Estudo liderado pela professora Nauvia Maria Cancelieri identifica alcaloides da planta Rauvolfia capixabae com potencial para tratamentos mais seguros e eficazes contra o câncer
Por Thamiris Guidoni
A professora Nauvia Maria Cancelieri, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Campus Serra, é a inventora responsável por uma patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) que descreve alcaloides extraídos da planta Rauvolfia capixabae, espécie nativa do Espírito Santo. Pesquisa aponta que as substâncias apresentaram atividade comprovada na destruição de células tumorais, representando um avanço promissor para o desenvolvimento de novos medicamentos oncológicos.
Os estudos foram conduzidos durante o doutorado da pesquisadora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em colaboração com cientistas da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).
Os compostos extraídos mostraram resultados expressivos contra carcinoma cervical, carcinoma colorretal e leucemia humana, com alta seletividade, ou seja, capacidade de eliminar células tumorais sem comprometer as células saudáveis.
“Esse é um diferencial importante em relação aos quimioterápicos convencionais, que costumam afetar também as células normais. Nossos resultados indicam um caminho para o desenvolvimento de terapias mais seguras, eficazes e menos agressivas”, explica a professora Nauvia.
O trabalho reforça o potencial da biodiversidade brasileira como fonte de inovação científica e tecnológica, além de evidenciar o papel das instituições públicas de ensino e pesquisa no avanço da biotecnologia.
A Rauvolfia capixabae, segundo a pesquisadora, é uma espécie descoberta no Espírito Santo pela professora Ingrid Fischer, da Unicamp, e cresce naturalmente tanto em áreas de mata quanto de restinga.
A pesquisa se diferencia também pela sustentabilidade do processo de obtenção dos compostos. Por se tratar de substâncias de origem vegetal, os chamados fitofármacos são menos agressivos ao meio ambiente do que os medicamentos sintéticos, cujo processo industrial gera rejeitos e subprodutos que podem causar contaminação.
“Essas substâncias fazem parte do ciclo natural do ambiente e não degradam o ecossistema”, destaca.
Outro ponto de destaque é o fato de que as substâncias isoladas, como a olivacina e a uleína, apresentaram maior seletividade e menor toxicidade em comparação a fármacos já existentes. O grupo também obteve bons resultados com os extratos das plantas, embora a legislação brasileira não permita patentear diretamente substâncias naturais.

“Nós patenteamos a forma de extração, o isolamento e a formulação, todo o processo técnico que envolve o desenvolvimento do composto”, explica a pesquisadora.
A cientista lembra que a descoberta é resultado de mais de duas décadas de pesquisa, iniciada ainda em seu mestrado, e que envolveu uma equipe multidisciplinar com especialistas da UFMG e da UENF.
“Foi um trabalho de muitos anos, noites e feriados no laboratório, utilizando equipamentos de ponta e contando com o apoio de nomes importantes da área de elucidação estrutural, como o professor Raimundo Brás Filho”, relata.
Com a patente já concedida, o foco agora é aproximar o projeto do setor produtivo. A meta é atrair empresários e investidores interessados em novas alternativas terapêuticas, capazes de transformar o resultado acadêmico em um produto acessível à população.
“O apoio de empresas é essencial para que as descobertas científicas cheguem à sociedade, beneficiando pacientes e fortalecendo a inovação nacional”, conclui Nauvia.
A pesquisa continua sob coordenação da professora no Ifes, Campus Serra, em parceria com a UFMG e a UENF, e representa um passo importante na valorização da ciência capixaba e no uso sustentável da biodiversidade como fonte de esperança no combate ao câncer.

