Organização corrige informação e evidencia o padrão de invisibilização que atinge cidades fora da capital
Por Denise Miranda
O show do Guns N’ Roses em Cariacica, marcado para 12 de abril de 2026 no Estádio Kleber Andrade, está oficialmente liberado. O prefeito Euclério Sampaio (MDB) confirmou à reportagem da ES Brasil que autorizou o evento após a retratação dos promotores, que se desculparam por terem divulgado erroneamente que a apresentação ocorreria em Vitória.
O erro, segundo os organizadores em um vídeo enviado pelo prefeito, veio de uma informação repassada “de forma equivocada” pela própria banda norte-americana.
A correção, porém, trouxe à tona um debate que vai além da agenda cultural: o hábito recorrente de associar grandes eventos e empreendimentos à capital, mesmo quando acontecem em municípios vizinhos.
Apagamento municipal que incomoda
A reação de Euclério expôs um incômodo histórico. Para ele, incluir Vitória como sede do show reforça uma visão preconceituosa que desvaloriza Cariacica. A crítica não se limita ao episódio: representa uma prática arraigada na Grande Vitória, onde prestígio e visibilidade se concentram na capital, enquanto às demais cidades sobram impactos urbanos, operacionais ou ambientais.
Essa lógica é sentida de forma ainda mais intensa na Serra. O município convive há décadas com decisões que beneficiam Vitória, mas geram ônus locais. O polo industrial Civit se transformou em um núcleo de impactos ambientais; o Porto de Tubarão movimenta Carapina, mas a arrecadação maior fica para a capital; o cone do aeroporto limita a expansão urbana serrana; e a proposta da EPAR leva os dejetos tratados de Vitória para a Serra, liberando áreas nobres da orla de Camburi.
Essas decisões, somadas ao histórico administrativo de mais de 200 anos entre Serra e Vitória, formam um mosaico de desigualdades difíceis de ignorar. O caso do show apenas iluminou uma prática recorrente de “carimbar” iniciativas com o selo da capital, mesmo quando não pertencem a ela.
Não é a primeira vez. Durante anos, a Vitória Stone Fair ocorreu em Carapina, mas levava o nome da capital. A Serra, responsável por cerca de 25% de todo o mármore e granito exportado pelo Brasil, permanecia invisibilizada enquanto sediava o evento.
A gota d’água
A prática de “carimbar” iniciativas como se fossem de Vitória já se repetiu inúmeras vezes. A Vitória Stone Fair, por exemplo, ocorria em Carapina, na Serra, mas levava o nome da capital mesmo em um município que responde por cerca de 25% das exportações brasileiras de mármore e granito.
Com o Guns N’ Roses, o enredo se repete em Cariacica. Para a gestão municipal, atribuir o evento à capital reforça a ideia de que o prestígio depende de Vitória, não da geografia real. Euclério foi direto: o estádio é do Estado, mas o alvará é da Prefeitura — e o município merece ser citado corretamente.
O episódio, embora simples, reacende discussões sobre identidade, reconhecimento e distribuição de poder na região metropolitana. Para especialistas e gestores, tratar cada cidade com precisão é um passo indispensável para romper com uma cultura que, há décadas, invisibiliza Serra e Cariacica enquanto exalta a capital.

