20.9 C
Vitória
segunda-feira, 21 junho, 2021

Eleições 2020: você vai ficar de fora dessa decisão?

Especialistas alertam para a possibilidade de recorde
de abstenções, o que prejudica demais o processo democrático

Por Luciene Araújo

Lá vamos nós rumo a mais um momento decisivo para o futuro de nossa cidade. Mas, a poucos dias de definirmos nas urnas quem “será o prefeito e quais os vereadores” de nosso município, muitos eleitores se mostram desanimados de participar dessa importante decisão.
Pesquisas apontam que a quantidade de descrentes do poder do voto na melhoria do mecanismo político supera os 30% em alguns locais. Um índice capaz de mudar, praticamente, todos os resultados. Para ilustrar o peso das abstenções, basta conferir os números dos últimos pleitos no Espírito Santo e no Brasil.

Nas eleições de 2016, o atual prefeito de Vitória, Luciano Resende, obteve 95.458 votos (51,19%), vencendo Amaro Netto por 4.424 votos, num cenário de 30.944 eleitores que não foram às urnas. Isso significa que a administração da cidade poderia estar nas mãos de outro grupo se menos de 15% dos faltosos tivessem escolhido Amaro Neto. Claro que, da mesma forma, a vantagem de Luciano sobre seu adversário poderia ter sido muito maior.

Em Vila Velha, apesar de o prefeito eleito Max Filho ter conquistado 36.240 votos a mais que seu adversário Neucimar Fraga, os 77.312 eleitores que não participaram do processo, o que significa 24,42% dos moradores aptos a decidirem seus representantes no comando da cidade, também poderiam ter mudado esse resultado. E se somarmos os votos brancos e nulos, esse montante sobe para 113.134, em um cenário em que o prefeito foi eleito com 119.872 votos.

Por fim, vamos relembrar os números no município da Serra. O prefeito eleito Audifax Barcelos conquistou 112.344 votos, enquanto 107.050 moradores da cidade entenderam que seu adversário Sérgio Vidigal seria a melhor opção, uma diferença de 5.294 votos. A soma de votos brancos (7.232), nulos (12.265) com as abstenções (69.248) totaliza
88.745 eleitores.

 

Realidade nacional

Uma realidade que se repetiu fora da Grande Vitória. “Quando deixa de comparecer para votar, alguém faz essa escolha em seu lugar. Para a democracia e o sistema de representação política funciona como um processo de depreciação, uma vez que é pelo voto que legitimamos os eleitos para governar e legislar. Em 2016, Sergio Meneguelli, venceu a disputa para prefeitura de Colatina com apenas 30,2% dos votos válidos, ficando 5.214 votos à frente do segundo colocado; porém 17.555 eleitores não compareceram para votar. Se todos tivessem ido às urnas, o resultado seria o mesmo? Eis a questão”, avalia Lucas Margotto, analista-chefe da Brand Pesquisas, especialista em eleições.

Na última disputa na esfera municipal, um em cada cinco eleitores se absteve de votar no Espírito Santo. Na esfera nacional, as abstenções somadas aos votos brancos e nulos somaram 32,5% do eleitorado do país. E quase 7,1 milhões não compareceram às urnas no 2º turno. Os votos nulos, brancos e abstenções “venceram” as eleições em 22 capitais.
Dois anos depois, o percentual de votos nulos no segundo turno das eleições presidenciais chegou a 7,4%, o maior registrado desde 1989, totalizando 8,6 milhões. Isso significou um aumento de 60% em relação ao 2º turno da eleição presidencial de 2014, quando 4,6% dos votos foram anulados.

“Se for confirmada a tendência verificada nos dois últimos pleitos, deveremos ter a maior taxa de abstenção da história das eleições desde a Nova República”- Darlan Campos, cientista político

Ao todo, 31,3 milhões de eleitores não compareceram às urnas. E somando os votos nulos e brancos com as abstenções, 42,1 milhões de eleitores não escolheram nenhum candidato, cerca de um terço da população apta a votar. Na Grande Vitória, mais de 230 mil eleitores não votaram no 2º turno.

Aos 32 anos, moradora da capital capixaba, a assistente social Paula (nome fictício a pedido da entrevistada) decidiu que não iria votar nas últimas eleições. “Quando ficou definido nas pesquisas quem seriam os candidatos no segundo turno para presidente, me neguei a sair de casa. Até hoje, quando reclamo de algo que considero ruim no pro Brasil, seja cometido pela direita ou pela esquerda, como se o país se reduzisse a isso, meu marido e meu filho jogam na minha cara que não posso falar nada, porque não participei do processo”.

Por que desistir?

Mas, que fatores são capazes de afastar um eleitor das urnas este ano? Na avaliação da consultora de marketing político e empresarial Jane Mary Abreu, embora seja grande a desconfiança em relação aos políticos, a descrença de muitas pessoas na moralização dos representantes, dessa vez tem uma pandemia no meio do caminho e ela fará toda a diferença no resultado final. “O motivo mais forte é o clima de desânimo provocado em quase todo mundo. A pandemia produziu muito medo, muita ansiedade e, principalmente muita incerteza com relação ao futuro. Há muita desesperança”.

Recente pesquisa nacional, realizada pela Exame Research, mostra bem isso: 21% dos entrevistados não devem votar por causa da pandemia; 50% ainda não escolheram o candidato. Nas classes D e E, esse número sobe para 63%. Entre esses, 27% disseram que vão definir o voto na última semana, enumera Jane.

 

 

Nesse contexto, ela acredita que a penalidade de R$ 3,50 por não votar será a opção de muitos eleitores. “Os organismos de saúde têm alertado com muita insistência sobre o risco das aglomerações. O eleitorado com mais idade certamente vai pensar 10 vezes antes de sair de casa. E agora que voltou o lockdown na Europa, os eleitores do grupo de risco não vão querer arriscar a vida por causa da política. Nesse caso, é mais interessante pagar a multa”.

Mas, Jane reitera a importância do voto. “Uma abstenção alta representa uma derrota para a democracia, porque o vencedor não vai ser aquele que teve o apoio da maioria. A representação política se enfraquece. “Bolsonaro recebeu 40% dos votos contra 32% de Haddad. Somando as abstenções, brancos e nulos, totalizou 28%. Ou seja, não foi a maioria que escolheu o presidente eleito. Esses 28% fizeram a diferença, poderiam ampliar a vantagem de Bolsonaro ou virar o jogo.

“Dividir o país em duas trincheiras é um desastre para a democracia… O negócio é pensar grande, sentir grande e agir grande. Isso sim dignifica o ser humano.” – Jane Mary, consultora de marketing político e empresarial

A democracia foi ferida, o resultado final não representou o desejo da maioria por causa da abstenção”, aponta Jane. O cientista politico Darlan Campos também enfatiza a preocupação com o crescente número de abstinências. “Se for confirmada a tendência verificada nos dois últimos pleitos, deveremos ter a maior taxa de abstenção da história das eleições desde a Nova República. Porque além da descrença na mudança real que faz com que muitos eleitores se sintam menos impulsionados a participar do processo político, este ano temos ainda a probabilidade de, frente à pandemia, que alguns grupos de risco deixem de votar, especialmente os idosos para quem o voto é facultativo.”, aponta Campos.

A força da rede

Não há como negar que a internet se estabeleceu realmente como o principal veículo de divulgação das campanhas. “Os impulsionamentos nas redes sociais têm tido um alcance muito bom e tem formado os eleitores. Este ano, cerca de 30% dos eleitores vão se informar através das redes sociais. O contato com o candidato sempre foi importante no processo político. As pessoas querem conversar com o candidato, querem abraçar, por isso a maioria entre os que estão concorrendo não deixou de ir às ruas. Mas, ainda que se as caminhadas não tenham deixado de existir, elas têm um impacto mais reduzido, porque as redes sociais alcançam um público direcionado”, avalia Sergio Denicoli, pós-doutor em Comunicação e diretor analista da AP Exata.

Por outro lado, o especialista destaca que o excesso de informação tem provocado certa saturação nas pessoas. “Os grupos do WhatsApp, que foram muito efetivos na campanha presidencial, perderam a força este ano, porque tem muita gente militando nesses grupos, muitos candidatos a vereador, a prefeito. O eleitor está um pouco cansado desse excesso de informação”.

Denicolli aponta ainda que a falta de debates com a presença de todos os candidatos representa um prejuízo para o processo democrático. “Esse é um momento em que se discute o futuro das cidades, as pessoas que querem representar a cidade, gerir seus municípios, precisam conversar com o eleitor. E apenas pela internet, essa relação é muito pouco efetiva, porque ali se vê uma projeção do candidato, não ele em si. Nesse sentido, os tradicionais debates eram muito importantes para decisão do voto. E a ausência deles faz com que a eleição se torne um pouco fria. Prova disso é que, faltando apenas 15 dias pra irmos ás urnas, muitas pessoas não estão nem informadas de quem são os candidatos e muita gente vai decidir em cima da hora”.

Segundo ele, além da diminuição da atividade de rua, uma série de possibilidades de divulgação de uma campanha- como faixas, brindes ou o carro de som sem o candidato – foi proibida, e isso aumenta o desafio do candidato na tarefa de “se apresentar e convencer” o eleitor, em um cenário em que as eleições municipais não estão despertando o interesse que deveriam. “De qualquer forma, entendo que o brasileiro está mais politizado e mais atento. Vamos aguardar para conferir os resultados da urna, mas me parece que população tem recorrido muito a pessoas que apresentam uma experiência de gestão, o eleitor tem estado um pouco mais atento à capacidade do candidato de gerir. E isso é bastante positivo, já é um indício de que o está um pouco mais politizado do que ele era”, finaliza Denicolli.

 

Escolha emocional

Mas será que o eleitor está mesmo mais consciente? Jane Mary concorda com a colocação de Denicolli de que a cada ano o eleitor expressa mais maturidade, querendo conhecer as propostas para depois definir o voto. No entanto, ressalta um fenômeno do processo político brasileiro: o fator emocional continua sendo determinante para a definição do voto. “No final das contas, o eleitor vota naquele que tocou o seu coração. Isso tem uma explicação científica: qualquer decisão de compra é feita pela emoção. E uma eleição nada mais é do que um sistema de compra e venda, onde o candidato oferece um produto e o eleitor compra as suas ideias. O ser humano é movido pela emoção em todas as circunstâncias da vida, queiram ou não acreditar os racionalistas”, explica a consultora.

Ela também faz uma dura crítica à polarização extrema, que classifica como um desastre ao sistema democrático e ainda pior à evolução humana. Segundo Jane, o ser humano ainda não se deu conta de que é um “ser multidimensional, e jamais deveria aceitar ser reduzido a conceitos tão estreitos, como ser de esquerda
ou de direita”.

“Dividir o país em duas trincheiras é um desastre para a democracia, que pressupõe a convivência saudável entre pessoas que pensam diferente umas das outras. A pluralidade de ideias e o respeito mútuo é o que há de mais bonito nas sociedades civilizadas. O negócio é pensar grande, sentir grande e agir grande. Isso sim dignifica o ser humano.”, finaliza a consultora.

“Não é possível criticar o político corrupto e se corromper na hora de votar… A gente tem que começar a mudança pelo nosso metro quadrado”- Willian Douglas, juiz federal

Responsabilidade

Mestre em Direito e pós-graduado em Políticas Públicas e Governo, o juiz federal Willian Douglas, também professor universitário e conferencista, reitera o quão prejudicial para todo mundo, a polarização extrema na política. “A incapacidade de dialogar representa a contramão da democracia. A polarização extrema é muito ruim, essa polarização de bolha, na qual a pessoa não respeita a outra, não ouve quem pensa de forma diferente, na qual só conversa com quem pensa igual. Isso é muito ruim, pois assim como do atrito nasce a luz, do debate nasce o amadurecimento das ideias.”, defende o magistrado.

Ele destaca que, mesmo diante de todas as dificuldades e problemas, a democracia ainda é o melhor caminho para melhorar o país e a sociedade. “A gente tem de investir na democracia, na liberdade de opinião e de voto. Buscar uma pauta de interesses em comum, algo que esteja acima das divergências político-partidárias, religiosas. A gente tem de aprender a lidar com a diversidade na sociedade.

É preciso desenvolver o respeito mútuo entre os cidadãos e o respeito dos cidadãos à lei e às autoridades, assim como, óbvio, as autoridades precisam respeitar o povo, que é o titular do poder, vale lembrar”. Por fim, faz um alerta sobre a responsabilidade dos eleitores de participarem do processo e terem coerência entre o discurso e a ação. Assim, não negociarem valor algum para o voto.

“Se você acha que está ruim e decide não participar, não estará dando contribuição nenhuma para melhorar. Vai ficar mais difícil consertar as coisas. E quando uma pessoa vende seu voto ou troca por um favorecimento qualquer, significa desperdiçar a chance de melhorar a própria vida, a vida de sua família e amigos. Significa aumentar a cultura da corrupção. Não é possível criticar o político corrupto e se corromper na hora de votar. A corrupção é ruim para todos. Então, o primeiro passo é a própria pessoa não se corromper. A gente tem que começar a mudança pelo nosso metro quadrado”.

- Publicidade -

Matérias relacionadas

ES Brasil Digital

Continua após publicidade

Fique por dentro

Vida Capixaba

Continua após publicidade