O movimento da transição energética não é apenas ambiental: é também social
Por Marcelo Barbosa Saintive
Um levantamento recente do Instituto E+ Transição Energética, em parceria com o Net Zero Industrial Policy Lab da Universidade Johns Hopkins, aponta o Espírito Santo como um dos estados com maior potencial para se consolidar como um hub brasileiro de transição energética. O estudo assinala fatores que colocam o território capixaba em posição de destaque: uma base industrial diversificada e altamente intensiva em energia, infraestrutura logística consolidada, posição geográfica estratégica e abundância de recursos naturais que favorecem a produção de energia limpa.
Segundo os pesquisadores, o Estado reúne condições ideais para atrair investimentos em inovação e tecnologias limpas, tais como hidrogênio de baixa emissão, energia solar e eólica, biogás e captura e armazenamento de carbono (CCS). Essa vocação pode gerar um novo ciclo de desenvolvimento industrial sustentável, capaz de combinar crescimento econômico, inovação tecnológica e energia renovável.
Para que o potencial se converta em realidade, será necessário mais do que estudos técnicos. A transição energética demanda alto volume de recursos para financiamento estruturado, ambiente de negócios favorável e articulação institucional. É nesse ponto que entra o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes).
Projetos de energia limpa costumam ter alto custo inicial e retorno de longo prazo, o que dificulta a atração de capital privado. Bancos de fomento, como o Bandes, podem reduzir o risco desses investimentos, oferecendo instrumentos de dívida financeira, incluindo as linhas de crédito, em condições diferenciadas e estimulando a inovação verde. Ao financiar soluções tecnológicas sustentáveis, o banco atua como indutor da diversificação da economia, tornando-a mais competitiva e menos dependente de combustíveis fósseis.
Para além das linhas de crédito, o Bandes está contribuindo na estruturação de fundos temáticos voltados à descarbonização e à transição energética, atraindo recursos de organismos internacionais e de investidores interessados em finanças climáticas. Em 2021, O Espírito Santo aderiu à campanha global “Race to Zero”, apoiada pelas Nações Unidas, assumindo o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Esse compromisso tem orientado a formulação de políticas públicas e de instrumentos financeiros voltados à economia de baixo carbono. Nesse contexto, o Fundo de Descarbonização, com aporte de R$ 500 milhões do Fundo Soberano do ES, está sendo estruturado para fortalecer as cadeias produtivas verdes, em alinhamento às metas de redução de emissões do Estado.
A transformação da matriz energética capixaba também depende de coordenação entre o governo, o setor produtivo e as universidades. O Bandes tem condições de exercer esse papel de articulador, unindo iniciativas públicas e privadas em torno de uma estratégia comum. A criação de zonas industriais verdes, a implementação técnico e financeiro de projetos estratégicos em termos de impacto ambiental, a promoção de cadeias produtivas locais e o apoio a startups de base tecnológica são caminhos possíveis para consolidar o Espírito Santo como referência nacional em economia de baixo carbono.
O movimento da transição energética não é apenas ambiental: é também social. Cada projeto implementado gera empregos qualificados, fomenta a formação técnica e impulsiona novas oportunidades econômicas em regiões do interior. Essa é a essência do desenvolvimento sustentável — crescimento que distribui benefícios e respeita os limites ambientais.
O Estado possui capacidade técnica para desenhar políticas públicas aliadas a instrumentos financeiros adequados, poderá construir um modelo exemplar de desenvolvimento verde — capaz de inspirar outras regiões e consolidar o Espírito Santo como protagonista da nova economia de baixo carbono.
Marcelo Barbosa Saintive é diretor-presidente do Banco de Desenvovimento do Espírito Santo (Bandes).
*Artigo publicado originalmente na revista ES Brasil 229, de outubro de 2025. Leia a edição completa aqui.


