Sony Cybershot, câmera digital dos anos 2000, vira tendência entre jovens que buscam espontaneidade, identidade e liberdade criativa
Por Jessica Coutinho
Em meio à era das imagens perfeitas, filtros excessivos e produção milimetricamente roteirizada, a Geração Z está resgatando uma estética que prioriza a espontaneidade. Fotos borradas, com flash estourado, granulação aparente e composição amadora voltaram a conquistar espaço nas redes sociais. É nesse cenário que câmeras digitais compactas dos anos 2000, como a Sony Cybershot, reaparecem como símbolo de autenticidade e liberdade criativa.
O movimento ultrapassa a nostalgia. Dados da Pequenas Empresas & Grandes Negócios mostram que a busca por câmeras digitais cresceu até 563% em 2024, impulsionada principalmente pelos jovens. No TikTok, Instagram e Pinterest, conteúdos que ensinam a editar fotos como se fosse 2007 se multiplicam, assim como ensaios inteiros produzidos com equipamentos da época.
Para muitos, a estética “imperfeita” carrega uma intenção: expressar sua identidade visual própria. “A Geração Z está reconstruindo os códigos visuais da internet. Eles não buscam apenas estética: buscam narrativa, significado e uma conexão mais honesta com o que produzem e consomem”, afirma Ricardo Steffen, Chief Growth Officer da Octoshop, marketplace voltado para criadores de conteúdo.

Segundo ele, o interesse pelas câmeras digitais cresceu de forma expressiva entre novembro de 2024 e maio de 2025. Nesse período, as vendas da linha Cybershot aumentaram 1.456%, movimentando R$ 89.946,53.
Para a fotógrafa e socióloga Tania Buchmann, supervisora do Núcleo de Fotografia do Centro Europeu, a volta da Cybershot revela um desejo de experimentar novas linguagens e sensações. “Existe, sim, um resgate nostálgico, mas há também o desejo de entender como as imagens eram feitas antes dos smartphones, como aquelas fotos antigas ganhavam aquele visual específico”, comenta.
Tania destaca ainda um fator central: a própria forma de fotografar. “No celular, tudo é instantâneo. Você fotografa, edita e publica. Com a Cybershot, é preciso parar, observar e pensar o clique. Isso exige mais do olhar de quem fotografa e é exatamente isso que atrai esses jovens”, observa.
O fenômeno se conecta a outros movimentos culturais que também resgatam estéticas do passado. “Na moda e nas artes, esse vai e vem é comum. Mas, quando falamos de tecnologia, a Cybershot representa um afastamento proposital da urgência. É uma fotografia que carrega memória, e não precisa provar nada para ninguém”, completa.
Ela ainda provoca uma reflexão sobre os próximos passos: “Com as restrições ao uso do celular em escolas, por que não levar uma compacta no bolso? Pode virar uma nova forma de registrar o cotidiano: mais livre, mais sensível, e menos refém da edição e da performance.”

