Analista aponta pauta enfraquecida após manifestações não reunirem o público esperado; Capacidade de mobilização de Bolsonaro é destacada
Por Robson Maia
Com pedidos de anistia aos presos dos ataques à Sede dos Três Poderes em Brasília (DF) no dia 8 de janeiro de 2023, a manifestação organizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, e pelo pastor Silas Malafaia, neste domingo (16), recebeu adesão popular aquém do projetado pelos organizadores. Para o analista político Darlan Campos, a pauta sai enfraquecida diante da proposta de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso.
Ao longo da semana, temendo justamente o esvaziamento do principal ponto de manifestação, em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), Bolsonaro e Malafaia, solicitaram aos organizadores que cancelassem os atos previstos nas demais capitais brasileiras. A ideia, segundo fontes ligadas ao ex-presidente e ao líder religioso, era de concentrar forças para as manifestações na praia fluminense, um dos principais redutos bolsonaristas.
No entanto, mesmo diante da mudança de planos, o que se observou foi um quantitativo de apoiadores bem inferior a outras manifestações da direita política no recorte recente. De acordo com a Universidade de São Paulo (USP), o evento na orla de Copacabana reuniu cerca de 18 mil apoiadores, número bem inferior aos 400 mil divulgados pela Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ).

Na visão de Campos, a mudança repentina de rota, com o cancelamento de outros atos em capitais brasileiras, pode ter sido um dos erros nos cálculos dos organizadores. Para o analista, o desafio logístico de concentrar as ações no Rio de Janeiro em um curto espaço de tempo é um dos fatores que levaram à baixa adesão.
“As manifestações bolsonaristas se enquadram dentro de uma tentativa desse bloco de gerar pressão tanto no Congresso, quanto no STF, a respeito da pauta de 8 de janeiro. Isso acontece em um cenário de evolução das denúncias de Bolsonaro, imaginando até uma possível prisão dele, a depender do desenrolar dos próximos fatos”, pontuou o analista, que aponta o enfraquecimento da pauta.
“Esse tema sai enfraquecido, uma vez que a própria expectativa dos organizadores era de ter uma conta muito maior [de manifestantes] do que de fato teve efetivamente. Isso por um lado pode ser pela estratégia de condensar todas as mobilizações para um único lugar, foi toda para Copacabana. É um desafio um desafio logístico considerável, então essa decisão talvez tenha se mostrado errada”, prosseguiu.
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Segundo Campos, outro fator que implicou na presença menor de manifestantes foi a pauta central adotada pelos organizadores. Em primeiro plano, o ato pediu a anistia dos presos por envolvimento no ataque realizado à Sede dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, tema distante dos pedidos de saída e impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que abocanhavam apoiadores do chamado “centrão”.
“Essa pauta [anistia] mobiliza uma parcela dos eleitores, mas não uma parcela tão grande quanto se esperava. O chamado centrão tem outras pautas, o mesmo vale para a centro-direita. Esses dois agrupamentos precisavam ser bem convencidos para que o tema anistia avançasse no Congresso Nacional, mas não acredito que será assim.
Por outro lado, o analista chama atenção para a capacidade de mobilização que o ex-presidente possui, mesmo diante do cenário de um possível enfraquecimento político.
“Mesmo aquém do que se esperava, chama atenção como o Bolsonaro consegue mobilizar uma parcela fiel do seu eleitorado. Se o foco estivesse em um pedido de impeachment do presidente do Lula ou com propósito de contestar o que a extrema-direita chama de perseguição ao ex-presidente, os números certamente seriam diferentes”, observou Campos.

