Parados – Como descomplicar o trânsito na Grande Vitória?

Como descomplicar o trânsito na Grande Vitória?

Melhorar o trânsito na Grande Vitória. Que desafio! Porém, iniciativas para facilitar os deslocamentos e promover a fluidez já foram adotadas

A enfermeira Raceli Antonio Venturini poupa, diariamente, cerca de uma hora no trajeto que faz de casa para o trabalho e vice-versa graças à troca do transporte coletivo pela bicicleta como meio de locomoção. Além de praticar atividade física – já eliminou quase 30 quilos –, ela foge de um problema que ainda é uma grande reclamação da maioria dos moradores da Grande Vitória: o engarrafamento. Esse já é uma alternativa pessoal de melhorar o trânsito na Grande Vitória.

Solucionar os obstáculos da mobilidade urbana nos grandes centros ainda é um desafio, inclusive no Espírito Santo. Para especialistas, ações como investimentos em hidrovias e em transportes coletivos, readequação de calçadas e ampliação de ciclovias e rodovias surgem como alternativas para amenizar esse gargalo. No inciso II do artigo 4º da 12.587/2012, mobilidade urbana é conceituada como sendo a condição em que se realizam os deslocamentos de pessoas e cargas no espaço urbano.

A arquiteta e urbanista Alda Boechat enfatiza que, embora a referida lei já esteja em vigor há sete anos, poucas cidades têm um plano concreto para sua implementação. “O objetivo é apresentar ações de melhoria do transporte público, vias de acesso e ligação entre as cidades dos grandes centros, construção de ciclovias e ciclofaixas, integração dos meios de transporte e utilização de meios alternativos, como é o caso do nosso aquaviário desativado, adequação das políticas de transportes alternativos e estímulo à construção das calçadas cidadãs, entre outras medidas”, informa.

Segundo a especialista, outras soluções também podem ser tomadas para tornar a mobilidade ainda mais sustentável, como o incentivo de veículos movidos por energia renovável, realidade que já existe no Brasil, e troca do combustível fóssil e poluente por energia limpa, além de outros meios alternativos como os teleféricos.

“Nossas cidades não trazem segurança aos ciclistas. O usuário desse sistema tem de competir de forma desvantajosa com os veículos automotores” – Alda Boechat, arquiteta e urbanista

Uma maneira para melhorar a mobilidade é diversificar o uso do solo, ou seja, misturar as diversas atividades com os locais de moradia, que diminuiria as necessidades de deslocamentos motorizados, defende o arquiteto Gilson Jacob Bergoc, doutor em Planejamento Urbano Regional e docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina. “Também é necessário melhorar a eficiência do transporte de massa, adotando tecnologias mais modernas e sustentáveis, integrando diferentes modais, priorizando e estimulando seu uso”, destaca.

Alda Boechat também aponta que melhorias nas condições de transportes públicos amenizaria os problemas relacionados à mobilidade. “Em se tratando da Região Metropolitana de Vitória, que não foge à regra de outras regiões do país, a oferta ainda é muito aquém das necessidades da população, com veículos coletivos lotados nos horários de saída e entrada de trabalho e escola, ainda que tenha melhorado relativamente o número de linhas. Além disso, outro problema é a falta de fluidez entre alguns pontos da cidade, fazendo com que seja necessária a utilização de duas ou mais linhas para se chegar ao destino desejado.”

Mobilidade
Fonte: PMV
Impactos

Um dos maiores impactos da falta de mobilidade é o tempo que grande parcela da população perde no sistema de transporte. Estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) mostrou que nas grandes metrópoles brasileiras o tempo médio de deslocamento casa-trabalho variava entre 31,5 minutos em Belém e 42,8 minutos em São Paulo no ano de 2010 (Ipea, 2013). Esse mesmo estudo comparou tal quadro com outras metrópoles mundiais e constatou que os tempos médios nas regiões metropolitanas brasileiras ficavam acima daquelas, perdendo apenas para Xangai. Outra conclusão é que em 1992 quase 15% da população, nas regiões metropolitanas brasileiras, gastavam mais de uma hora nas viagens casa-trabalho; e em 2009 esse contingente tinha aumentado para cerca de 17,5%. “Esse tempo é literalmente perdido pelas pessoas, pois elas ficam praticamente inertes, sem poder fazer nada. É um tempo que se privam de ficar com a família ou de fazer alguma atividade que poderia dar maior prazer à vida e que não pode ser compensado de nenhuma forma.

O uso das tecnologias de comunicação contribui, atualmente, para diminuir um pouco o tédio desses momentos, mas não é suficiente”, explica o arquiteto Gilson Jacob Bergoc. Ele complementa: “A falta de mobilidade também colabora para aumentar o estresse, o nervosismo das pessoas que ficam ‘presas’ no trânsito, com consequências negativas para a saúde e diminuição da produtividade, entre outras dificuldades que atingem os indivíduos cotidianamente”.

O especialista Pablo Lira faz uma análise dos problemas e sugestões de descomplicações que o trânsito pode passarOutro problema ocasionado pela falta de mobilidade urbana é o avanço da poluição atmosférica. A quantidade de material particulado, monóxido de carbono (CO) e óxidos de nitrogênio (NOx), entre outros elementos, emitida pelos veículos movidos a combustível fóssil vem crescendo constantemente. Estudo dos ministérios dos Transportes e das Cidades de 2013 estimou uma alta de 51,6% entre 2010 e 2020, com danosas consequências ambientais.
O número de mortos e feridos no trânsito também é um sério fator causado pelas características da mobilidade brasileira, e não pela sua “falta”. Foram 35.374 óbitos em 2017 e mais de 1,6 milhão nos últimos 10 anos. É uma pessoa morrendo a cada 12 minutos.

Embora de 2016 para 2017 tenha se verificado uma queda de quase 6%, a tendência nos últimos 10 anos é de elevação, devido principalmente à expansão da frota de veículos. “O mais assustador é que a faixa etária mais atingida está entre 20 e 39 anos, significando que a juventude brasileira é a grande vítima. Será preciso um grande esforço, em todos os níveis de governos e regiões do país, para reduzir essa verdadeira epidemia urbana”, assinala Bergoc.

Há um paradoxo em relação à falta de mobilidade, identificado em pesquisa feita em 2017 pelo Instituto Clima e Sociedade – ICS – (Mobilize, 2018), cuja conclusão é que “há forte apoio popular para melhorar as condições de mobilidade urbana por meio do transporte público, mas a péssima visão que as pessoas têm das concessionárias de ônibus, trens e metrô, a insegurança e a falta de conforto ainda fazem as pessoas apontarem o carro como meio de locomoção ideal no Brasil”.

Geradores de problemas

Gilson Jacob Bergoc explica que os problemas de mobilidade estão relacionados ao porte da cidade, às características de renda da população e ao perfil do sítio físico, entre outros aspectos. “Pode-se afirmar, com certo grau de certeza, que a baixa mobilidade das cidades, principalmente das que possuem mais de 1 milhão de habitantes, ocorre pela combinação do privilégio do transporte individual motorizado sobre o transporte de massa. A baixa eficiência do sistema de transporte de massa se dá por diversos fatores, entre os quais cita-se a infraestrutura viária inadequada para o transporte de grande quantidade de pessoas”, informa.

Segundo ele, também o desenho da cidade, que foi concebido segundo os interesses dos loteadores e da iniciativa privada, gerando uma malha muito irregular e vias inadequadas, entre outros problemas, contribui para a baixa eficiência do transporte de massa. “Mais um aspecto a se considerar é a concentração espacial das atividades na cidade: algumas áreas concentram o comércio e serviços; outras, as indústrias; outras, os órgãos da administração pública; outras, as residências. Além disso, alguns equipamentos que atendem a grandes quantidades de pessoas, tais como hospitais, universidades e centros esportivos, também podem gerar problemas de mobilidade. Pode-se simplificar dizendo que há uma grande concentração de empregos em alguns lugares. Já em outras áreas estão localizadas as moradias, o que acaba gerando grandes necessidades de deslocamento diários das pessoas.”

“Questões relacionadas à mobilidade urbana estarão em pauta na InovaWeek 2019, ação multidisciplinar da UVV que engloba todas as áreas do conhecimento e vai acontecer entre os dias 17 e 20 de setembro” – Geisiane Silveira, diretora de Planejamento e Ensino de Graduação da Universidade Vila Velha (UVV)

Para Alda Boechat, problemas com os transportes alternativos que vêm surgindo nos últimos tempos, como bicicletas compartilhadas e patinetes, também interferem na mobilidade. “Sem dúvida, a presença deles contribui com a mobilidade urbana, porém as nossas cidades não trazem segurança aos ciclistas, tendo um déficit de ciclovias muito grande. Quando estas se fazem presentes, contemplam apenas vias principais, fazendo com que o usuário desse sistema muitas vezes tenha que competir de forma desvantajosa com os veículos automotores”, explica.

A especialista enfatiza ainda que o problema é agravado pelas condições das calçadas para o uso do pedestre. “Muitas delas ainda estão fora das normas de acessibilidade, a NBR 9050-2015, que rege o uso adequado para todos os indivíduos, inclusive para os portadores de necessidades especiais. Estamos falando de calçadas estreitas, que mal comportam equipamentos urbanos, como postes e abrigo de ônibus, desníveis que dificultam a circulação segura, materiais inadequados, falta de rampa de acesso ou sinalização podotátil no piso (aquele piso com relevo para alertar cidadão de baixa ou nula visão). Isso quando não há problemas com a empatia da população, como estacionar o carro na frente de uma rampa.”

O trânsito é um dos grandes problemas das cidades contemporâneas?
Fonte: Pesquisa redação ES Brasil
Iniciativas

No Espírito Santo, as prefeituras municipais, atendendo à Lei Federal n° 12.587/2012, batizada como Lei da Mobilidade Urbana, que trata da acessibilidade e da mobilidade das pessoas e cargas nos municípios e da integração dos diferentes modos de transporte, estão investindo, inclusive com parcerias, em opções inteligentes que contribuem para um trânsito melhor. Vitória segue na frente, com a implantação de projetos como o Zona de Velocidade Segura, também conhecido como Zona Residencial ou Zona 30, implantado no Bairro República, no Bairro de Lourdes e na Avenida Adalberto Simão Nader, com a expectativa de que, em dois anos, esteja em ação em mais quatro áreas. O projeto, que prevê velocidade máxima de 30 km/h no interior dos bairros, tem como objetivo tornar a convivência entre motoristas e pedestres mais humanizada e segura, além de garantir a segurança viária.

Ainda na capital está implantado o Bike Vitória, sistema de compartilhamento de bicicletas lançado há dois anos que conta com 31 estações distribuídas em toda a cidade e que registra 900 viagens por dia. Os patinetes elétricos, disponíveis em uma área específica, delimitada para suprir a demanda das pessoas e a necessidade de transporte na cidade, também já são uma nova alternativa de mobilidade. Já a Linha Verde, também presente em Vitória, visa a favorecer a coletividade, a mobilidade urbana e a segurança de pedestres e motoristas.

“É necessário melhorar a eficiência do transporte de massa, adotando tecnologias mais modernas e sustentáveis, integrando diferentes modais, priorizando e estimulando seu uso” – Gilson Jacob Bergoc, arquiteto e doutor em Planejamento – Urbano Regional

Em funcionamento na Avenida Dante Michelini há mais de um ano, possui faixa exclusiva para ônibus, vans, táxis e veículos com três ou mais pessoas. Na Serra já está implantado o serviço de uso compartilhado de bicicletas. Atualmente são 20 pontos, totalizando 200 bikes de uso comunitário. Em Vila Velha, além de bicicletas tradicionais, moradores e turistas poderão contar com patinetes e bicicletas elétricas compartilhados. Inclusive, a cidade será a primeira do Brasil a disponibilizar esse tipo de bike. Ainda visando a melhorias na mobilidade urbana, o governador Renato Casagrande assinou, no início de julho, a ordem de serviço para o recapeamento e implantação de ciclovia na Avenida Norte Sul, no trecho que compreende a Avenida Braúna até a Avenida Eudes Scherrer de Souza, no município.

O assunto também é recorrente dentro de instituições de ensino. A diretora de Planejamento e Ensino de Graduação da Universidade Vila Velha (UVV), Gesiane Silveira, explica que o tema é presente na universidade, seja em palestras promovidas pela instituição, seja nos trabalhos de conclusão de curso apresentados pelos alunos. “Questões relacionadas à mobilidade urbana, inclusive, estarão em pauta InovaWeek 2019, uma ação multidisciplinar que engloba todas as áreas do conhecimento, que vai acontecer entre os dias 17 e 20 de setembro”, diz.


A mobilidade é um dos tópicos do próximo ES Brasil Debate – Destravando a Máquina Metropolitana, cuja data será confirmada em breve em nosso site www.esbrasil.com.br


 

 

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