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segunda-feira, 17 maio, 2021

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Foto: Divulgação

Contam que o início da cantoria começou com o português e o índio. Este deu a primeira nota, primal. Não houve registro fonográfico mas até hoje sente-se a retumbância daquele acorde, provavelmente em sol maior

Por Manoel Goes Neto

Segundo historiadores e pesquisadores da Música Popular Brasileira, o estilo musical “Seresta” surgiu no Brasil no século XX, rebatizando a mais antiga tradição de cantoria popular das cidades, a serenata: “ato de cantar canções de caráter sentimental a noite, pelas ruas, com parada obrigatória diante das casas das namoradas. A serenata já apareceria descrita em 1505 em Portugal por Gil Vicente. No Brasil, o costume das serenatas seria referido pelo viajante francês Le Gentil de la Barbinais, de passagem por Salvador em 1717, ao contar em seu livro “Nouveau voyage autour du monde que”: “à noite só se ouviam os tristes acordes das violas, tocadas por portugueses (espadas escondidas sob os camisolões) a passear “debaixo dos balcões de suas amadas” cantando, de instrumento em punho, com voz ridiculamente terna”.

Mas, como em toda teoria, temos o contraditório, outra versão a se conhecer, a do escritor capixaba Rogério Coimbra, que considero um dos maiores críticos música do país, que em um dos seus excelentes textos, registra: “Contam que o início da cantoria começou com o português e o índio. Este deu a primeira nota, primal. Não houve registro fonográfico, mas até hoje sente-se a retumbância daquele acorde, provavelmente em sol maior. Vitória, então terra de índio, foi batizada com esse nome devido à derrota dos bugres para os portugueses, tendo um deles por aqui quase fazendo história”.

Prossegue Coimbra: “provavelmente entre 1549 e 1551, Francisco De Vaccas, o chefe da
Alfândega do donatário Vasco Fernandes Coutinho, destacou-se entre os nativos pelo seu
talento musical: era dono de uma voz invejável e de uma estonteante habilidade na
execução da viola. Ele é considerado pelos eminentes pesquisadores como o “Primeiro seresteiro do Brasil”. Sabedor dessa presença em nosso solo, um astuto jornalista local considerou o fato tão importante, tão importante, que achava que as autoridades deveriam erguer um monumento homenageando tão excepcional músico e também fosse motivo para massagear o ego capixaba; afinal tratava-se do pioneiro de uma arte brasileira. Presumiu-se que na verdade De Vaccas só alcançaria a fama e o sucesso na Bahia, para onde o artista partiu, em busca de um mercado mais sólido e agitado. E os baianos levaram o crédito daquilo que só nossos índios sabiam: a MPB havia nascido aqui, e não lá. Aqui ficamos, séculos afora, no silêncio indígena, alheios ao perverso processo de globalização pelo qual nossos costumes passavam”.

Verdade seja dita, os nossos primeiros ouvintes em terras capixabas foram homenageados
com nomes de ruas, viadutos e até com nomes de lojas de discos, que hoje já não existem
mais. Sem nos esquecermos da bela escultura “itinerante”, obra do artista Carlo Crepaz,
“Índio Arariboia” que hoje se encontra recluso nas dependências do histórico Clube
Saldanha da Gama, na Avenida Beira Mar, aos pés do Morro Penedo, de tantas batalhas e
glórias, aguardando um endereço digno e merecedor da sua história.

Manoel Goes Neto é Escritor e Subsecretário Municipal de Cultura de Vila Velha

ES Brasil Digital

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