O agronegócio na Berlinda

André Pereira César é cientista político da Hold Assessoria Legislativa (Fotografia - Marcelo Yamashita)

“Uma frase lapidar do ministro Araújo sintetiza a nova orientação. Em palestra a jovens diplomatas, ele disse que “o Brasil não vai vender sua alma” para exportar commodities.”

Estratégico para o país como um todo e especialmente para o equilíbrio econômico, o agronegócio vive um período de incertezas. A aproximação do governo Bolsonaro com a administração Trump gerou inquietação em outros países, como a China e o mundo árabe, importantes consumidores de nossos produtos. A balança comercial brasileira pode ser severamente afetada.

O agronegócio, representado pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), apoiou a eleição de Bolsonaro. Agora, passados poucos meses da posse da atual administração, o setor vê com reservas a política externa, conduzida pelo chanceler Ernesto Araújo. A própria Sociedade Rural Brasileira, referência do setor, criticou a guinada tão à direita do governo Bolsonaro.

Uma frase lapidar do ministro Araújo sintetiza a nova orientação. Em palestra a jovens diplomatas, ele disse que “o Brasil não vai vender sua alma” para exportar commodities. A fala foi vista como um claro recado aos chineses, que, em resposta, sinalizam já estar em busca de outros mercados.

Ao ideologizar a política externa, o governo Bolsonaro, para o bem ou para o mal, dá novo sentido a ela.

No caso dos árabes, grandes importadores da carne de frango brasileira, a discussão sobre a mudança da embaixada brasileira em Israel, de Tel-Aviv para Jerusalém, gerou mais que desconforto. O ambiente é de desconfiança aberta.

Expoente do setor ruralista, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, está em sintonia com as queixas dos produtores agrícolas e organiza uma missão para a China no início de maio, com o objetivo de aumentar o número de estabelecimentos que podem exportar carne bovina, suína e frango para os chineses, além de aumentar a pauta exportadora para o país.

Durante jantar em Washington com a presença do presidente Bolsonaro, Tereza ressaltou a importância das exportações agrícolas do Brasil para a China – em tempo, o país asiático absorve cerca de 35% das vendas externas de produtos agrícolas do Brasil. O embaixador Sergio Amaral, que deve ser substituído em breve, foi na mesma linha.

A titular da Agricultura enfrenta ainda a pressão de seu partido, o DEM, que não se sente representado por ela. Nesse quadro, não será surpresa se a ministra, num futuro próximo, deixar o posto.

Pecunia non olet – “dinheiro não tem cheiro”. A expressão entrou na política brasileira durante a CPMI dos Correios, quando seu relator, Osmar Serraglio, usou-a na abertura de seu parecer. Ao ideologizar a política externa, o governo Bolsonaro, para o bem ou para o mal, dá novo sentido a ela. E o Brasil deve estar preparado para perda de espaço no comércio internacional, com todas as consequências negativas que isso trará.


André Pereira César é cientista político da Hold Assessoria Legislativa

Conteúdo Publicitário

Aproveite as promoções especiais na Loja da ES Brasil!