Eles estão vindo com tudo

Informados, determinados e ainda mais qualificados. esse é o novo perfil dos estagiários que estão mudando a percepção do mercado sobre a primeira oportunidade

Se você trabalha em uma empresa que conta com estagiários em seu quadro, com certeza já deve ter ouvido ou até mesmo brincado sobre as funções exercidas por esses jovens, que até pouco tempo atrás eram tidos como aqueles que só serviam para “fazer um cafezinho” ou “tirar uma xerox”. Mas é claro que o mundo mudou, ainda mais quando estamos falando do perfil da nova geração, que chega ao mercado com um olhar diferenciado. A evolução se justifica, principalmente, pelo avanço da tecnologia e da comunicação, o que torna os bolsistas mais preparados do que antes. Afinal, basta vermos a postura multitarefa que apresentam, realizando diversas responsabilidades ao mesmo tempo, um atributo muito vantajoso para as organizações que os contratam.

E a possibilidade de ganhos não para por aí: além de ser um processo de aprendizagem indispensável na vida de um estudante, tal experiência também pode elevar a produtividade e a reciclagem dentro da companhia. “A internet abriu uma gama de oportunidades de treinamentos e cursos gratuitos, que além da faculdade, podem melhorar a capacidade técnica dos estagiários. O fato de eles estarem inseridos no meio acadêmico também interfere de modo positivo, fazendo com que sejam trazidas ideias inovadoras.Essa visão, inclusive, contribui para aperfeiçoamentos de processos do dia a dia. Não podemos nos esquecer de outro fator determinante, que é falta de vícios comportamentais, normalmente encontrados em profissionais já há algum tempo no mercado”, disse a assistente de Diretoria do Centro de Orientação e Encaminhamento Profissional (Coep), Erika Gusmão. O maior instrumento de inserção de alunos no mercado permite ainda que a garra e a juventude destes se unam à experiência do time de colaboradores. Um mix de gerações e pensamentos que definitivamente pode fazer a diferença. E se você, empresário, ainda não se deu conta disso, está na hora de mudar a sua postura em relação a esse intercâmbio acadêmico e profissional.
A realidade do estágio no Brasil

Levantamentos mais recentes da Associação Brasileira de Estágios (Abres), referentes a 2014, mostram que o país conta com 740 mil bolsistas nessa modalidade matriculados em cursos do nível superior e 260 mil frequentando aulas do ensino médio/médio técnico. Os dados representam redução de 9,1% se comparados a 2008, quando o país apresentava 1,1 milhão de jovens atuantes nesse cenário. Por conta da crise econômica, o declínio foi ainda mais acentuado de 2015 para 2016, segundo a Agência Brasileira de Emprego e Estágio (Abre). “Isso começou em meados de julho do ano passado, quando sentimos uma retração no mercado, o que se agravou com o passar dos meses. Até mesmo na virada do ano (período em que ocorre uma quantidade alta de substituições) esse número não aumentou.

Tivemos uma queda de 30% a 35% nas chances em todo o país. O bom é que essa realidade já começa a dar sintomas de  uma retomada de contratação de estagiários, principalmente neste último mês”, revela Fernando Linschoten, diretor da entidade. Mesmo que a oferta de oportunidades ainda seja significativa no Estado, indicadores do Centro de Integração Empresa Escola do Espírito Santo (CIEE-ES) registram uma baixa de 20% nas contratações neste ano. Para se adequar, muitas empresas estão optando por diminuir o valor da bolsa-estágio para que possam elevar o total de vagas. Por exemplo, em vez de terem um profissional com um auxílio de R$ 700 ou R$ 800, organizações estão preferindo ter dois, no valor de R$ 500 cada.

E apesar da recessão estar muito presente na vida dos brasileiros, principalmente junto aos empresários, o índice de efetivação após o período de estágio é de 60%, calcula a Abre. “Nós entendemos que é melhor ter duas pessoas tendo experiência do que uma só. Até porque os estagiários são os que mais sofrem em períodos como este”, complementa Linschoten. A crise de desemprego atual, uma das piores das últimas décadas – 10,2% da população não têm ocupação formal, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, tem feito com que muitos gestores e empreendedores enxerguem essa opção  como importante ferramenta para redução de custos trabalhistas. Como a Lei do Estágio (Lei 11.788, de 25 de setembro de 2008) prevê a isenção de praticamente todos os encargos sociais incluídos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), fica ainda mais interessante o investimento por parte das empresas, que podem injetar seus recursos financeiros em programas, cursos e especializações para qualificar ainda mais o bolsista.

Afinal, por não ser caracterizado um vínculo empregatício de qualquer natureza, ele não é cadastrado no PIS/Pasep, não faz jus ao aviso prévio em caso de rescisão contratual e não conta com o 13º salário no final do ano. Ao estudante, também não se aplicam as obrigações relativas a contrato de experiência, contribuição sindical, um terço sobre férias (recesso) e verbas rescisórias.

Mas mesmo que essa tendência revele uma alternativa temporária para as organizações, a legislação determina que o estágio não deva substituir as vagas formais de trabalho. “As empresas não podem e não devem considerar o estágio como uma forma de reposição de profissionais, até porque se trata de uma complementação da formação do aluno. Mas é evidente que neste momento, ele pode auxiliar as empresas a se preparar e se organizar para a retomada da economia, por ter um custo menor. Pode até ser uma alternativa na situação atual, mas é importante que os gestores se lembrem de que o estagiário não tem conhecimento para substituir um profissional já formado e que está há algum tempo na ativa”, afirma o superintendente executivo do CIEE-ES, Jossyl Cesar Nader.

De acordo com Marianne Limonge, diretora comercial da Psicoespaço, a separação entre as funções exercidas por colaboradores já diplomados e por jovens que ainda estão ingressando no mundo corporativo tem que ficar muito bem definida. “É preocupante olhar o estágio dessa forma, porque na verdade ele é uma fase de aprendizado; então depende muito do objetivo da empresa. Se ela quiser profissionais qualificados, não vai adiantar contratar estagiários; mas se for essa parceria de aprendizado e troca, vale a pena. Caso seja apenas uma redução de custos, pode ser um complicador, porque o bolsista não está pronto para oferecer o que os gestores querem. Pode estar mais qualificado em termos comportamentais (de atitude e postura), mas a parte profissional, ele ainda não tem”, alerta.

Uma via de mão dupla

A diminuição de gastos proporcionada pelos serviços de estagiários – mesmo que não seja o foco principal desse tipo de mão de obra – é apenas um dos inúmeros benefícios trazidos por meio desses jovens. Uma via de mão dupla que propicia não só o aprendizado dos alunos, como também o estímulo à inovação e às mudanças no processo organizacional; a criação de um canal eficiente para acompanhamento de avanços tecnológicos e conceituais;  a descoberta de novos talentos; a formação e o aprimoramento de futuros profissionais; e a oxigenação permanente no ambiente corporativo. “O jovem chega ao mercado com uma ‘sede’ muito grande em adquirir sabedoria e experiência.
O envolvimento dele está ainda maior”, acrescenta Jossyl Nader.

Além da possibilidade de contar com um colaborador aberto a novas experiências, os gestores também podem “moldá-lo” de acordo com as necessidades e o perfil do negócio, pois ainda não há vício comportamental presente. Outra vantagem é o convívio dos acadêmicos com empregados mais experientes, o que cria e mantém um espírito de renovação. Mas para que a execução das tarefas seja feita da melhor forma possível, é preciso incentivar o desejo de crescer. E se as vantagens são boas para empresas, imagine para os estudantes. Há casos até de profissionais que optam por deixar a ocupação de carteira assinada para se entregar de corpo e alma a essa experiência, como a estudante de Administração Hedcelly Reis, que estagia há quase dois anos na Medabil, indústria do setor de estruturas metálicas, localizada na Serra.

“Eu atuava como assistente de Gestão de Pessoas, e era um pouco difícil conciliar um trabalho de oito horas diárias com a faculdade. Por conta disso, resolvi me arriscar no estágio, pois acreditei que esta seria uma ótima opção para adquirir conhecimento e ainda ter uma carga horária um pouco mais reduzida, o que iria contribuir com meu foco nos estudos. Não me arrependo nem um pouco, vejo que tomei a decisão certa, pois no estágio é possível adquirir conhecimentos  que por muitas vezes não são disponibilizados em empregos  de carteira assinada”, acrescenta a estudante.

De acordo com Melissa Liberato, coordenadora de Recursos Humanos da Medabil, a valorização a esse perfil de colaborador é comprovada pelo índice de contratação dos estagiários,  que chega a 80% na companhia. “Nós somos uma empresa que tem um conhecimento técnico muito específico e, por conta disso, não temos tanta facilidade em achar mão de obra técnica. Uma das formas que identificamos para treinar as pessoas é através do estágio, e com a intenção de contratar depois. É claro que nem todos conseguimos contratar, mas a grande maioria foi efetivada”, comenta.

A possibilidade de uma efetivação abre as portas para um cargo de maior relevância dentro da organização futuramente, como aconteceu com a gerente de Operações do CIEE-ES, Valquíria Dadalto, que iniciou a sua trajetória na ONG quando tinha apenas 16 anos. “Quando eu entrei como estagiária, não imaginei que o meu desejo de ser efetivada poderia se concretizar. Afinal de contas, todo mundo sonha em trabalhar com algo que se identifica.  O fato de saber que poderia dar oportunidade a outros jovens de participarem do mesmo processo de aprendizado que o meu fez com que eu tivesse um empenho ainda maior dentro do CIEE-ES. Acredito que o fundamental para ser feliz nessa empreitada é ter identificação com o propósito e os direcionamentos da empresa”, destaca.

Mas para que seja dada a largada nessa jornada de sucesso, o estagiário precisa estar atento a certas questões cruciais na visão dos empregadores. De acordo com Sharla Bitencourt, assessora de Gestão e Qualidade da Selecta, uma mudança de perfil já vem sendo notada dentro do mercado. “O que a gente vem percebendo é que houve uma modificação no modelo de contratação e de responsabilidade desses jovens, que antes faziam atividades mais subjacentes, com atribuições voltadas para questões de rotina e da parte operacional, algo que poderia não agregar tanto à sua área de formação. E mesmo que eles não tenham poder para assinar um documento, por exemplo, já possuem certa responsabilidade,  além de apresentar um nível de iniciativa ainda maior, participando, inclusive, de reuniões com os gestores. Esses jovens estão vindo com uma outra visão de mundo;  querem um nível de satisfação e um sentido maior no que estão fazendo”, explica.

E como não é necessário ter experiência para conseguir uma bolsa, outros fatores são levados em consideração pelos contratantes, como a postura frente aos desafios, uma realidade muitas vezes também vista na hora de contar com os serviços de um recém-formado, conforme aponta Marianne Limonge, da Psicoespaço. “As atitudes dos profissionais estão incomodando mais do que a falta de habilidade técnica, o que tem feito com que as empresas prefiram investir em alguém com muita vontade de aprender, de crescer e de ter uma carreira bem consolidada. Ou seja, muitas estão optando por pessoas com disponibilidade para o mercado, em detrimento daqueles já prontos que não possam contribuir de maneira eficiente com essa questão atitudinal”, opina.

Nesse sentido, é óbvio que a qualificação precisa estar sempre presente. O aprendizado deve ser diário. “Muitas pessoas ainda não se deram conta da necessidade constante de capacitação. Não dá mais para achar que ter um MBA ou uma pós-graduação é suficiente. Tem que estar atento a tudo o que está acontecendo. E não é preciso ter muito dinheiro para fazer isso, existem muitas palestras e cursos gratuitos para acompanhar as tendências do mercado. Mas para que o sucesso ocorra, seja você estagiário ou até mesmo um profissional com experiência no mercado, é necessário ter muita humildade e disponibilidade para constatar que o aprendizado tem que ser feito diariamente”, finaliza.

 A matéria acima é uma republicação da Revista ES Brasil. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.
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