolar de 2024 revela que apenas 59% das crianças matriculadas em creches públicas estão em tempo integral, número insuficiente para garantir o desenvolvimento adequado e a participação plena dos pais no mercado de trabalho. No Espírito Santo, a situação é ainda mais crítica: somente 27% das crianças em creches estão em tempo integral, muito abaixo da média nacional.
A importância das creches em tempo integral é exemplificada pelo caso de uma diarista que trabalha o dia todo. Sem acesso a uma creche de qualidade em período integral, ela é forçada a deixar seu filho em situações precárias, comprometendo não apenas seu trabalho, mas também o desenvolvimento e as futuras oportunidades da criança. Creches em tempo integral são, portanto, não apenas um suporte para pais trabalhadores, mas um investimento crucial no desenvolvimento cognitivo e social das crianças, fundamental para quebrar o ciclo intergeracional da pobreza.
Nessas eleições municipais, apresento a você evidências sobre a importância crucial das políticas para a primeira infância no combate à desigualdade. Agora, convido-o a refletir profundamente e considerar votar em candidatos que apresentem propostas claras e robustas para endereçar um dos problemas mais críticos do país: a desigualdade de oportunidades.
Dê especial atenção àqueles comprometidos com políticas concretas para a primeira infância, como a expansão de creches em tempo integral e programas de apoio familiar. Seu voto é a voz dessas crianças. Use-o sabiamente para criar um futuro mais justo e próspero para todos.
Eduardo Araujo é Mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford. Conselheiro no Conselho Federal de Economia. Consultor do Tesouro Estadual na SEFAZ-ES

