
Escalada das tensões na região amplia riscos inflacionários globais, produz efeitos distintos entre as economias e exige cautela adicional na condução da política monetária
Por Clóvis Vieira
O avanço das tensões no Oriente Médio já começa a produzir efeitos concretos na economia global. O primeiro deles é a alta do petróleo, que voltou a reagir diante do risco de prolongamento do conflito e das incertezas políticas no Irã. Esse temor ganhou força após a sucessão no comando iraniano reforçar a ala mais dura do regime.
Mesmo com o presidente Trump sinalizando preferência por uma intervenção curta, o cenário permanece altamente incerto. E, ainda que o choque venha a se mostrar transitório, a redução potencial da oferta já começa a produzir efeitos, pressionando a inflação global.
Caso o conflito se estenda, a elevação dos custos de combustíveis tende a tornar ainda mais lento o recuo da inflação nos Estados Unidos. Isso ocorre justamente em um momento em que o mercado de trabalho dá sinais de arrefecimento, ampliando o desafio do Federal Reserve para cumprir seu duplo mandato: controlar a inflação e preservar o nível de emprego.
Na Europa, o impacto tende a ser mais sensível, dado o grau de dependência energética da região em relação ao Oriente Médio. A China, por sua vez, pode absorver melhor o choque, graças ao elevado nível de reservas estratégicas e à capacidade de ampliar compras de petróleo de países sancionados, como a Rússia.
Nos países emergentes, os impactos tendem a se distribuir de forma desigual.
No Brasil, os efeitos diretos da alta do petróleo tendem a ser mais moderados, em parte devido ao controle da Petrobras sobre os preços domésticos de combustíveis. Ainda assim, diante da defasagem já elevada entre os preços internos e internacionais, caso a pressão persista por mais algumas semanas, algum repasse ao consumidor final se tornará provável. Nesse contexto, uma eventual redução da tributação sobre combustíveis poderia suavizar o impacto.
Do ponto de vista da atividade econômica, o choque provocado pelo conflito pode gerar efeito líquido moderadamente positivo para o país, impulsionado pela indústria extrativa e por setores ligados a combustíveis alternativos. Para o agronegócio, porém, o quadro tende a ser menos favorável, com possíveis elevações de custos, especialmente em fertilizantes.
Diante desse cenário, reforça-se a necessidade de cautela por parte do Banco Central. Embora um corte de 50 pontos-base ainda seja o cenário mais provável para a reunião do Copom de 18 de março, voltou a aumentar a probabilidade de uma redução mais moderada, de 25 pontos-base. Em um ambiente internacional ainda marcado por forte incerteza, a condução da política monetária exigirá prudência redobrada.
Clóvis Vieira é economista e consultor de empresas

